4. Memórias que não me pertencem

1284 Words
GEOVANA Minha mente estava limpa, como se flutuasse em um vórtex n***o. Livre de sons, de sentidos, de tudo. Não sentia absolutamente nada e tampouco conseguia me remeter a alguma realidade, tudo parecia tão estranho e, ao mesmo tempo, confortável — se é que se pode classificar assim a sensação de torpor, como se seu corpo estivesse anestesiado. Tentava puxar as coisas que aconteceram nas últimas horas, mesmo nos últimos minutos, mas não conseguia. Tudo estava limpo na minha mente. Havia uma porção de imagens soltas que não conseguia conectar, numa delas, uma menininha aparentando seis anos olhava, sorridente, um livro de figuras, ao seu lado um garotinho pouco mais velho apontava alguma coisa e falava algo inaudível, a garotinha anuía feliz e parecia fazer perguntas. Aquilo não me dizia nada, não sabia quem eram aquelas pessoas ou porque estava tendo aquele tipo de visão. A cena borrou e foi substituída por outra onde uma jovem mulher sorria para um homem pouco mais velho que ela, os dois se olhavam com paixão, talvez fossem namorados, mas não conseguia ver o rosto dela com clareza e tinha certeza de nunca ter visto aquele homem antes. Novamente a cena borrou, sendo substituída por outra que, de algum modo, consigo me lembrar de ter visto antes. Um homem esvaindo-se em sangue nos braços de uma mulher em pranto copioso e cujo rosto não conseguia ver. Havia outras pessoas ao redor, todas falavam entre si, usavam telefones, mas não ouvia nada do que diziam, como um filme mudo, mas colorido. As imagens continuaram indo e vindo, ininterruptas, até o momento que não pude mais as distinguir. Minha consciência da realidade parecia distante, como se me afastasse do meu corpo quando tentava alcançar o conteúdo do meu inconsciente, me distanciando ao ponto de não poder me conectar mais com o mundo do lado de fora dos meus olhos, a mente aos poucos, se desligando. Foram minutos, horas, até perder por completo qualquer noção de tempo. Em certo momento, veio a visão de um garoto correndo no jardim frontal de uma casa, em um dia nublado onde caía uma garoa fina e gélida fazendo a grama cheia de orvalho se tornar escorregadia, ainda assim ele parecia não se importar enquanto seus pés, já cobertos de lama, afundavam na grama aparada e seus cabelos grudavam na testa. Na varanda, dando risadas, estava uma garotinha pelo menos três anos mais nova, segurava uma câmera fotográfica e tirava fotos do garoto correndo e rodopiando, risonho, no jardim. A imagem desapareceu e foi substituída por uma sala de estar ampla, com papel de parede azul listrado de branco. Um armário com portas de vidro exibia uma porcelana pintada à mão, prateleiras com medalhas e fotografias de um casal de crianças segurando troféus. Os móveis estavam afastados e, no meio, havia um caixão onde um homem, aparentando quarenta anos, parecia dormir, a tez empalidecida pela morte, o corpo envolto em flores. Várias pessoas choravam em volta, mas, embora me concentrasse, não conseguia reconhecer nenhuma delas. Contudo, a imagem daquele homem no caixão despertava uma estranha sensação de peso, tristeza, mesmo não o reconhecendo. Não conseguia abrir os olhos. Se me concentrasse com muita força, podia ouvir o som do bipe, mas parecia longe demais, a um mundo de distância. Não havia qualquer sensibilidade no meu corpo, não sentia os dedos, como se a conexão tivesse sido cortada. Ouvi vozes, soavam indistinguíveis e indecifráveis. Uma risada infantil ecoou de repente, a sensação de um abraço quente me envolveu o corpo e, só nesse momento, percebi-me com frio. Estava em uma escola, crianças corriam apressadas de um lado para outro carregando cadernos e lápis de cor, parada em um canto dando advertências e tentando esconder o sorriso satisfeito, estava uma mulher, era alta, esbelta e tinha uma pele n***a deslumbrante, os cabelos armavam-se em cachos perfeitos em volta do seu rosto, as curvas do corpo eram acentuadas pelo jeans skinny de cintura alta sobre a blusa social que lhe realçava o colo. O casal de crianças que vira antes estava ali, ao lado dela, tentando manter-se atenta aos demais sem lhes negligenciar a companhia, a menina sorria sempre com a sua câmera fotográfica registrando a mulher e as demais crianças, enquanto o menino parecia entretido com algo que ela lhe contava. Ouvi um cantar, uma canção de ninar conhecida, ainda não consegui me lembrar de como ou a quem ela se ligava. Os olhos castanhos de um estranho brilharam, seu sorriso impecável apareceu diante de mim, a tez morena, os lábios carnudos e as sobrancelhas espessas, alto e forte, trajava um terno azul-escuro sob medida, havia certa ternura emanando dele, me envolvendo, mas não sabia quem ele era. Então, percebi ser o mesmo homem que estava caído nos braços daquela mulher cujo rosto não consegui ver, uma mancha de sangue começou a se formar no seu peito, encharcando a camisa branca do terno e seu olhar se converteu em puro pavor e dor. Tentei alcançá-lo, mas quanto mais corria, mais longe ele estava, até desaparecer. Estava chorando, mesmo sem saber por quê. Abri os olhos. À minha volta um quarto com paredes lilases e móveis brancos. De alguma forma parecia reconfortante, mas não reconheci nada ali dentro, havia fotos sobre uma cômoda, em uma delas, as duas crianças sorriam abraçadas, a menina sempre segurando a câmera fotográfica. Em outra, uma adolescente de aparentes dezessete anos sorria trajando uma beca amarela, a seu lado estava um rapaz de mais ou menos vinte anos com um sorriso orgulhoso, seriam as mesmas crianças? Quem eram elas? Por que as estava vendo? Que ligação aquilo tinha comigo? Foi quando veio a dor. Pungente como se estivesse em chamas, apesar de não sentir qualquer conexão com meu corpo, a dor me devorava como labaredas em uma cabana de madeira, lágrimas encheram meus olhos, lutei com todas as minhas forças para acordar, mas nada parecia surtir efeito. Queria gritar, mas não alcançava minha voz. Espasmos se espalhavam pelos meus músculos, o mundo pareceu colapsar por um momento e só podia ver diante a escuridão tenebrosa consumindo meus sentidos como um manto. Em um breve instante meu corpo entrou em colapso, os membros sacudindo-se com o tronco, todos os hipocampos do meu cérebro trabalhando ao mesmo tempo, pude captar vozes muito longe, como ecos de um grito na garganta de um desfiladeiro. Finalmente a letargia me cobriu, gélida como água fria numa superfície muito quente. Então veio a escuridão. O vazio. O nada. Encolhi-me, abraçando meu corpo, fechei os olhos na esperança de tudo aquilo desaparecer. Não havia nada em volta, mas dessa vez parecia consciente do meu corpo, ouvia ao longe o bipe do monitor ao lado da cama, vozes e, dentre elas, distingui a voz da enfermeira e do médico de antes, pareciam preocupados, mas não consegui entender o que diziam muito bem, parecia uma linguagem codificada. A noção do meu corpo era muito vaga. Estava ali, mas era como se não estivesse, envolta numa letargia, refém no inconsciente. Ouvia, mas não sentia ter qualquer controle sobre mim mesma. Aterrorizada, pensei ser o fim da linha, estar morrendo sem saber meu nome, de onde era ou o que havia acontecido comigo. Morreria como uma estranha sem ninguém para lamentar a minha perda. — Não há qualquer previsão... só nos resta esperar agora — disse a voz do médico. — Isso pode ficar perigoso, Bernardo... estou ficando preocupada. — A enfermeira, Alice, soava tensa. — Não estou preocupado com nada disso, Alice — suspirou. — Se ela morrer... se não conseguir salvar a vida dela... só vou me preocupar com o sentido de tudo que estou fazendo desde que decidi seguir essa profissão.
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