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Virginia.
O café é preparado forte, escuro, sem açúcar.
Deve esfriar antes de ser tocado, pois algumas intensidades só são suportáveis quando não queimam mais.
As gemas são batidas com açúcar até ficarem pálidas, espessas, quase luminosas.
O mascarpone é então incorporado, delicadamente, envolvendo, sem resistência.
As claras em neve são adicionadas por último, contribuindo com ar, leveza, aquela sensação de relaxamento que vem quando o corpo para de se tensionar.
Os biscoitos champanhe não são submersos por muito tempo. Um instante no café é suficiente. Apenas o bastante para absorver o sabor intenso sem se desfazerem.
Mergulhando sem perder a forma.
São dispostos em camadas. Ordenadamente. Repetição paciente: creme, café, creme, café.
Nada apressado.
Nada forçado.
Apenas a construção lenta de algo que sabe exatamente o que está fazendo. Cacau é polvilhado por cima, amargo e delicado, como uma lembrança que nunca se apaga completamente.
Não domina.
Mas está lá.
E então, o mais importante: repouso. Horas na geladeira. Tempo suficiente para tudo se misturar, para o firme amolecer, para o intenso se fundir sem desaparecer.
Quando servido, a colher corta as camadas sem esforço.
Não há resistência.
Tudo cede com uma docilidade consciente.
Às vezes, calma não significa esquecer...
Significa permanecer, mesmo compreendendo a sombra.
Os dias que se seguem à explosão passam numa calma que não é paz, mas vigilância.
Lorenzo praticamente nunca sai do meu lado durante o dia. Está presente em cada consulta médica, cada troca de curativo, cada comprimido que o médico deixa na mesa com instruções precisas. Ele supervisiona tudo. Ele observa tudo. Ele me observa.
— Tontura?
— Um pouco.
— Dor de cabeça?
— Suportável.
Ele acena com a cabeça, mas nunca parece convencido.
Os seus dedos roçam o meu pulso enquanto ele verifica a minha pulsação, como se não confiasse totalmente no diagnóstico. Como se precisasse verificar por si mesmo se eu ainda estou aqui.
No entanto, quando a noite cai, ele desaparece.
Ele não me diz nada, mas eu sei. Ouço-o falando em voz baixa no seu escritório. Nomes. Rotas. "Os russos." "Erros." "Não pode acontecer de novo."
Há uma aspereza no seu tom que ele não usa comigo.
Nas primeiras noites, durmo m*al. Meu corpo se assusta com cada som. A lembrança da explosão retorna em flashes: o fogo, o empurrão invisível do ar, o chão atingindo a minha cabeça.
Mas esta noite é diferente.
Estou meio adormecida quando sinto o colchão afundar levemente. O movimento é mínimo, quase imperceptível. M*al abro os olhos e vejo a sua silhueta deitada ao meu lado.
Ele não diz nada.
Ele simplesmente se inclina e deposita um beijo na minha testa, bem onde o curativo foi removido, mas a lembrança da dor ainda persiste.
Fecho os olhos novamente.
A minha mão instintivamente busca a dele.
Ele permanece imóvel por um segundo, como se estivesse surpreso, e então entrelaça os nossos dedos.
É estranho. Inquietante. E ainda assim… reconfortante.
A minha respiração se estabiliza, o meu peito não aperta mais. O medo se dissolve em algo mais acolhedor.
Nas noites anteriores, eu me sentia sozinha mesmo cercada por paredes luxuosas. Agora, com ele ao meu lado, o silêncio não é uma ameaça.
É um refúgio.
E eu caio num sono profundo.
Não sei quanto tempo se passa antes que um som me arranque do meu sono.
Um suspiro.
Curto. Controlado. Como se alguém estivesse tentando abafar um grito.
Abro os olhos.
Lorenzo está rígido ao meu lado. A sua respiração está irregular. O seu peito sobe e desce com uma força contida.
Sento-me lentamente.
— Lorenzo?
Ele leva um segundo para reagir. Então pisca e me olha, desorientado.
— Você está bem? Franzo a testa.
Ele passa a mão pelo rosto, expirando.
— Sonhei que você estava indo embora...
A sua voz está rouca, como se ele a tivesse usado para gritar.
— Foi um pesadelo? Inclino a cabeça.
Ele me olha como se a pergunta fosse absurda.
— Perder você seria o meu pior pesadelo. Diz ele. — Qualquer sonho em que você me deixa ou algo acontece com você... é um pesadelo.
Sinto algo se contrair dentro de mim.
Estendo a mão e acaricio a sua bochecha. A sua pele é quente, levemente áspera. Real.
— Estou aqui... Sussurro.
Ele fecha os olhos por um segundo, encostando a testa na minha. Então se afasta abruptamente, frustrado.
— Você deveria me odiar. Diz ele. — Depois de tudo o que você passou por minha causa. Seria mais fácil assim.
Eu o examino de cima a baixo, fingindo analisá-lo.
— Seria mais fácil te odiar se você não fosse tão bonito.
Ele solta uma risada curta e incrédula.
— Estou tentando falar sério. Revira os olhos. Mesmo assim, puxa o meu braço e me coloca no seu colo.
— Eu também. Respondo, soltando uma risadinha quando ele belisca a minha cintura.
O silêncio que se segue não é constrangedor. É denso.
Ele levanta a mão e acaricia o meu rosto suavemente, como se ainda tivesse medo de me quebrar. Envolvo-o com os meus braços e apoio a cabeça no seu peito.
O seu coração bate forte. Firmemente.
É estranho... Sentir que não o conheço de verdade, e ainda assim é como se o conhecesse a vida toda. Como se cada batida do seu coração me fosse familiar...
Eu sei o que ele é. Sei o que ele faz. Conheço o mundo em que ele vive.
E ainda assim...
Não posso mais fingir que isso é superficial.
Não posso fingir que não estou envolvida demais.
Envolvida demais.
Demais... dele.
Fecho os olhos.
E pela primeira vez desde a explosão, não tenho medo.
Nem tudo que queima pode ser evitado.
Às vezes, o corpo se lembra do fogo e, mesmo sabendo dos danos... o busca novamente.