Capítulo 6 - Mãe

1805 Words
Sienna acenou para a enfermeira na recepção ao seguir para o quarto de sua mãe. Nunca gostara de casas de repouso, mas essa era melhor do que a maioria, com instalações de ponta, uma ótima proporção de enfermeiras para pacientes e médicos exemplares. Ainda assim, conseguia ouvir gemidos de dor ao longo do corredor e sentir o cheiro do desinfetante vindo do quarto próximo onde um paciente peculiar residia. Os palavrões de uma mulher zangada ecoavam pelo ambiente. Ela estava grata por sua mãe não parecer tão agitada quanto os outros pacientes. Ao entrar no quarto, viu sua mãe lendo um livro. Carla, sua mãe, ergueu os olhos com um olhar vago, indicando que não se lembrava dela naquele momento. "Oi", Sienna cumprimentou. "Como você está hoje?" "Você é mais uma enfermeira vindo tirar mais sangue de mim?", respondeu Carla. "Não, só vim dizer oi. O que você está lendo?" Carla olhou para o livro confusa. "Encontrei na minha mesinha de cabeceira e pensei que talvez alguém tivesse deixado para mim." Ela se inclinou para frente e sussurrou: "Está sujo." Sienna se aproximou e sentou-se na cadeira em frente a ela, olhando pela janela. "Sujo? Esse é um dos seus romances de bolso favoritos, não é? Talvez eu precise pegar emprestado." Carla sorriu com as palavras de Sienna. "Não conte para a minha mãe. Ela fica brava comigo quando eu leio essas coisas." "Ela fica brava?", Sienna riu, olhando nos olhos tão parecidos com os seus. "Minha mãe me fez entrar na faculdade de enfermagem para que não dependesse de nenhum homem para cuidar de mim." "Isso parece muito prático." "É, mas eu tenho um segredo", sua mãe colocou o dedo nos lábios. "Não conte para ninguém, mas eu conheci um homem." "Uau", Sienna fingiu surpresa. "Como ele é?" "Ele se chama Damien. Ele é de Nova York." Sienna forçou outro sorriso. Ela sabia que o nome de seu pai biológico era Damien. "Minha mãe ficaria muito brava se soubesse que eu o ajudei. Ele é tão bonito, mas ele se machucou." Carla sussurrou como se compartilhando uma confidência. "Alguém atirou nele." Sienna não sabia como responder. Durante sua infância, não sabia nada sobre seu pai. Sua mãe a apresentara apenas uma vez, quando ele a agrediu. O nome dele nem estava em sua certidão de nascimento, e ela não tinha ideia do seu sobrenome. "Você deve ter ficado com medo quando ele foi baleado." "Foi assim que nos conhecemos. Eu estava saindo do meu turno no hospital e alguns homens me obrigaram a ir com eles para ajudar. Eu tive que dar pontos nele. Ele veio me ver depois. Ele me puxou para dentro de um armário de vassouras. Foi muito sexy." Sienna sentiu um nó no estômago. Era desconfortável ouvir essas histórias de sua mãe, não sabendo se eram verdadeiras ou fantasias. "Sra. Lawrence, você gostaria de levar sua mãe para a sala de jantar ou comer aqui no quarto com ela esta noite?", uma enfermeira interrompeu. Sua mãe respondeu com um resmungo: "mãe? Eu sou jovem demais para ser mãe dela." "Desculpe, Sra. Lawrence", a enfermeira corrigiu. "Se eu tiver uma filha, vou chamá-la de Sienna. Minha melhor amiga quando eu era jovem se chamava Sienna. Ela morreu quando estávamos no ensino médio. Sinto tanta saudade dela." Sua mãe começou a chorar e Sienna sentiu seu coração apertar. "Sinto muito que você tenha perdido sua amiga", ela acariciou suavemente a mão de sua mãe. Vários minutos depois, sua mãe voltou a olhar pela janela e olhou para Sienna como se a visse pela primeira vez. "Quem é você?" "Eu sou uma visitante aqui. Vim ver se você gostaria de jantar comigo." "Você é tão bonita. Por que ficaria aqui comigo para jantar? Você não tem um namorado?" "Não", ela balançou a cabeça tristemente. "Não tenho. Eu estava focada nos meus estudos e cuidando da minha mãe. Eu tinha alguém por quem eu me importava, mas descobri que ele é um mentiroso, um trapaceiro, que tinha uma namorada por dois anos inteiros e nunca me contou." "Oh, não", os olhos de Carla se arregalaram. "Você é a outra mulher? Como eu? Descobri que meu namorado Damien é casado. Tentei me controlar, mas ele é muito persuasivo. Descobri que ele tinha uma esposa e pedi para ele não voltar." Ela fungou. "Eu o amo muito. Ele ficou com raiva quando disse para ele nunca mais voltar." "Sinto muito que ele tenha ficado com raiva." Sua mãe colocou as mãos na barriga. "Estou grávida. Shh", ela sussurrou para Sienna. "Ele veio me ver e eu disse que íamos ter um bebê e...", ela fungou, "ele me disse para fazer um aborto. Ele tem esposa e três filhos em casa, e eu não sabia. Eu disse para ele sair e nunca mais voltar. Ele deixou dinheiro na mesa para o procedimento, mas eu não vou fazer. Espero ter uma menina. Uma linda menininha." Que merda, pensou Sienna consigo mesma enquanto olhava ao redor do quarto em busca da pilha de livros que sua mãe gostava de ler. Sua mãe estava inventando coisas a partir dos livros ou isso era uma memória real que ela havia acessado de repente? "Devemos jantar, para que meu bebê tenha comida", disse sua mãe de repente. "Sim, claro", Sienna tentou manter uma expressão séria enquanto empurrava sua mãe pelos corredores em direção ao refeitório. Essa foi uma das conversas mais bizarras que já teve com sua mãe. "Espero ter uma menina." "Torço por você", respondeu Sienna, embora se perguntasse sobre a veracidade das palavras de sua mãe. "Minha mãe vai ficar furiosa comigo", continuou Carla, confidenciando. "Tenho certeza de que ela vai se acalmar", Sienna tentou tranquilizá-la, apesar de suas próprias dúvidas. Ela deixou sua mãe em uma mesa para duas pessoas perto da janela e prometeu trazer uma refeição nutritiva para seu filho ainda não nascido. A enfermeira que tinha ido ao quarto encontrou-a perto do balcão. "Você parece preocupada, Sienna. Está tudo bem?" Ela olhou para onde sua mãe estava olhando pela janela e suspirou, "hoje ela acredita que está grávida. Ela não consegue se lembrar do café da manhã de hoje, mas se lembra de vinte e seis anos atrás como se estivesse acontecendo agora." "Grávida? Isso é novidade para ela." "Eu sei. Estou começando a pensar se talvez não devêssemos permitir que ela continue lendo os romances que temos dado para ela. Ela está misturando-os com suas memórias e sua realidade. Ela me contou uma história sobre ser sequestrada para ajudar um cara mau e se apaixonar por ele." A enfermeira assentiu. "É digno de um livro. Vou mencionar isso ao médico quando ele fizer a visita de rotina amanhã. Sienna", ela apertou o antebraço dela, "não se estresse muito com as histórias. Ela está muito comunicativa. Preocupe-se quando ela parar de nos contar as histórias ou passar mais tempo em sua própria cabeça, olhando para o espaço sem falar. Aí podemos começar a nos preocupar. Ela pode estar inventando histórias, mas está falando." "Eu sei, e você está certa, mas é difícil quando não consigo distinguir o que é real do que não é. Se a história que ela me contou tiver um pouquinho de verdade, quem pode dizer que não é tudo verdade e coisas que ela manteve escondidas de mim. Ela nunca escrevia em diários, mas tinha segredos." "Você acha que ela se apaixonou por um cara mau?" "Eu sei que ela se apaixonou", Sienna riu enquanto aceitava o prato de jantar do servidor atrás do balcão. "Meu pai era um pedaço de merda abusivo." "Ele morreu?" "Não posso dizer. Eu sei que ele vinha para nossa casa tarde da noite e saía de manhã. Muitas vezes, eu ficava na casa da minha avó por vários dias porque ele estava na cidade. Eu sabia disso porque minha avó ficava sentada perto do telefone como se esperando uma ligação. Ele costumava", ela engoliu com as memórias, "ele era violento com ela. Não sei se ele era violento com ela antes de eu nascer, mas depois ficou cada vez mais violento." "Sinto muito que você tenha passado por isso." "Eu não passei", ela deu de ombros. "Foi a mãe. A mãe sobreviveu ao abuso dele. Sei que nos mudamos algumas vezes, e ele a encontrava e a punia por tentar deixá-lo. Ele era um homem doente. Muito doente." "Sua pobre mãe." "Sim, e acho que é por isso que ela sempre amou seus romances. Acho que ela sonhava em ter um homem que, apesar de ser um i****a completo para o resto do mundo, a adorasse. Em vez disso, ela se apaixonou pelo d***o que não adorava nada. Ela conseguia se perder em suas histórias, fantasiando em escapar do inferno de nossas vidas. Me sinto m*l por falar em tirá-las dela, mas se isso vai mexer com a cabeça dela." Ela terminou tristemente. "Sienna, a cabeça dela já está confusa", a enfermeira deu uma risada triste. "Deixá-la viver um pouco de fantasia não vai prejudicá-la. Você tem se saído bem trabalhando com sua mãe, não a corrigindo e permitindo que ela seja quem ela quiser e onde quer que esteja no momento. Eu sei que é difícil para você deixá-la se afundar em inverdades, mas acredito que isso não lhe cause nenhum dano real." "E se ela ficar presa na violência das memórias do meu pai? Ela está pensando que está grávida agora, mas e se isso piorar?" "Nós vamos lidar com isso quando chegar a hora. Por enquanto, aproveite o fato de que ela ainda está conversando sem parar e está tranquila." Ela olhou significativamente para um homem sentado em uma mesa em grupo que mais de uma vez, quando Sienna o visitou, se tornou violento e precisou ser contido porque estava paranoico achando que todos no lar estavam querendo prejudicá-lo. Sienna assentiu e agradeceu à enfermeira pela conversa, e levou o jantar de sua mãe até ela. "Oi. Eu encontrei purê de batatas, cenouras e presunto, e ainda tem pudim de chocolate." "Eu adoro pudim de chocolate", sua mãe respondeu animadamente enquanto desviava os olhos do jardim. "Você vai precisar comer todas as coisas saudáveis antes do pudim." "Aham", respondeu sua mãe com um brilho nos olhos. "Eu sou uma adulta com um bebê na barriga. Se eu quiser comer a sobremesa primeiro, eu posso." Sienna riu da brincadeira de sua mãe e então trocou o prato da refeição pelo do pudim. "Sabe de uma coisa, você está certíssima. Coma o pudim primeiro." Enquanto sua mãe gargalhava de alegria por poder agir de forma que ela considerava travessa, Sienna sorriu ao pensar no que a enfermeira havia dito. Não estava prejudicando ninguém permitir que sua mãe descanse em suas memórias e sorria. Ela ia aproveitar o bom humor dela pelo tempo que pudesse.
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