SUELEN NARRANDO
Me chamo Suelen. Tenho 25 anos, sou morena, cabelo cacheado e um corpo que me agrada, resultado dos treinos que faço todo fim de semana.
Vim morar no Morro da Penha quando tinha 17 anos, junto com a minha mãe. Um ano depois, conheci o Danilo, irmão do Dante. Depois de muitas conversas e passeios, ele me pediu em namoro. Estávamos felizes e passamos a morar juntos em uma casa boa aqui no morro.
Não demorou muito pra eu descobrir que estava grávida. Todo mundo ficou feliz com a notícia.
Mas como tudo que é bom dura pouco, veio um baque atrás do outro.
Primeiro, perdi minha mãe para o câncer.
Depois, quando já estava com oito meses de gravidez, perdi o Danilo durante uma invasão pesada aqui na Penha. A família ficou destruída. Minha sogra entrou em depressão, e o Dante quase seguiu pelo mesmo caminho.
Eu nem sei falar sobre aquela época. Ficava trancada no quarto, chorando e lembrando de cada momento nosso.
Um mês depois, o Vitinho nasceu. E trouxe esperança para cada um de nós. Minha sogra se curou da depressão. O Dante enxergou um caminho pra seguir. E os meus dias ganharam sentido.
Ele foi a nossa cura.
Hoje ainda dói lembrar. Mas não como antes.
Me tornei braço direito do Dante nos negócios do tráfico. E não foi por falta de oportunidade fora, nem por ser obrigada. Foi por escolha minha. Quando o Danilo era vivo e ajudava o Dante enquanto o pai estava preso, eu sempre estava ao lado dele nesse corre. Tomei gosto. Decidi entrar de cabeça.
E é assim que vivo hoje: defendendo a minha família e a minha comunidade.
* * *
Nessa manhã, deixei o Vitinho na sala assistindo desenho enquanto me arrumava para levá-lo à escola. Depois, seguiria para a base.
Vesti uma calça jeans que marca bem o corpo e uma camisa preta de manga curta. Prendi o cabelo em um r**o de cavalo alto, me perfumei e calcei o tênis. Coloquei a peça na cintura — não saio sem ela de jeito nenhum.
Desci as escadas e ouvi a voz do Dante conversando com o Vitinho.
Quando ele me viu, me analisou de cima a baixo. Às vezes acho que o Dante tem uma queda por mim. Mas nunca se aproximou. Talvez por respeito ao irmão. Eu também fico na minha. Até porque o Dante é mulherengo, e eu já sou daquelas que, quando se envolve com alguém, leva a sério.
Ele se despediu e saiu.
Peguei a mochila do Vitinho e a chave do carro. Saímos de casa.
* * *
Estacionei em frente à escola. Me despedi do meu pequeno como sempre.
— Boa aula, meu amor. Se comporta, tá? Mais tarde a vovó vem te buscar pra te levar na pracinha.
— Tá bom, mamãe.
— A mamãe te ama.
Dei um beijo nele e vi ele passar pelo portão da escola.
Entrei no carro novamente e segui pra base.
Agora era hora de deixar de lado a mãe carinhosa e dar lugar à mulher de pulso firme. Foi assim que conquistei o respeito — sabendo diferenciar a Suelen da família da Suelen do tráfico.
Cheguei na base e estacionei o carro no fundo, bem longe dos olhos curiosos. Desci, ajustei a peça na cintura e caminhei em direção à entrada principal. Os moleques da ronda me viram chegando e imediatamente se endireitaram, como se um general tivesse entrado no quartel.
— Bom dia, Suelen! — um deles gritou, levantando a mão num cumprimento.
— Boa, Paulinho. Tudo calmo por aqui?
— Tudo tranquilo, patroa. Só uns gato pingado pedindo fiado na boca, mas já cortamos.
— Aprendeu rápido.
Ele sorriu, meio sem graça. Moleque novo, mas com potencial. Dante tinha um faro bom pra escolher os meninos.
Entrei na base e o movimento já estava a todo vapor. Os rádios chiavam sem parar. Homens iam e voltavam carregando sacolas de dinheiro, enquanto, nas salas dos fundos, outros embalavam os pacotes. O cheiro de maconha e pólvora sempre me incomodava nos primeiros minutos. Depois, me acostumava.
Parei no meio do salão e bati palmas.
— Atenção, cambada!
Todo mundo parou. Alguns olharam assustados, outros já sabiam que era hora de ouvir.
— Quero a ronda da manhã reforçada na parte de baixo. Ontem teve movimento estranho perto do beco do Zé. Nada de molecagem, ninguém sai da posição sem autorização. Se virem carro desconhecido, avisam no rádio na hora. E, por favor, alguém pode me explicar por que a contagem de ontem veio com três quilos a menos?
Silêncio.
Olhei para cada um deles. Alguns desviaram o olhar. Outros mexeram no rádio como se estivessem ocupados.
— Tá, ninguém quer falar? Então vou descobrir sozinha. E quando descobrir...
Deixei a frase no ar. Era melhor assim. Eles sabiam que eu não era de ameaçar à toa.
— A lista de entregas de hoje já tá pronta? — perguntei, virando pro Caio, que cuidava da logística.
— Tá sim, Suelen. Já separei os endereços e os pacotes.
— Mostra depois na minha sala. E manda o Léo subir pra falar comigo. Quero saber por que ele atrasou a entrega da zona sul ontem.
— Pode deixar.
Assenti e segui em direção ao corredor que levava à minha sala. Pequena, mas com o essencial: uma mesa, um computador, uma cadeira confortável e uma garrafa de água sempre cheia. Na parede, uma foto do Vitinho e outra do Danilo, abraçados num domingo qualquer.
Sentei, liguei o computador e comecei a conferir os relatórios da semana. Os números estavam bons, mas algo me incomodava. Não era a contagem, não era a entrega. Era um pressentimento estranho, daqueles em que a gente aprende a confiar depois de tanto tempo no corre.
Olhei pela janela. Lá embaixo, a favela fervia como sempre. Vi as crianças correndo, as mulheres lavando roupa e os homens jogando dominó na esquina. E, no meio de tudo isso, a nossa estrutura invisível funcionando.
Bati os dedos na mesa, tentando entender o que me deixava tão inquieta.
O Caio bateu na porta e entrou com uma pasta debaixo do braço.
— Suelen, tá aqui a lista de entregas de hoje. E o Léo já tá lá fora esperando.
— Manda ele entrar.
Caio saiu e, segundos depois, o Léo apareceu na porta. Cabeça baixa, mãos sujas de graxa. Sabia que tinha aprontado.
— Fala, Léo. O que aconteceu ontem?
Ele pigarreou.
— A moto furou o pneu, patroa. Tive que parar no meio da zona sul, perdi um tempão trocando. Mas entreguei tudo, juro.
— Atrasou quanto?
— Meia hora. Só isso.
Respirei fundo. Meia hora não era o fim do mundo. Mas no nosso ramo, meia hora podia significar uma visita indesejada.
— Da próxima, avisa antes. Não some com a mercadoria sem dar satisfação.
— Sim, patroa. Pode deixar.
— Tá liberado.
Ele saiu aliviado. Eu voltei aos papéis.
Passou mais um tempo. O rádio chiou algumas vezes, mas era só os meninos confirmando as rondas. Nada de anormal.
O balanço de ontem tinha sido a única coisa fora do lugar. Três quilos a menos. Alguém estava roubando. Ou alguém estava contando errado. De qualquer forma, precisava descobrir.
Levantei da cadeira e fui até a porta da sala.
— Caio! — chamei.
Ele apareceu na hora.
— Fala, Suelen.
— Quero a planilha de entrada de ontem. Todas as notas, todas as assinaturas. Alguém tá fazendo merda com a contagem e eu vou descobrir quem é.
— Sim, senhora. Já trago.
— E manda subir o café. Tô precisando.
Ele assentiu e saiu correndo.
Voltei pra mesa e sentei. A sensação estranha continuava ali, como um fio invisível puxando meu instinto. Não era a contagem. Não era o Léo. Era outra coisa. Algo no ar. Algo que eu não sabia nomear ainda.
Olhei pela janela de novo.
O sol já estava alto, a favela fervendo como sempre. Mas algo parecia diferente. Uma quietude estranha, como se o morro estivesse prendendo a respiração.
Sacudi a cabeça. Paranoia. Depois de tanto tempo no corre, a gente ficava assim, esperando o pior a cada esquina.
O Caio voltou com a pasta e o café. Colocou tudo na mesa e saiu sem dizer uma palavra. Abri a pasta e comecei a comparar as notas, uma por uma. As assinaturas batiam. Os números, não.
Três quilos.
Não era muito, mas era o suficiente para alguém encher o bolso. E, no morro, quem rouba da boca não dura muito tempo.
Ia descobrir. Só questão de tempo.
Respirei fundo e tomei um gole de café. Depois, continuei conferindo as notas. Ainda tinha muito trabalho pela frente. E o pressentimento de que algo estava prestes a acontecer só crescia.