Episódio 19

1525 Words
A tensão muda. Não é mais uma brincadeira. Agora é competição de verdade. E eu sou o mais competitivo de todos. O leiloeiro eleva um pouco a voz. — Cento e cinquenta mil. Cento e sessenta mil? Levanto a minha paleta sem hesitar. — Cento e sessenta mil. O homem à direita sorri, quase divertido. — Cento e setenta mil. O meu coração dispara. Não se trata de dinheiro. Trata-se de escolher. De vencer. De não ser a criança abandonada. De não ser o bem mais precioso de alguém. — Cento e oitenta mil. Respondo, pulando o incremento usual. O murmúrio aumenta. O leiloeiro ergue as sobrancelhas, satisfeito. — Oferecemos cento e oitenta mil euros. Duzentos mil? Silêncio. O homem lá atrás checa o celular e balança a cabeça negativamente. O homem à direita se inclina para o companheiro. Hesita. Lorenzo permanece imóvel. Não me resgata. Não me impede. Ele confia em mim. — Duzentos mil? Insiste o leiloeiro. Nada. — Última chance? O homem à direita abaixa o olhar. O martelo se ergue. — Vendido por cento e oitenta mil euros para a Srta. Virginia Parks. O golpe é seco. E ma*l posso acreditar que a coroa é minha... O ar volta aos meus pulmões. Viro-me para Lorenzo. Ele me olha como se tivesse acabado de presenciar algo inesperado, com as sobrancelhas arqueadas. — Não preciso de um mafioso para comprar as minhas joias. Digo baixinho. Um sorriso lento se abre nos seus lábios. — Eu percebi. Roubo um beijo rápido e firme antes de caminhar em direção ao palco. Sinto cada passo, cada olhar sobre mim. Mas não estou nervosa, não estou tremendo. Quando o assistente coloca a coroa nas minhas mãos, o seu peso é frio e sólido. Viro-me para encarar a plateia. E sem dizer uma palavra, coloco-a no pescoço. Não como uma criança brincando. Como alguém que escolheu estar ali e que pagará cada centavo por esta coroa. Os aplausos são elegantes, contidos. Mas chega. E quando olho para Lorenzo, vejo um brilho intenso nos seus olhos enquanto ele morde o lábio. — Isso foi incrível... Diz ele, aproximando-se de mim e ignorando aqueles que tentam ao menos chamar a sua atenção. — Mas você sabe que precisa pagar, não é? — Claro, não sou boba. Reviro os olhos. — Você acha que eu não tenho dinheiro? — Ei, eu não disse nada, sua pequena fera. Ele ergue as mãos, sorrindo divertido. — Mas essa linda coroa que parece ter sido feita para você vale uma fortuna... — Eu sei disso, mas tenho economias. Dou de ombros. — Durante esses anos em que eu estudava, também trabalhei com meu pai, ajudando-o a organizar a sua agenda de projetos de arquitetura e sempre o acompanhando, garantindo que tudo estivesse em ordem. Então, aprendi um pouco de tudo. Digamos que sou a secretária dele. Sorrio divertida. — Eu tenho dinheiro, Lorenzo. Há muita coisa que você não sabe sobre mim. Ele ergue uma sobrancelha. — Interessante... Murmura, colocando a mão na minha cintura e me puxando para mais perto. — Adoro quando você fala de si mesma, mas acho que nos sentiríamos mais à vontade lá fora. Olho em volta. Lorenzo tem razão. Somos como animais de circo aqui. Principalmente ele, já que é o organizador. Eles ficam olhando para ele e forçando sorrisos. Imagino quantos deles estariam dispostos a matar Lorenzo para ficar com tudo o que ele possui, se tivessem a chance... — Sim, é uma boa ideia. Concordo. Primeiro, bebemos algumas taças de champanhe. Ele troca algumas palavras com alguns senhores de terno. E, bem na hora em que o próximo leilão — desta vez de peças de cerâmica importadas — está prestes a começar, ele pega a minha mão e escapamos para os jardins. A noite está fresca. Luzes douradas iluminam os caminhos de pedra e as fontes silenciosas. — Podemos ir agora? Ele me olha. Não consigo conter o riso. — Você é a organizador. Você deveria ficar com os seus convidados... Ele bufa, provavelmente resmungando baixinho. — Eu preferiria estar com você. — Eu sei. Respondo, sem conseguir parar de rir do seu comportamento infantil em relação a um evento que ele mesmo organizou. Mas teremos tempo suficiente... Ele se inclina para mim. — Você não faz ideia de como eu desejei ter você a sós... Envolvo os meus braços em volta do seu pescoço e o beijo lentamente desta vez, sem plateia, sem martelos, sem aplausos. Só nós dois. Quando me afasto, vejo algo novo nos seus olhos. Não é possessão. Não é medo. É escolha. E desta vez, a escolha é mútua. •°~~~~🔥~~~~°• Virginia. A vagem de baunilha é aberta longitudinalmente com um corte limpo e preciso. As sementes escuras são raspadas lentamente, como se extraíssemos um segredo escondido na luz. O leite e o creme de leite são aquecidos juntos, sem deixar ferver. O vapor sobe em fios delicados, prometendo um calor que nunca chega a queimar. As gemas são batidas com o açúcar até ficarem pálidas e espessas, como se o tempo pudesse iluminar o que permanece escuro lá dentro. A mistura quente é despejada lentamente, temperando, acostumando, evitando qualquer choque térmico repentino. Nada aqui é feito com pressa. O creme de leite volta ao fogo e é mexido constantemente até engrossar o suficiente para cobrir as costas de uma colher. O equilíbrio perfeito entre líquido e firmeza, entre entrega e controle. Então vem o frio. A mistura é deixada em repouso, primeiro morna, depois congelada. É despejada na máquina que gira e gira, incansavelmente, quebrando o vidro, impedindo que se torne completamente rígida. O sorvete é formado assim: através do movimento constante e das baixas temperaturas. A maciez construída em meio ao frio. Quando servido, é branco, suave, aparentemente simples. Não intimida. Não desafia. Mas ao prová-lo, a baunilha se expande lenta, profunda e persistentemente. Não é estridente. É envolvente. E à medida que derrete, deixa claro que até as coisas mais frias acabam cedendo quando o contato é suficiente. Algumas coisas parecem calmas. Neutras. Inofensivas. Até que o calor certo as force a revelar tudo o que mantiveram em silêncio. Há algo que ninguém te conta sobre morar numa mansão enorme. O silêncio é pesado. Especialmente quando a pessoa que você está esperando sempre chega quando você já está dormindo. Lorenzo aparece de madrugada. Sempre. Às vezes, eu o ouço caminhando pelo corredor quando a casa está escura, como se ele estivesse se movendo em outro mundo ao qual eu ainda não pertenço. É por isso que hoje decidi fazer algo diferente. Se não posso passar a noite com ele, pelo menos compartilharei o almoço. E não qualquer almoço. Um que eu vou me lembrar. Quebrei a cabeça ontem à noite tentando criar a melhor receita que eu pudesse fazer sem incendiar a cozinha inteira, algo sofisticado, algo que o impressionasse. Embora seja difícil, considerando que Lorenzo provavelmente já experimentou de tudo. Mas finalmente decidi por um risoto de açafrão com camarões grelhados e limão em conserva... Apoio as duas mãos na bancada da cozinha e sorrio. — Ótimo, Virginia. Murmuro. — Você está no último ano da escola de culinária. Hora de mostrar que todo aquele dinheiro da faculdade valeu a pena. A cozinha principal da mansão parece a de um restaurante profissional. Mármore branco, aço polido, facas enfileiradas como soldados. Perfeito. Prendi o meu cabelo num coque frouxo e amarrei um avental. Começo com a mise en place. Sempre começo assim. É a base de tudo. Primeiro, o açafrão. Pego uma pequena caixa de vidro. Os fios são vermelhos, delicados, quase sagrados. Coloco-os numa tigela com um pouco de caldo quente. A cor começa a desvendar lentamente, como se o tempero estivesse despertando. Enquanto isso, preparo o resto. Cebola branca. Corto-a em cubinhos perfeitos, quase em brunoise. A faca bate na tábua num ritmo constante. Toc. Toc. Toc. Arroz arbóreo. O melhor que encontrei na despensa. Grãos curtos, perolados. Em seguida, os camarões frescos. Retiro cuidadosamente as cascas, deixando os rabos. Abro o lombo com a ponta da faca e retiro a membrana escura. Seco-os com papel toalha. Sal. ​​Pimenta. Um pouco de azeite. Limão cristalizado. Preparo-o rapidamente: tiras finas de casca de limão, escaldadas e depois cozidas numa calda leve com uma pitada de sal. O aroma cítrico invade a cozinha. Pauso por um segundo. Isso é… bom. Como voltar a ser eu mesma. Nunca cozinhei para ninguém além do meu pai e, às vezes, para minhas melhores amigas — quando elas insistiam demais —, nunca para um homem. Isso deve dizer alguma coisa… Coloco uma panela rasa no fogão. Azeite, depois manteiga. Quando começa a espumar, adiciono a cebola. O som é imediato. Um chiado suave. Mexo devagar com uma colher de p*au. ‍​‌‌​​‌​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
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