BERNARDO
Minha rotina era bem comum. Acordava por volta das seis, corria pelo parque até as sete e quinze, tomava banho, café e, às oito e meia, iniciava minhas atividades no hospital. Claro, quando não havia plantões. Nesses dias passava o tempo todo no hospital, com pequenas pausas para dormir vinte ou trinta minutos antes de chegar um traumatismo, um infarto ou uma cirurgia de emergência. Isso sempre causava briguinhas entre Gina e eu, uma vez que me recusava a tirar férias havia três anos, não via motivos para fazê-lo, pois ficar parado acabaria por me levar a um estado de melancolia ao qual estava determinado a evitar.
Quando saí do banho ouvi o som insistente do celular sobre a cômoda e me apressei em atender sem ao menos olhar quem era, poderia ser algo sobre a paciente que havia levado para o hospital, não conseguia deixar de me preocupar com aquilo, ela não estava bem.
— Alô? — chamei com ansiedade.
— Bê! — A voz de Brígida do outro lado me fez relaxar de alívio. — Finalmente atendeu o maldito celular!
— Eu estava no banho. — Dei uma risada — Desculpe.
— No banho desde ontem?! — reclamou com ironia. — Você não tem pudores, não te disseram pra economizar água?
— Sou um rebelde nato, você sabe. — Sorri mesmo sabendo que ela não podia ver. — Mas diga, em que posso te ajudar?
— Queria saber se você ainda estava vivo, Gina me disse do plantão, é o terceiro em duas semanas, Bernardo, se quer se m***r há modos mais fáceis. Eu mesma posso envenenar seu vinho, por exemplo.
— Seria meio irônico alguém que salva vidas tirar a própria vida, não concorda?
— Irônico mesmo é a sua completa falta de vergonha! — Brigou ela. — O que vai fazer nesse fim de semana, e nem sonhe em usar a palavra hospital do contrário vou te promover de médico a paciente!
— O que tem em mente? — Arrisquei dando uma leve risada.
— 28 anos, mestrado em administração, oradora da turma na faculdade, sem futilidades.
— Passo — suspirei tentando escolher uma camisa. — Estou ocupado.
— Você está sempre ocupado, Bernardo Persson! — reclamou. — Se eu for esperar sua agenda para marcar um encontro às cegas só vou conseguir isso quando você tiver 70 anos e as senhoras do asilo estiverem cegas demais. Qual é? O que é tão importante naquele maldito hospital que não pode sobreviver um dia com qualquer outro dos 25 médicos?
— Estou com uma paciente VIP.
— Você tem centenas de pacientes VIP. Isso não é desculpa — bufou.
— É uma paciente VIP que não pode ser atendida por outro médico — enfatizei esperando que ela desistisse.
— Não me diga que a sua presunção tá te tornando ciumento agora. — Podia visualizá-la revirando os olhos naquele momento, mesmo sem vê-la. — Sério, vou aparecer no hospital hoje, pode esperar!
— É sempre um prazer vê-la, Bri! Preciso desligar agora.
Éramos amigos desde a faculdade. Meu pai era americano e minha mãe, brasileira, havia nascido nos EUA ao contrário de Brígida que era brasileira e fora estudar lá aos 19 anos. Era calorosa e divertida como o povo de seu país que nunca cheguei a conhecer mesmo sendo parte de lá. Conseguiu o visto permanente depois de ser admitida em uma empresa de publicidade, era uma das melhores no que fazia e nossa amizade se consolidou por completo desde que nos esbarramos no refeitório da universidade.
No início, seu inglês era um pouco atropelado pelo nervosismo, mas ajudou o fato de eu falar português com determinada fluência, até certo ponto, por causa da minha mãe. A vivacidade e carisma dela me envolveram, sempre fora muito focado nos estudos e vivia em constante tensão por causa da faculdade, ela me ajudara a relaxar mais um pouco, embora vivesse controlando sua influência na minha diversão. Tornamo-nos amigos, companheiros de encrenca e, em alguns casos, parceiros de crime — quando me casei com ela só para que conseguisse a cidadania americana.
— Pensei que ficaria em casa hoje — reclamou Gina quando me viu pronto para voltar ao hospital. — Não me diga que vai fazer plantão de novo, menino!
— Não é isso, Gina — tranquilizei-a enquanto me servia da deliciosa e fumegante comida. — Estou com uma paciente em estado grave, longa história.
— Bernardo, não aja como se fosse o único médico naquele hospital — repreendeu-me. — Você também é de carne e osso, filho, vai acabar ficando doente nesse ritmo.
— Ela não é uma paciente que eu possa confiar a outro médico — suspirei. — Não faço ideia de quem ela é ou de onde veio. Ela não tem documentos, estava ferida gravemente a poucas ruas daqui. Pode ser uma imigrante ilegal, uma fugitiva, não sei. Mas não posso atirá-la aos cães nesse estado, Gina.
— Santo Deus! — Pôs a mão no coração, chocada. — Está dizendo que escondeu uma possível assassina no seu hospital?
— Não leve pra esse lado também! — admoestei. — Ela estava muito ferida, acho que é mais vítima que criminosa. Ainda assim, só vou ter respostas quando ela acordar. Quase a perdi no pós-operatório, Gina. Vou ser muito mais implicado se algo acontecer com ela porque me dei como responsável uma vez que não tinha para quem ligar.
— Pelo menos me prometa que vai voltar pra casa hoje...
— Eu prometo. — Sorri acariciando a mão dela. — Só vou ver se ela está bem e volto para dormir em casa, palavra!
Com um suspiro cansado, minha babá deu-se por satisfeita. Voltei a comer, mas não com tranquilidade. Me vi incapaz de deixar de pensar na garota deixada no hospital, que m*l poderia ter feito para ser tratada daquela maneira tão brutal? Com certeza alguém tentara matá-la e por bem pouco não obtivera sucesso.
Era um mistério que estava ansioso para resolver.