°•~~~~☠️~~~~•°
Lorenzo.
Não tocá-la é uma forma de tortura mais refinada do que qualquer inimigo poderia imaginar.
Passo a semana observando-a sem realmente vê-la. Observo-a atravessar os corredores, os ombros tensos, os braços sempre cruzados, como se o mundo fosse vasto demais para ela.
Ouço a porta do quarto dela fechar à noite, e então… o choro. Baixo. Controlado. Como se, mesmo em meio ao choro, ela tivesse medo de fazer barulho.
Não me aproximo dela.
Porque prometi dar-lhe espaço.
Porque se eu a tocar agora, não poderei deixá-la ir.
Porque sei que se ela olhar para mim, não poderei deixá-la ir.
Trabalho mais do que o habitual. Reviso rotas, nomes, rostos. Os russos estão em movimento. Estão sempre. Não é paranoia. É experiência. Há sombras onde antes não havia nenhuma. Veículos que repetem rotas. Silêncios que se arrastam.
E, no entanto, a única coisa que me importa está a poucos metros de distância… e fora do meu alcance.
E então chega o fim de semana.
O jantar é formal. Formal demais. A mesa comprida, a toalha de mesa imaculada, os talheres alinhados com uma precisão quase insultuosa. Ela se senta à minha frente. A princípio, não me olha. Brinca com a borda do guardanapo.
— Obrigada por respeitar a minha semana. Diz ela finalmente.
Assinto com a cabeça. Não confio na minha própria voz.
— Tomei uma decisão. Continua ela.
Olho para cima. Os seus olhos estão vermelhos, mas firmes. Conheço essa combinação. É familiar demais para o meu gosto.
— Decidi que quero voltar para o meu país.
Fecho os olhos, sentindo um peso no peito que não consigo descrever com palavras.
— Meu pai volta da viagem daqui a algumas semanas. Diz ela. — Vou ficar na casa de uma amiga até lá.
— Entendo. Respondo, embora seja mentira.
Ela espera algo mais. Uma briga. Uma ordem. Uma ameaça.
Não lhe dou nada disso.
— Vou cumprir a minha promessa. Acrescento. — Pode ir.
— Alívio e dor cruzam o seu rosto simultaneamente.
Jantamos em silêncio. Ela m*l toca na comida. Eu também não. O tilintar dos talheres é obscenamente alto. Cada segundo pesa como uma sentença de morte.
Quando ela se levanta, faz isso lentamente.
— Obrigada. Diz ela. — Por não me impedir.
Ela não sabe que não impedi-lá foi a coisa mais difícil que já fiz.
O dia da viagem amanhece cinzento. O tipo de céu que pressagia infortúnio, mesmo que ninguém queira ouvir.
Estou na entrada quando ela desce as escadas com a bolsa. Ela para quando me vê. Por um segundo, acho que ela vai correr na minha direção.
Mas ela não corre.
— Virginia...
Ela me olha.
— Deixe-me dizer uma coisa antes de você ir.
Dou um passo na sua direção, hesitante.
— O que aconteceu entre nós foi real. Digo. — Não foi um erro. Não foi uma distração. Foi... provavelmente a coisa mais genuína que senti em anos.
Engulo em seco.
Ela acena com a cabeça, lágrimas escorrendo pelo rosto sem que ela perceba.
— Eu sei. Ela sussurra. — Eu também senti.
E então ela se vira.
Ela caminha até o carro. Abre a porta.
E o mundo explode.
A explosão é forte, brutal, ensurdecedora. O ar se divide em dois. O chão treme sob os meus pés. O fogo corta o metal e o arremessa para trás como se fosse feito de papel.
— Virginia! Eu grito, com os olhos arregalados de horror.
Ela cambaleia para trás com o impacto, perde o equilíbrio e cai no chão. Ela grita. O som atravessa o meu peito como uma bala.
Eu corro.
Os meus homens estão gritando. Ouço alarmes, vidros caindo como chuva.
Eu me ajoelho ao lado dela, a abraço. Ela está viva. Ela está tremendo. As suas mãos se estendem desesperadamente na minha direção, a sua cabeça está sangrando.
— Estou aqui. Digo a ela. — Olhe para mim. Respire comigo.
Eu a aperto contra o meu peito enquanto meus soldados cercam o perímetro.
Eu olho para o carro em chamas.
E algo dentro de mim morre para sempre.
Os russos não atacaram um veículo. Eles atacaram a única coisa que não deveria ser tocada.
E agora…
ninguém sobreviverá.
°•~~~~🔥~~~~•°
Virginia.
As amêndoas são torradas primeiro. Não muito. Apenas até liberarem o seu aroma e a superfície rachar levemente, como a pele que sofreu um impacto e ainda treme.
São moídas grosseiramente, sem virar pó. Devem ser sentidas. Devem estalar entre os dentes como os restos de algo que explodiu...
e deixou fragmentos.
A manteiga é batida com o açúcar até ficar pálida, quase inocente.
Mas a inocência é fugaz.
Os ovos são incorporados um a um, ligando a mistura, dando corpo a uma estrutura que parece estável.
A farinha é adicionada depois, discretamente, apenas para dar liga. Porque há massas que se mantêm firmes... mesmo que por dentro tudo seja um caos.
Em seguida, o mel é despejado numa panela limpa e deixado em fogo baixo.
Sem água.
Sem distrações.
Começa dourado, liso, promissor. Mas se não for retirado a tempo, escurece.
Bolhas densas. Um cheiro profundo, quase perigoso. A linha tênue entre o doce e o queimado. Esse é o ponto.
O mel escuro penetra na massa, tingindo-a com um brilho âmbar, como se algo ainda estivesse queimando por dentro, mesmo que a superfície pareça intocada.
É assada até que as bordas estejam firmes e o centro m*l ceda ao toque.
Não deve estar crua.
Nem completamente sólida.
Algumas tensões precisam de um pouco de tremor.
Quando sai do forno, a torta parece dourada, linda, com uma crosta que protege o seu recheio.
Mas quando você a corta, o mel queimado libera o seu aroma, intenso, irresistível, com aquele amargor agridoce que não deveria ser agradável, mas atrai.
A dor não chega de uma vez.
É uma onda lenta e densa que me invade por dentro.
Primeiro, é a minha audição.
Um zumbido agudo e persistente, como se o mundo tivesse se reduzido a um único som. Então, a pressão na minha cabeça. Não uma pancada forte, mas uma sensação pesada, como algodão molhado envolvendo os meus pensamentos.
— Virginia... olhe para mim. Não feche os olhos.
A voz de Lorenzo corta a névoa. É firme. Imponente. E, no entanto, carregada de algo que eu nunca tinha ouvido dele antes.
Medo.
Eu pisco. O céu não está onde deveria estar. Não há sol, nem jardim, nem porta de carro. Tudo é fumaça, o cheiro de metal quente, de algo queimado que gruda na minha garganta.
— Respire comigo. Ele diz, mais perto. — Isso. Não durma.
A sua mão aperta a minha com força. Força demais. Como se soltá-la por um segundo sequer significasse me perder.
Quero dizer a ele que a minha cabeça dói, minha pele queima, que não entendo por que o chão se moveu como um animal furioso sob os meus pés. Mas as palavras não vêm. A minha língua está desajeitada. Minha mente, lenta.
O mundo se estilhaça.
Luzes.
Vozes que não reconheço.
O estrondo profundo das hélices cortando o ar.
Um helicóptero.
Sinto o movimento sob mim, a vibração percorrendo os meus ossos. O vento frio sopra, misturando-se à sensação de queimação nos meus braços. Alguém me cobre com algo térmico. Outra pessoa fala rapidamente em italiano. Rápido demais.
Lorenzo não solta a minha mão.
— Estou aqui. Diz ele, como se eu tivesse pedido. — Não vou soltar você.
Quero acreditar nele.
Mas o sono me puxa.
Acordo parcialmente.
Sinto o meu corpo sob uma maca. Há luzes brancas e fortes. O cheiro inconfundível de um centro médico: desinfetante, látex, metal.
— Pressão arterial estável. Pupilas reativas.
Uma voz masculina. Calma. Profissional. Sinto dedos na minha testa. Algo frio. Depois, uma sensação de queimação.
— Ela tem uma pequena contusão e queimaduras superficiais. Diz o homem que presumo ser um médico. — Vamos fazer uma tomografia computadorizada para descartar qualquer lesão intracraniana.
Eles viram a minha cabeça delicadamente. Protesto baixinho.
— Relaxe. Diz outra voz. — Está tudo bem.
Lorenzo.
Ele está ao meu lado. Consigo senti-lo mesmo sem vê-lo. A sua presença é uma âncora em meio ao caos.
Eles me colocam na máquina. O ruído é seco, mecânico. A minha mente divaga. Às vezes, sinto como se estivesse flutuando. Às vezes, muito fundo dentro do meu corpo.
Sinto-os limpando os meus braços. Aplicando um creme que primeiro refresca e depois arde. Examinando a minha perna. Pressionando suavemente o meu abdômen.