capitulo 1 e 2
CAPÍTULO 1: O HERDEIRO SOMBRIO
A chuva caía sobre Feira de Santana como se o céu estivesse chorando a perda de um segredo que nunca deveria ter sido revelado. O velório de meu pai, Antônio Varella, reunia pessoas que eu m*l conhecia — homens de terno escuro, olhares furtivos e sorrisos que não chegavam aos olhos. O ar estava pesado, carregado de perfume barato, flores murchas e um cheiro sutil de perigo que eu ainda não conseguia nomear. Eu, Elena, sempre fui a filha protegida, a que não devia perguntar sobre os negócios misteriosos, as viagens repentinas e as reuniões fechadas à noite. Mas ali, parada diante do caixão lacrado, sentia que o mundo que eu conhecia havia desaparecido junto com ele.
Foi quando ele apareceu. Dante Moretti entrou na capela como se fosse o dono da morte, com passos silenciosos que fizeram até o ar parar de se mover. Era um homem alto, com ombros largos cobertos por um terno de corte impecável, preto como suas intenções. Seus cabelos escuros caíam levemente sobre a testa, mas eram seus olhos que prendiam a atenção — dois pedaços de gelo escuro, capazes de enxergar dentro da alma e encontrar todos os segredos escondidos. Ele não olhou para ninguém além de mim. Caminhou pelo corredor central, ignorando os murmúrios dos presentes, e parou a poucos centímetros de meu corpo. Sua presença era avassaladora, uma mistura de poder e perigo que fazia meu coração disparar em pura inquietação.
— Elena — disse ele, com uma voz grave, profunda, que parecia ressoar em cada parede do local. Não foi um cumprimento, mas uma afirmação de propriedade.
Eu engoli em seco, recuando um passo instintivamente, mas seus olhos não me deixaram escapar. Ele estendeu a mão, tocando meu queixo com um toque surpreendentemente suave, mas com uma firmeza que me impedia de mover a cabeça. Todos ao redor pareciam não notar a tensão que se formava entre nós, um campo de forças invisível que nos isolava do resto do mundo.
— Seu pai e eu tínhamos acordos — continuou Dante, aproximando o rosto até que eu pudesse sentir o calor de sua respiração. — E na minha vida, quando um acordo é selado, nada fica inacabado. Nem mesmo a morte pode apagar o que foi estabelecido.
— Quem é você? — sussurrei, com a voz trêmula, lutando para manter o contato visual sem me sentir despida.
— Sou o homem que vai tomar conta de tudo o que ele deixou — respondeu ele, e um brilho possessivo cruzou seu olhar, algo que me deixou arrepiada da cabeça aos pés. — Incluindo você. A partir deste momento, ninguém mais pode tocar, olhar ou desejar o que é meu. E você, Elena... agora é minha propriedade.
A frase caiu como uma sentença de prisão perpétua. Ele virou-se lentamente e saiu da capela, mas a sensação de seu toque permaneceu em minha pele, queimando como uma marca de fogo. Eu não sabia ainda que aquele encontro era o início de uma guerra onde eu seria o prêmio principal, e ele, o general que não aceitaria derrotas.
CAPÍTULO 2: A PRIMEIRA AMEAÇA
Os dias que se seguiram ao velório foram um turbilhão de confusão e medo. Os advogados resolveram a parte legal da herança, mas uma sombra escura pairava sobre minha casa. Os empregados pareciam assustados, sussurravam pelos corredores e evitavam me olhar nos olhos. Eu tentava manter a rotina, fingir que nada havia mudado, mas sentia os olhos invisíveis me acompanhando por todos os cômodos. A segurança da casa, que antes parecia intransponível, agora parecia frágil como papel.
Naquela tarde, o interfone tocou. Não era uma visita esperada. Quando pedi para identificarem-se, houve silêncio do outro lado. O coração disparou no peito. Peguei uma faca da cozinha, tremendo, e fui até a porta da frente. Ao abrir, não havia ninguém, mas no chão, sobre o capô do meu carro, havia uma rosa vermelha com os espinhos envenenados e um bilhete escrito em tinta preta com letra afiada: “O que pertence a Moretti não nos interessa, mas ele não consegue proteger tudo. Cuidado com as sombras, menina”.
O pânico tomou conta de mim. Corri para dentro, tranquei todas as portas e janelas, mas a sensação de estar observada só aumentou. Ao entardecer, ouvi o som de pneus cantando no asfalto. Um carro preto, grande e sem placa, parou em frente à residência. Os faróis me cegaram por instantes. Do veículo, saiu Dante, com a mesma imponência de antes, seguido por dois homens musculosos, armados e com expressões impassíveis. Ele subiu os degraus da varanda devagar, como se estivesse com todo o tempo do mundo, e bateu à porta com autoridade.
Ao abri-la, ele não esperou convite para entrar. Caminhou pela sala de estar, inspecionando cada canto, cada janela, cada fresta onde um inimigo pudesse se esconder. O ar ficou pesado com sua presença. Ele parou diante de mim, pegando o bilhete que eu ainda segurava com as mãos trêmulas, leu rapidamente e o amassou com força, jogando no chão como se fosse lixo.
— Eles estão testando meus limites — rosnou ele, com a mandíbula cerrada e os olhos brilhando de fúria contida. — Mas não vão chegar perto. Você acha que eu não sabia que eles estavam circulando? Eu deixei que chegassem até a porta para saber quem são os ratos.
— Estou com medo, Dante — confessei, sem querer, perdendo a força nas pernas. Ele me segurou pelos braços com firmeza, quase me machucando, mas me mantendo de pé.
— Medo é bom, mantém você alerta — sussurrou ele, inclinando-se para que só eu ouvisse. — Mas nunca tema o que está ao seu lado. Tema apenas o que está contra mim. Porque se alguém toca em um fio do seu cabelo, eu arrancarei a vida de todos os envolvidos, com minhas próprias mãos. Você é minha. Ninguém toca no que é meu.
Ele passou o polegar sobre meu lábio inferior, num carinho que doía pela intensidade, e então ordenou que seus homens fizessem uma varredura completa no local. Naquela noite, entendi que minha liberdade havia acabado, mas também que havia um monstro poderoso me protegendo — e esse monstro tinha ciúmes até do ar que eu respirava.