5. Um Passo ao Desconhecido (I)

1042 Words
BERNARDO Estava entrando no carro quando o celular começou a vibrar. No visor, o nome de Alice aparecia, senti um calafrio. Normalmente não era de ficar apegado aos meus pacientes, embora tentasse fornecer toda assistência de que precisassem, contudo, aquela garota havia se tornado importante, de uma maneira inesperada. Talvez pelo fato de não saber nada sobre ela. Temia sua morte, apesar de não fazer a menor ideia do motivo. Não a conhecia, porém, perde-la seria de uma agonia indizível. Meneei a cabeça, estava tentando me enganar, não era a primeira vez em minha carreira que queria tanto salvar uma pessoa. Houve outra antes... Não. Não era a mesma coisa. Só estiva motivado pelo mistério, negando sentir algo mais profundo, sempre me sentia impotente quando perdia um paciente e, em anos de profissão, poucas vezes falhei em salvar a vida de alguém. Quando pensava nisso, minha obsessão pelo trabalho não parecia r**m. — Alice? — Minha voz soou tensa. — Venha o mais rápido que puder! — A voz dela soava aflita. — Aquela paciente entrou em choque, Clark está fazendo o que pode para trazer de volta. — Chego aí num minuto! — disse apressado, entrando no carro com o coração acelerado. Estava em uma máxima de ansiedade, a pulsação gritando nos ouvidos enquanto avançava o mais rápido permitido entre as ruas, meus pensamentos indo de encontro ao rosto daquela garota, havia muito em jogo, não apenas o de ser uma pessoa sem identidade, mas por ter a quase certeza que o que acontecera a ela não foi um acidente. Ela precisava viver. Acelerei pelas ruas sem mais temer o limite de velocidade, lidaria com problemas triviais, como multas de trânsito, depois. Graças aos céus a sorte estava comigo, não havia qualquer patrulha policial, segui na máxima velocidade, pegando atalhos para evitar os sinais vermelhos. Saí do carro sem ao mesmo me preocupar em ligar o alarme, deixei-o m*l estacionado nos fundos e entrei enquanto vestia o jaleco, correndo pelo corredor da emergência. O que encontrei na UTI foi um caos de enfermeiros, no meio deles Clark segurava duas pás de um desfibrilador enquanto os sinais vitais da paciente estavam quase no zero, ela estava morrendo. Avancei sobre ela, tirei as pás das mãos de Clark e ordenei que aumentassem a potência para 200. — Vamos! — murmurei, enquanto pressionava o choque pela primeira vez, Alice fez massagem cardíaca, gotas de suor formavam-se em sua testa. — Vamos! Levou três tentativas, mas funcionou. Havia sinais vitais. Um alívio fez minhas pernas fraquejarem, fiquei de tal forma tomado pela tranquilidade de ela estar viva que não percebi a aterradora realidade, até Clark checar e me lançar um olhar duro. — Ela entrou em coma — anunciou, a voz baixa e fria. — O quê? — Virei-me para ela, examinei os olhos, a respiração, os níveis. Imediatamente, mandei Alice preparar uma série de exames e ordenei que colocassem uma máscara de oxigênio, líquidos por via intravenosa e controlassem os sinais vitais. Enquanto ela e os outros enfermeiros preparavam tudo, precisei encarar meu problema mais urgente no momento: Clark. Ele trabalhava no hospital desde o começo, éramos amigos de longa data, desde a faculdade, ele fora um grande apoio para mim no começo. Pela cara dele, já sabia que queria explicações e quanto antes lidasse com isso, mais cedo voltaria minha atenção para ela. Saímos para o corredor, mas a movimentação estava grande, não podíamos conversar ali. Havia um quarto de UTI desocupado ao lado, entramos nele e fechamos a porta, acendi as luzes e encarei meu amigo de expressão carrancuda. — Então, quem é essa paciente VIP anônima, vai me dizer? — questionou quando fiquei em silêncio. — Ao que parece, se não fosse essa emergência de hoje eu sequer ia saber que ela existia, não é? — Clark... — Ela não tem ficha, Persson! — acusou, sabia que sua fúria tinha fundamento. — Alice me disse que você se deu como responsável por ela. Quem é essa garota? — Eu a encontrei na rua da minha casa há alguns dias, alguma coisa r**m aconteceu com ela, Clark... não achei documentos na bolsa... — E decidiu que interna-la sob sua custódia sem alertar a polícia era uma boa ideia?! — censurou. — Ficou maluco? Sabe quantos problemas nós vamos ter se ela for uma criminosa ou algo do tipo? — Não seja ridículo — admoestei. — Se ela fosse uma criminosa ou coisa assim seu rosto estaria em todos os jornais a essa altura. Eu procuro há semanas, não achei nada a respeito dela. — Mesmo assim, ela é um problema da polícia! Precisa alertá-los do que está acontecendo antes que arrume problemas pra gente! — alertou. — No momento ela é problema meu — retruquei. — Quando ela estiver em condições de dar uma declaração à polícia, então com todo prazer vou leva-la lá e explicar o que aconteceu. Até lá, por favor, Clark, confie em mim e mantenha isso em sigilo. Ele suspirou, fechando os olhos e apertando a ponte do nariz pelo que pareceu um tempo eterno. Fiquei tenso. Quando finalmente ergueu o rosto para mim, sua expressão era de derrota. — Está bem, vou fazer do seu jeito, mas se alguma coisa der errado você vai lidar com as consequências sozinho — advertiu. — Não se preocupe com isso. No momento que assumi a responsabilidade por ela sabia no que estava me metendo, vou assumir qualquer risco que surgir. — Incluindo o problema se ela morrer? As palavras dele, diretas e frias, me fizeram paralisar. Por um momento fiquei sem saber como responder aquilo, não podia descartar essa possibilidade, ainda mais quando o estado de coma fosse oficial. — Ela não vai morrer — afirmei, tentando convencer mais a mim mesmo que a ele. — Espero que tenha razão, Persson. E, dizendo isso, deixou a sala. Não percebi estar trêmulo até a porta se fechar diante de mim e o silêncio do quarto me engolir, o que eu faria se ela morresse? Quadros de coma eram imprevisíveis, ela podia nunca acordar, poderiam haver complicações e uma falência múltipla dos órgãos que acarretaria o óbito imediato. Meneei a cabeça, não podia acontecer, ela ia ficar bem, tinha de acreditar naquilo.
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