Tudo está fragmentado. Como se a minha memória tivesse decidido reter apenas pedaços.
Num momento, Lorenzo aperta a minha mão.
Em outro, ele se foi.
Não sei quando ele foi embora.
Só sei que, quando finalmente adormeço, o seu calor não está mais junto ao meu.
Não me lembro completamente do que acontece nas horas seguintes.
Só sei que acordo, adormeço, acordo e adormeço de novo.
Mas em meio a todo o cansaço, toda a ardência, toda a incerteza, consigo discernir e recordar as palavras do médico.
— Você teve uma leve concussão e algumas queimaduras superficiais. Não é grave, mas precisa de repouso absoluto. Se tiver vômitos persistentes, visão turva, confusão mental ou dor intensa, deve retornar ao hospital imediatamente. Ele havia dito.
Quando abro os olhos, não é mais o cheiro de antisséptico que me envolve. Em vez disso, é... lavanda.
Como se eu estivesse de volta ao quarto na casa de Lorenzo.
O lugar está com pouca luz. Uma lâmpada fraca ilumina as paredes. Franzo a testa ao me sentar na cama, percebendo que este não é o quarto amarelo que a minha mãe decorou com tanta extravagância. O estilo é semelhante, mas diferente. Mais sóbrio. Mais frio.
Em tons de violeta, lilás e cinza.
Gosto muito mais.
A minha cabeça dói; há um curativo na minha testa. Mexo os dedos e toco o tecido fino que parece cobrir um ferimento. Os meus braços queimam, mas reagem.
Sento-me devagar. O chão está frio sob os meus pés descalços.
Não deixo a leve tontura me impedir; preciso andar, preciso me mover.
O corredor é longo. Silencioso. Os meus passos ecoam alto demais para meus ouvidos sensíveis. Paro em frente a uma enorme janela.
Lá fora, a noite está completamente escura. Floresta. Montanhas, talvez. Não reconheço nada.
É estranho, porque sinto que esta mansão é exatamente igual à anterior, e diferente ao mesmo tempo.
Mesmo assim, mantenho o olhar fixo na janela. Preciso de algo em que me concentrar.
Lorenzo aparece no fim do corredor como se sempre estivesse ali, escondido nas sombras.
Não o ouço se aproximar. Apenas o sinto.
O meu corpo reage antes da minha mente: meu pulso acelera, o ar fica mais denso, a bandagem na minha testa lateja com mais força. É uma resposta automática e traiçoeira que odeio tanto quanto preciso dela. Olho para cima e lá está ele. Impecável, tenso, os ombros rígidos, os olhos fixos em mim como se eu fosse a única coisa real nesta casa excessivamente silenciosa.
Ele caminha na minha direção devagar, com cuidado, como se um movimento brusco pudesse me quebrar.
— Você deveria estar na cama. Diz ele.
A sua voz não é áspera. Essa é a pior parte. É baixo, contido, carregado de algo que ele não quer demonstrar.
— Estou bem. Respondo, embora não esteja completamente. — O médico disse que não houve danos cerebrais. Nenhum ferimento grave.
Observo-o engolir em seco. Os seus olhos examinam o meu rosto com uma precisão quase dolorosa: a bandagem, a palidez, as olheiras. É uma inspeção silenciosa e obsessiva. Como se ele precisasse se certificar, repetidamente, de que ainda estou inteira.
— Volte para a cama... Ele suspira.
— Não quero. Cruzo os braços.
— Virginia, por favor... Ele bufa. — Pare de ser teimosa de uma vez por todas.
Reviro os olhos. Mas obedeço. Não porque preciso me sentar, ou porque ele está me ordenando. Mas, porque vejo a preocupação estampada no seu rosto.
Ele se senta à minha frente. Está perto demais. Consigo sentir o seu cheiro. Consigo sentir o calor que emana dele. Ele levanta a mão lentamente, com uma delicadeza que contrasta com tudo o que sei sobre ele, e tenta tocar a bandagem na minha testa.
O meu corpo se enrijece instantaneamente, então me afasto.
— Quantas vezes mais estarei em perigo? Sorrio amargamente. — Só para saber...
Lorenzo faz uma careta e passa a mão pelos cabelos.
— Nunca mais. Responde. — Vou garantir isso.
— É... Você já disse isso antes...
O silêncio que se segue é pesado, quase culpado. Ele olha para baixo por um segundo, como se aquela verdade o tivesse atingido em cheio.
— Eu fui ingênuo. Admite. — Pensei que poderia protegê-la mantendo-a na mansão. Subestimei meu inimigo. Eu deveria ter percebido que eles já sabiam que tínhamos uma... ligação.
Ele olha para cima. Os seus olhos são escuros, perigosos.
— Mas agora vou destruir qualquer um que ouse sequer respirar perto de você.
Não digo nada. Não porque eu não tenha nada a dizer, mas porque há coisas demais. Verdades demais me sufocando.
E então sinto as lágrimas girando nos meus olhos, a lembrança da minha última ligação com Nara voltando com força. Porque se eu tivesse dado mais um passo, se eu tivesse entrado no carro... eu estaria morta hoje. E a minha mãe seguiria com a vida dela como se nada tivesse acontecido.
— Nara sabe... Ela sempre soube... Soluço. — Ela sempre soube o que você era, e mesmo assim... não se importou em esconder isso de mim e me deixar aqui com você...
— Virginia... Ele sussurra, enxugando uma das minhas lágrimas.
— Não. Me afasto novamente. — Não, eu não quero que você me toque... Você sabe dos meus sentimentos por você, e isso não é justo... Balanço a cabeça, desviando o olhar. — Estou pagando um preço por algo que nunca pedi.
— Eu sei, eu sei, e sinto muito... Ele sussurra. — Não vou me desculpar pelo que causei a você, não vou me desculpar pelos meus próprios sentimentos... Mas a dor, o medo e o perigo a que estou te expondo? Sim, eu vou resolver isso.
Eu o encaro. Eu realmente o encaro. O homem que representa tudo o que eu deveria temer. O homem que, mesmo assim, era a última coisa em que eu pensava antes de entrar naquele carro. O homem que eu nunca quero parar de ver.
E o que eu mais odeio é que eu estava prestes a desistir. Estava prestes a me virar e ficar, antes do carro explodir.
— O que é isso? Enxugo as lágrimas com força. — Que laço é esse? É só um jogo para você? Ou é algo mais? Eu preciso saber, Lorenzo...
Ele não responde imediatamente. Parece estar buscando uma verdade que não existe.
— Não é um jogo. Ele finalmente diz. — E eu não sei exatamente o que nos une. Tudo o que sei é que você tem diante de si um homem disposto a destruir o mundo para que você não derrame mais uma lágrima.
Fecho os olhos.
Tudo dentro de mim é um caos: medo, raiva, desejo, culpa. Eu sei o que é certo. Sei que deveria ir embora. Sei que esse homem é perigoso.
Sei que, apesar de tudo o que aconteceu entre nós, apesar de quão distorcido e proibido tenha sido desde o início... eu não me arrependo.
Sinto-me apavorada.
E ainda assim...
Antes que eu pense nisso. Antes que eu pare...
Eu me inclino na sua direção.
E o beijo.
Não é um beijo delicado. Não é um beijo cauteloso. É um beijo carregado de tudo aquilo que não ousamos dizer. Tudo aquilo que tento n&egar.
E no instante em que os seus lábios respondem, sei que acabei de cruzar um ponto sem volta.