intuição.— Eu acredito que você é capaz de tudo pra não perder o que quer — respondeu, sem tirar os olhos dela. — E ainda não sei até onde isso vai.Por um segundo, o mundo pareceu parar. O olhar de Bia escureceu, uma fissura clara atravessando a fachada doce. Não houve grito, nem escândalo, nem explosão. Só um silêncio frio.Ela recuou um passo, como se tivesse sido empurrada.— Entendi. — O sorriso que surgiu agora era fino, quase imperceptível. — Você não confia em mim.— Eu tô dizendo que… —— Não. — Ela ergueu a mão, cortando a frase pela metade. — Você não confia em mim. E se não confia, qualquer coisa que eu disser vai parecer mentira. Qualquer exame, qualquer prova… você vai olhar procurando defeito.Virou-se, pegando o celular na cama, como se estivesse encerrando uma reunião, não uma conversa de casal.— Amanhã eu marco outro ultrassom. — A voz saiu prática, objetiva. — Você vai comigo. Você vê tudo. As medidas, as datas, o que você quiser. E aí… ou você decide confiar, ou decide ir embora.A objetividade o pegou desprevenido. Era um movimento ousado: se oferecia à prova, sabendo que, mesmo que a conta não fechasse, poderia alegar erro médico, erro de cálculo, variação de ciclo. Ainda assim, exigia uma escolha definitiva.— Não é tão simples assim — ele contestou.Ela se virou de novo, e o que havia nos olhos agora era cansaço sincero ou uma imitação perfeita dele.— Pra mim é. — Deu de ombros. — Eu não vou viver com alguém que me olha como se eu fosse uma criminosa.Matteo sentiu o peso da palavra. Criminosa. Como se ele fosse o agressor por desconfiar, e não alguém tentando entender se não estava sendo enganado.— Então marca — disse, por fim. — A gente vai. Juntos.Ela assentiu, devagar.— E até lá… por favor, para de me punir pelo que você pensa que eu posso ter feito. — A frase soou baixa, mas firme. — Eu não sou o monstro da sua cabeça, Matteo.Ele não respondeu.Quando as luzes se apagaram e o quarto mergulhou na penumbra, o corpo de Bia deitou ao lado do dele na cama, mantendo uma distância exata: nem perto o bastante para conforto, nem longe o bastante para parecer briga. Um limbo calculado.Matteo encarou o teto, ouvindo a respiração ritmada ao seu lado. A mente, porém, não descansava. Revisitava cada conversa recente, cada gesto, cada lágrima — tentava separar o que era dor verdadeira do que podia ser encenação.Em algum ponto da madrugada, quando o mundo parecia suspenso, a imagem que veio não foi a de Bia na sala, nem no quarto. Foi a de Aurora, num dos muitos confrontos que haviam tido, olhos verdes em fogo, jogando verdades na cara dele sem poupar a própria pele.Com Aurora, a mentira seria barulhenta. Com Bia, se existia mentira, era silenciosa, delicada, envolta em justificativas macias. E isso, Matteo começava a perceber, era infinitamente mais perigoso.Fechou os olhos, mas o sono não veio. Não naquela noite em que, pela primeira vez, ele admitia para si mesmo que a fissura não estava apenas entre ele e Bia. Estava dentro dele. Entre o homem que acreditava em tudo o que via… e aquele que, finalmente, começava a enxergar