7. Agonia (I)

1557 Words
ALBERT «Duas semanas atrás» Estava preocupado com Geovana. Desde o velório, há duas semanas, não saía do quarto para nada. Se, regularmente, não levássemos água e a forçássemos a tomar, talvez já teria sido internada com desidratação. Comer era outra história, já fazia uma semana que não colocava um biscoito no estômago, começava a me perguntar como conseguia. Minha irmã era conhecida por comer muito e nunca engordar e orgulhava-se desse metabolismo, enquanto as amigas choravam dias por ter comido um chocolate, ela podia desfrutar a felicidade de comer uma caixa inteira e continuar entrando no jeans 38. Era a personificação da alegria, doce, compreensiva e muito alto astral, ficar perto dela significava se sentir cheio de energia, liberdade. Por isso era tão doloroso vê-la naquele estado, como se toda a sua vontade de viver tivesse sido absorvida pela terra enquanto voltava do hospital na noite do seu aniversário. Mamãe estava cogitando a ideia de leva-la para ver um psicólogo e eu era a favor, mas, antes de mais nada, precisávamos tirá-la do quarto. Apesar de só fazer duas semanas de silêncio, para mim, era como se fossem anos desde que ouvi sua voz ou vi seu sorriso. Tão logo cheguei do trabalho fui direto para seu quarto, deixei a pasta no corredor ao lado da porta e dei dois toques na porta antes de entrar, ela estava sentada na cadeira de frente para a janela, sua aparência pálida e quase cadavérica só aumentava minha preocupação a cada vez. Suspirei, lutando contra as lágrimas, e me aproximei com cautela, seu olhar estava perdido na janela, olhava o céu nublado daquele fim de tarde, segurei sua mão e a acariciei, os dedos longilíneos tão frágeis, minha irmã estava definhando. — Gê, vamos beber um pouco de água? — Não respondeu. — Lucy mandou lembranças pra você, disse que está com saudades. Lucy era uma das amigas dela, as duas faziam preparação para a faculdade, Geovana havia tentado entrar na universidade de Los Angeles duas vezes, mas não conseguira a admissão. Contudo, nunca se deixava a****r e sempre tentava de novo. Queria ser fotógrafa e designer, era muito boa nisso, desde criança sempre adorou tirar fotos de tudo, quando completou seis anos nossa avó deu uma câmera fotográfica para ela. Minha irmã nunca largava aquela câmera, para todos os lados que ia a levava pendurava no peito e usava qualquer oportunidade para registrar qualquer coisa bonita ou engraçada segundo seu julgamento. Lucy queria ser designer, as duas se conheceram no colegial, o amor em comum pela profissão acabou unindo-as, fazendo planos de ir para a mesma faculdade, Lucy trabalhava meio período como modelo em uma agência numa cidade vizinha. Enchi meio copo com água e, me abaixando de novo ao lado dela, pu-lo em sua mão. Ela olhou para o líquido como se visse aquilo pela primeira vez, depois direcionou seus olhos azuis acinzentados para mim. Herdara a cor da nossa avó materna, Violeta Giogllio, que tinha descendência italiana, enquanto eu me contentara com os olhos castanho-claros da família do meu pai, mesmo minha mãe tinha olhos castanhos, herdados do meu avô materno. Na família, apenas minha irmã e duas tias tiveram a sorte de herdar a cor dos olhos da minha avó. Ela levou o copo aos lábios e sorveu o líquido devagar, devolvendo-me o copo sem dizer uma palavra sequer. — Gê, por favor, faça um esforço, apenas um pouco, para comer alguma coisa, hum? — pedi. Ela fechou os olhos por um instante, mas por fim assentiu. — Eu trago em um minuto! Extasiado com a significativa evolução, ainda que pequena, corri para cozinha e preparei um espaguete ao molho de camarão, Geovana adorava massas. Também preparei um pouco de água com limão e levei para o quarto, por um momento ela ficou apenas olhando o prato, pareceu levar longos minutos até finalmente pegar o garfo e começar a comer. Conforme mastigava, lágrimas encheram seus olhos e caíram pelo rosto formando uma grossa gota no queixo que gotejava na calça do pijama. Acariciei seus cabelos e deixei que chorasse. — Eu sei, mana... — confortei-a. — Está tudo bem... ∞Ж∞ Mamãe chegou em casa no começo da noite, estava cansada, não apenas por causa do trabalho, mas principalmente pela preocupação constante com a minha irmã, de modo que surpreendeu-se ao ver minha euforia quando fui recebe-la. — Ela comeu! — contei sem conter a animação. — Ela comeu, mãe! — Oh, Deus! — Uma onda de alívio e emoção tomou conta do seu rosto. — Quanto, Albert? — Um prato inteiro de espaguete — anunciei. — Acabou de sair do banho, está no quarto. — Ela tomou banho também? Louvado seja Deus! — Por conta própria, mãe. Sinto que está melhorando, podemos ter esperança agora. Abraçamo-nos cheios de alegria, compartilhando aquele pequeno passo da minha irmã. Temíamos que a depressão de Geovana tomasse proporções tão grandes que fossem quase irreversíveis, o trauma parecia tê-la desestruturado de tal forma que quase não a reconhecíamos. Aqueles pequenos gestos de vida eram tão significativos para nós como a luz no fim de um túnel interminável. Enquanto jantávamos, minha irmã saiu do quarto e foi até a cozinha, os cabelos estavam penteados em um r**o de cavalo, ela os havia lavado e secado, sua expressão ainda estava um pouco abatida, mas parecia ter um pouco mais de vida. Abriu a geladeira e pegou um pouco de suco de laranja, sentou-se ao meu lado na mesa e segurei sua mão enquanto nossa mãe a olhava, surpresa e extasiada, mas ambos tínhamos medo demais de fazer qualquer pergunta que causasse seu isolamento novamente. Em duas semanas aquele era o maior progresso conseguido desde a água quase empurrada por nós. Bebeu um pouco do suco e ergueu o olhar para mamãe. — Sinto muito ter preocupado tanto vocês. — Seus olhos encheram de água. — Meu anjo... — Mamãe sorriu levantando-se e sentando-se do outro lado dela. — Entendemos que você passou por algo muito difícil, respeitamos o seu tempo, estamos ao seu lado, querida, não precisa passar por isso sozinha, sabe disso. — Obrigada, mãe, Al... — Sua voz tremulou. Nós a abraçamos, minha irmã chorou pelo que pareceu um longo tempo, não havia palavras que pudessem traduzir nossa felicidade naquele momento, ela enfim aceitara nosso apoio, havia uma chance de ter nossa garota de volta, sabia que ela ficaria bem, conseguiria superar tudo que aconteceu. ∞Ж∞ Nos dias seguintes, Geovana demonstrou mais e mais melhoras, aos poucos voltou a se comunicar conosco, comer e estudar. Queria arrumar um emprego de meio período, mas achamos por bem convencê-la a esperar até entrar na faculdade, lá ela poderia conseguir um para lidar com as despesas pessoais. De todas as amigas que tinha, ela só havia ligado para Lucy — embora recusasse todos os convites para sair — e para Victória, sua amiga mais próxima, apesar de não partilharem muitos interesses em comum. Mesmo com a evidente melhora, não tinha como não me preocupar, minha cabeça maquinava suposições sobre como ela poderia ficar sozinha em Los Angeles em tal estado de ânimo. — É uma fase, Albert, ela vai superar — garantiu mamãe quando lhe expressei minhas preocupações. — Estudar será benéfico, manterá a cabeça dela ocupada. — Mãe, até parece que a senhora não conhece a Geovana — retruquei, olhando minha irmã com o rosto colado em um livro. — Ao contrário, amor. — Sorriu. — Falo isso porque a conheço melhor que ninguém. Eu trabalhava meio período em um escritório de advocacia, um estágio remunerado para a faculdade. Quando cheguei em casa naquela tarde, Geovana estava sentada com um monte de papéis no chão da sala de estar, sobre a mesa de centro, escrevia atenta alguma coisa, sorri ao vê-la, seu rosto havia adquirido cor mais uma vez, os cabelos estavam brilhantes e ela tinha ganhado certo peso para sua condição física sempre magra. — Oi, CDF, o que tá fazendo? — provoquei. Ela fez uma careta. — Rascunhos da redação de admissão. — Deu de ombros. — E você não tem nenhuma moral pra me chamar de CDF, Al, não sou eu que vou dormir com um livro da legislação toda noite. — Culpado! — Rendi-me dando-lhe um sorriso. — Tá a fim de comer alguma coisa? — Agora não... — Forçou um sorriso. — Quem sabe mais tarde você não me traz uma pizza. — Claro. — Abaixei-me ao lado dela e acariciei sua cabeça. — Eu tô bem, Al — garantiu-me embora fosse nítido não ser totalmente verdade. — Sabe que tô aqui, né, baixinha? — Beijei o topo da sua cabeça, ela me abraçou agitando a cabeça em sinal afirmativo. — Obrigada, Al. — Sua voz soou embargada. — Cadê a mamãe? — Tentei direcionar o assunto para outra coisa, a fim de distraí-la. — Foi ao supermercado, disse que você cuidasse da louça antes da faculdade. — Era o código que ela não queria fazer a tarefa e estava passando para mim. — Okay, já entendi. — Pisquei e ela sorriu. — Vou só tirar um cochilo antes, daqui a uns dez minutos me chama, tá? Ela agitou a cabeça e sorriu, voltando a escrever concentrada. Permaneci observando-a da escada antes de ir para meu quarto. Nunca poderia imaginar ser a última vez que veria minha irmã.
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