Episódio 18

1400 Words
°•~~~~🔥~~~~•° Virginia. Primeiro, peneire a farinha de amêndoa até ficar completamente lisa. A perfeição começa no invisível, naquilo que ninguém percebe, mas que mantém a forma. O açúcar de confeiteiro é incorporado delicadamente, como se tudo dependesse de uma textura precisa. Porque depende. As claras em neve são batidas em ponto de neve firme, com paciência e disciplina, até ficarem brancas e imponentes. Em seguida, o açúcar é adicionado em fio, e a espuma se transforma em brilho, em estrutura, em algo que não treme mais. Algumas gotas de cor suave. Um rosa quase imperceptível. Não grita. Mas se faz notar. A massa é trabalhada com movimentos precisos e envolventes. Nem muitos, nem poucos. Há um ponto exato em que a firmeza se torna sedosa, e a sedosidade mantém o caráter. Círculos perfeitos são formados na assadeira, alinhados, elegantes, aguardando o calor que os fará crescer. Antes do forno, eles descansam. Secam por fora, criando uma superfície lisa e impecável, pronta para suportar pressão. O forno as transforma delicadamente. A "base" aparece na parte inferior, aquela pequena borda que revela que tudo correu bem. Que a estrutura é sólida, mesmo que pareça frágil. Enquanto isso, a framboesa cozinha com o açúcar até ficar intensa, vibrante, ligeiramente ácida. Não perde a sua essência. Pelo contrário, concentra-se nela. Adiciona-se champanhe à ganache. Borbulhante. Festivo. Um luxo sem remorso. O álcool suaviza, mas deixa um eco sofisticado que se revela no final. Os macarons são recheados com precisão. Um recheio sustenta. Outro cobre. No centro, a framboesa pulsa como um doce segredo que não tenta se esconder. Não são discretos. Foram feitos para serem exibidos. Para brilhar sob luzes intensas. Para atrair olhares. Pequena, perfeita, leve na mão, mas impossível de ignorar quando apresentada numa bandeja de prata. Vários dias se passaram, não sei exatamente quantos. Mas minha cabeça não lateja mais com aquela constante sensação de peso, e as queimaduras são apenas leves sombras rosadas que a maquiagem pode facilmente disfarçar. Sinto-me mais forte. E talvez seja por isso que Lorenzo decide que é hora de me trazer de volta ao mundo. — Há um evento para o qual quero que você compareça. Ele me diz três dias antes, encostado no batente da porta enquanto me observa ler. — É o leilão anual. Em uma das minhas mansões. Eu levanto o olhar. — Um leilão? Agora? Pergunto, arqueando uma sobrancelha. — Pensei que você estivesse em modo guarda-costas paranoico. O seu sorriso se curva levemente. — Estou. É por isso que é o lugar mais seguro que você poderia estar. Segurança privada, acesso controlado, convidados selecionados. Faço isso todo ano. Você não tem com o que se preocupar." Observo-o por alguns segundos. Uma parte de mim suspeita que ele queira me exibir. Outra parte sabe que ele quer provar que nada nem ninguém pode me tocar. — Tudo bem. Concordo finalmente. E quando a noite cai e ele se deita ao meu lado, contando-me sobre o leilão e os detalhes da minha participação, entendo algo. Ele não está me escondendo. Ele está me apresentando. Isso está certo? Claramente não. Eu me importo? Não muito. No dia seguinte, um estilista chegou à mansão, pronto para criar o vestido perfeito para mim. Lorenzo certamente sabe como me mimar. O vestido é branco. Justo ao corpo, feito de renda delicada que contorna cada curva sem pedir permissão. Pequenos diamantes incrustados captam a luz como se eu estivesse usando estrelas costuradas na pele. Prendi o meu cabelo num coque baixo, deixando algumas mechas soltas que emolduram o meu rosto. O espelho reflete uma imagem que m*l reconheço. Luz. Pureza... Uma bela mentira. Lorenzo saiu cedo para supervisionar cada detalhe. Chego mais tarde, sozinha, saindo do carro sob uma chuva de luzes e sussurros. A mansão reluz. Mármore, cristal, lustres impossíveis. Uma música suave flutua no ar. E então eu o vejo. Ele está de costas para mim, conversando com um grupo de homens de terno. Escuro, impecável, imponente. Quando ele se vira e os nossos olhares se encontram, tudo ao seu redor parece desaparecer. Ele permanece imóvel. Ele me olha de cima a baixo lentamente. — Você está angelical de branco. Diz ele quando finalmente chega perto de mim. Eu sorrio. — Isso é bom? Ele se inclina um pouco para sussurrar no meu ouvido. — Seria... se eu não soubesse que não é verdade. Reviro os olhos, embora não consiga evitar o sorriso. — Não pensei que você me convidaria para algo assim. — Não te convidar nunca fez parte dos meus planos. Ele responde, com naturalidade. — Tudo o que eu quero é ser visto ao lado da mulher mais linda do lugar. Sinto um calor subir pelo pescoço, mordo o lábio, tentando esconder o quanto adoro esse homem. Ele me oferece o braço e eu aceito. Nos olhamos por um instante e finalmente entramos juntos. Assim que entramos, percebo que os olhares não são nada discretos. Eles nos seguem. Eles nos avaliam. Eles deslizam pelo meu vestido, pela mão firme dele na minha cintura, pela proximidade que nem tentamos esconder. — Eles estão nos olhando estranho. Murmuro. — É porque não conseguem parar de olhar para você. Ele responde com confiança. — Você não é exatamente alguém que passa despercebida. Inclino a cabeça na direção dele. — Ou talvez estejam se perguntando onde está a sua esposa. Ergo uma sobrancelha. — Minha querida mãe... Sinto o corpo dele tensionar levemente e ele cerra os dentes. — Não me importo. Diz ele com uma frieza contida. — Que pensem o que quiserem. Observo-o pelo canto do olho. Há algo determinado no seu olhar esta noite. Algo que não é apenas orgulho. É desafio. Bebemos algumas taças de champanhe e admiramos algumas obras de arte antes do início do leilão. Devo admitir que estou um pouco empolgada, já que nunca participei de um leilão antes. Um homem elegante sobe ao palco e apresenta a primeira peça: um colar antigo de esmeraldas. Os valores sobem rapidamente. Em seguida, uma pintura do século XIX. Depois, brincos de safira. Dinheiro trocando de mãos como peças de um jogo. Observo. Aprendo. Lorenzo me lança olhares de vez em quando, sorrindo divertido com o meu fascínio evidente. Aplaudo cada vez que alguém compra uma peça exclusiva. O silêncio toma conta do salão quando a próxima peça é anunciada. — Senhoras e senhores. Diz o leiloeiro, com a voz modulada. — A próxima peça pertence a uma coleção particular europeia. Data do final do século XIX. Apresenta diamantes de lapidação antiga e uma cravação em platina restaurada à mão. Um assistente abre o estojo. A coroa brilha sob os holofotes. Não ofusca de forma vulgar. Pulsa. Solto um suspiro, os meus olhos se arregalando. Sinto um frio na barriga. — Eu quero. Sussurro. Lorenzo me olha de soslaio. Ele não sorri. Ele me estuda. — Preço inicial: quarenta mil. Anuncia o leiloeiro. — Quem me dá quarenta mil? Uma paleta é erguida quase imediatamente. Número 17. — Obrigada, senhor. Quarenta mil. Cinquenta? Outra paleta. Número 32. — Cinquenta mil lá atrás. Sessenta? Um homem à minha direita acena levemente com a cabeça sem levantar a paleta. O assistente anota. — Sessenta mil. Setenta? Os números sobem com um ritmo que parece ensaiado. Oitenta. Noventa. Lorenzo move o braço levemente, pronto para intervir. Coloco a minha mão sobre a dele. — Não. Levanto a minha própria paleta. Nem sei qual é o número. Não importa. — Cem mil. Digo claramente. Algumas cabeças se viram. O murmúrio aumenta ligeiramente. O leiloeiro sorri, satisfeito. — Temos uma oferta de 100.000 da Srta... Ele me olha interrogativamente. — Virginia Parks. Respondo. — 100.000 pela Srta. Virginia Parks. 110.000? O m*aldito número 32 surge novamente. — 110.000. 120.000? O homem à minha direita levanta dois dedos. — 120.000. 130.000? Respiro fundo. — 135.000. Lorenzo não diz nada. Sinto o seu olhar sobre mim, mas ele não intervém. Um assistente se aproxima do homem ao fundo. Ele sussurra algo. O homem acena com a cabeça. — 150.000. ‍​‌‌​​‌​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
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