DANTE NARRANDO
Me chamo Dante. Tenho 28 anos, 1,90 de altura, pele escura e tatuagens espalhadas pelo corpo.
Frio. Calculista.
Fechei o coração no dia em que me tornei dono do morro.
Quando eu tinha vinte anos, meu pai, que na época era o dono dessa p***a toda, foi preso. Passou dois anos tentando sobreviver lá dentro enquanto eu segurava a barra aqui fora. Sempre fui o braço direito dele. Com a prisão, surgiu muita coisa pra resolver. Meu irmão, que até então não se envolvia com o crime, passou a me ajudar.
Mas em uma madrugada chegou o recado que mudou tudo: mataram meu pai na covardia dentro daquela prisão.
Revolta e tristeza. Assumi a cadeira de vez. Meu irmão se tornou meu braço direito nessa. Tava tudo sob controle, até os alemão invadirem. No meio daquela guerra, meu irmão perdeu a vida. Deixou a mulher grávida.
Minha mãe entrou em depressão. Não tinha se recuperado da perda do marido e perdeu um filho. Eu também tava arrasado. Quem nos salvou foi o Vitinho. Quando a Suelen deu à luz, o Vitinho tirou minha mãe da depressão e me devolveu o chão pra pisar.
Hoje ele tem quatro anos. Cuido dele como se fosse meu. Não tem um dia sequer que eu não passe na casa da Suelen pra ver ele. Levo pra passear, faço por ele o que meu irmão faria se estivesse vivo.
A Suelen me pediu pra trabalhar na boca. Ela é inteligente e de confiança. Coloquei ela na gerência e, hoje, ela é meu braço direito. Esforçada pra c*****o nos treinos, os moleques ficam bestas com a agilidade dela. Comanda uma invasão melhor do que muito moleque por aí.
Nós tratamos os moradores com respeito, mantemos a comunidade em ordem. Mas se pisarem fora da linha por aqui, já sabe: é sem perdão. Não sou de aliviar pra ninguém e não pretendo mudar isso.
* * *
Montei na moto, dei partida e segui direto pra casa da minha mãe. Sempre que dá, apareço por lá pra pegar aquela benção que só mãe tem pra abençoar o filho.
Estacionei a moto em frente, entrei no portão e abri a porta da casa. Fui direto pra cozinha — sei que pela manhã é sempre lá que encontro ela.
— Bençã, mãe — falei, vendo ela perto do fogão.
Ela largou a panela, veio até mim e passou a mão no meu rosto antes de me dar um beijo.
— Deus te abençoe, meu filho. Já tomou café?
— Não, mãe. Vim tomar com a senhora.
— Então senta aí que vou só tirar o bolo do forno.
Assenti, puxando a cadeira e sentindo aquele cheiro bom de bolo assando. Ela colocou a mesa, serviu o café e se acomodou à minha frente. A gente ficou um tempo em silêncio, só comendo e tomando café. É nessas horas que o peso do morro some um pouco.
— E o Vitinho, meu filho? Já viu ele hoje? — ela perguntou, arrumando a gola da minha camisa, como fazia desde que eu era moleque.
— Ainda não. Mas assim que terminar aqui vou lá na Suelen ver ele.
Ela sorriu.
— Mais tarde, quando for buscar ele na escola, vou levar na pracinha. Prometi isso pra ele ontem, meu filho.
— Ele ama a pracinha. Se dependesse dele, passava o dia todo lá.
— Isso é verdade.
Terminei o café, levantei e dei um beijo na testa dela.
— Tô indo nessa, mãe. Vou ver o Vitinho e de lá vou no asfalto resolver umas paradas.
— Tá, meu filho. Toma cuidado.
— Sempre, mãe.
Saí andando até a moto e segui pra casa da Suelen. Quando cheguei, entrei e já vi o Vitinho na sala, arrumado pra ir pra escola. Ele veio correndo assim que me viu.
— Tio Dante!
— Oi, campeão. E aí, como tu tá?
— Tô bem!
— Cadê tua mãe?
— Tá lá em cima se arrumando pra me levar pra escolinha.
Foi só ele terminar de falar que vi a Suelen descendo a escada. p***a. Ela cada dia que passa fica mais gata.
— Bom dia, Dante — ela disse, se aproximando.
— Bom dia. Passei só pra ver o Vitinho, mas já tô indo nessa. Vou dar uma passada lá na boate do asfalto.
— Aquela boate tá nos dando um bom lucro.
— É, tô sabendo. Mas hoje vou lá como cliente mesmo.
Ela cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha.
— Você não tem jeito, né? Arruma uma mulher direita e sossega, Dante.
— Isso não é pra mim não, Suelen.
— Isso é pra qualquer um, Dante. Basta querer.
— Que papo torto da p***a. Tô indo nessa, viu.
Fiz um toque com o Vitinho e ele riu.
— Tchau, tio!
— Tchau, campeão. Mais tarde sua vó vai te levar pro parquinho, depois da escola.
— Oba! Eu adoro o parquinho!
Dei um sorriso vendo a alegria dele e saí.
Peguei a moto e desci o morro. A brisa bateu no rosto, o barulho do motor ecoando pelas ladeiras estreitas. Lá embaixo, o asfalto me esperava com suas luzes, seus perigos e suas mulheres fáceis. Precisava descarregar pra render no trabalho.
As da boate são tudo top. Já levei quase todas pra cama.
Essa história de se prender a uma mulher só... pra quê? Se eu tenho um harém aos meus pés?