6. Um Passo ao Desconhecido (II)

1088 Words
O desânimo me acometeu quando confirmei o estado de coma nos exames. Fiquei longo tempo olhando para ela, parecia tão jovem, não devia ter mais de vinte e seis anos, a cabeça ainda enfaixada por conta dos ferimentos, me perguntava quem a queria morta e por que, mas a resposta parecia ainda mais distante agora. Alice estava parada ao meu lado segurando o prontuário dela, havíamos colocado um nome nele, Geovana, era o nome no colar encontrado nela quando a socorremos; decidimos, era como íamos chama-la. As coisas estavam se complicando. — O que vai fazer agora que Clark sabe de tudo? — questionou. — Do jeito que ela está, acho que você não tem outra saída além de alertar a polícia, Bernardo. — Você e Clark estão começando a irradiar essa negatividade em mim. — Fiz uma careta. — Já disse que ela vai ficar bem. E ele prometeu que vai deixar as coisas como estão. — Alguma previsão para o caso dela? Afinal, o trauma na cabeça e a alta dose de anestésico são as causas mais prováveis do choque. — Não há qualquer previsão... só nos resta esperar agora — suspirei. — Isso pode ficar perigoso... estou ficando preocupada. — Soava tensa. — Eu não estou preocupado com nada disso. — Dei um tom firme à minha voz. — Se ela morrer... se não conseguir salvar a vida dela... só vou me preocupar com o sentido de tudo desde que decidi seguir essa profissão. — Isso me angustia ainda mais — comentou, me lançando um olhar apreensivo. — Em anos que te conheço você até hoje não se recuperou dos pacientes que perdeu, por que não considera a chance de passa-la para outro médico? — Não. — Meneei a cabeça. — Não quero mais gente envolvida nisso, se algo der errado, e não vai dar, quero ser o único responsável. Uma enfermeira entrou no quarto avisando-me que havia alguém a minha procura, suspirei já sabendo de quem se tratava, se havia alguém capaz de me tirar daquele baixo estado de ânimo era Brígida. Deixei Alice de plantão especial com Geovana, avisando na enfermaria que ficaria encarregada apenas dela, em uma troca de enfermeiras de três escalas com Gracie e Sally. Saí do quarto e segui pelo corredor quase vazio não fosse o vai e vem de enfermeiros e, vez ou outra, médicos checando pacientes nas UTIs. Quando saí da ala de emergência, segui pelo hall do térreo rumo ao elevador, minha cabeça doía pelo estresse das últimas horas, parei no segundo andar do prédio onde ficava meu consultório, quando entrei, encontrei minha amiga de longa data sentada na poltrona próxima a janela com as pernas cruzadas lendo uma revista de neurociência como se tudo aquilo fizesse o maior sentido para ela. Ao me ver, Brígida abriu um sorriso e ergueu-se, mas seu rosto se apagou ao ver minha expressão de derrota. — O que aconteceu? — Sua voz soou preocupada. — Minha paciente entrou em coma — anunciei, largando-me na cadeira e fechando os olhos. — A paciente que você me falou no telefone? — Sim. Isso é muito r**m, Bri... não sei o que vou fazer se perde-la. — Engoli o nó que se formava na minha garganta. — Ah, pare com isso, não fale como se estivesse por um fio de perder o amor da sua vida — censurou. — Não é como se fosse sua primeira paciente em coma, ela vai ficar bem, Bê. Você é um excelente médico, sei que vai tirar ela dessa. — É esse problema, não depende de mim. — Encarei-a. — Tudo que posso fazer é tentar garantir que nada dê errado, mas tudo depende dela. — Hmm... e quem é ela que te preocupa tanto? — Não posso explicar isso agora... — suspirei cansado — mas prometo que em breve vou te contar os detalhes. No momento só posso te dizer que sou o único médico que pode atendê-la, não posso confiar em mais ninguém para isso. — Está me deixando assustada, Bernardo. — Sentou na cadeira em frente à mesa. — É algo envolvendo perigo? — Pode-se dizer que sim, mas ainda não posso dar detalhes porque, bem, porque não sei detalhes também. — Sorri tentando me animar um pouco. — E é por isso que dispenso totalmente sua amiga administradora. — Você é incorrigível. — Fez uma careta. — Não acredito que vou me casar antes de você. — Nós já fomos casados por duas semanas, tecnicamente eu sou um homem divorciado — brinquei. — Não me faça ligar para Gina e dizer que vou fazer o seu jantar pelas próximas quatro semanas, você sabe que eu sou capaz disso — ameaçou. — Me magoa o modo frio como você trata o nosso antigo relacionamento. — Fingi mágoa, mas acabei rindo no final. — Tudo bem, já parei. — Quer jantar comigo hoje? — ofereceu. — Acho que você está precisando sair um pouco daqui. — Na verdade, estou com medo de sair do hospital... fiz isso hoje por cinco minutos e ela quase morreu. — Bê, tem pelo menos trinta e dois médicos aqui, não é possível que nem um deles possa ser confiável para olhá-la caso algo dê errado — admoestou. — Você precisa se distrair, não esqueça que também é humano. Acho linda sua dedicação em salvar vidas, mas tente cuidar um pouco da sua também. — Não vou prometer nada, mas até as oito te ligo para dizer se vou ou não poder ir — rendi-me. — Só me prometa uma coisa. — Pra você sair daqui? Vou até de lingerie pro restaurante se quiser! — Parecia animada. — Não precisa tanto. — Ri. — Apenas vá mesmo sozinha, nada de tentar me arrumar namorada, sabe o que aconteceu das últimas vezes. Deixe que eu me ajeite sozinho, sim? — Está bem, em respeito a sua paciente misteriosa e seus sentimentos vou sozinha mesmo — prometeu. — Mas me prometa que vai se esforçar para me encontrar. — Eu prometo, Bri. — Sorri segurando as mãos dela. — Obrigado por se preocupar comigo. — Ora, e para que servem os amigos? O sorriso brilhante e carismático dela me encheu de energia. Toda energia necessária para enfrentar o caminho escuro pela frente, estava dando passos no desconhecido, mas tinha esperança que Geovana abriria os olhos muito antes do esperado, diria quem era e poderíamos enviá-la em segurança para casa. Àquela altura, m*l podia imaginar quão errado eu estava.
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