A tensão muda. Não é mais uma brincadeira. Agora é competição de verdade.
E eu sou o mais competitivo de todos.
O leiloeiro eleva um pouco a voz.
— Cento e cinquenta mil. Cento e sessenta mil?
Levanto a minha paleta sem hesitar.
— Cento e sessenta mil.
O homem à direita sorri, quase divertido.
— Cento e setenta mil.
O meu coração dispara.
Não se trata de dinheiro.
Trata-se de escolher. De vencer.
De não ser a criança abandonada.
De não ser o bem mais precioso de alguém.
— Cento e oitenta mil. Respondo, pulando o incremento usual.
O murmúrio aumenta.
O leiloeiro ergue as sobrancelhas, satisfeito.
— Oferecemos cento e oitenta mil euros. Duzentos mil?
Silêncio.
O homem lá atrás checa o celular e balança a cabeça negativamente.
O homem à direita se inclina para o companheiro. Hesita.
Lorenzo permanece imóvel. Não me resgata. Não me impede.
Ele confia em mim.
— Duzentos mil? Insiste o leiloeiro.
Nada.
— Última chance?
O homem à direita abaixa o olhar.
O martelo se ergue.
— Vendido por cento e oitenta mil euros para a Srta. Virginia Parks.
O golpe é seco.
E ma*l posso acreditar que a coroa é minha...
O ar volta aos meus pulmões.
Viro-me para Lorenzo. Ele me olha como se tivesse acabado de presenciar algo inesperado, com as sobrancelhas arqueadas.
— Não preciso de um mafioso para comprar as minhas joias. Digo baixinho.
Um sorriso lento se abre nos seus lábios.
— Eu percebi.
Roubo um beijo rápido e firme antes de caminhar em direção ao palco.
Sinto cada passo, cada olhar sobre mim. Mas não estou nervosa, não estou tremendo.
Quando o assistente coloca a coroa nas minhas mãos, o seu peso é frio e sólido.
Viro-me para encarar a plateia.
E sem dizer uma palavra, coloco-a no pescoço.
Não como uma criança brincando. Como alguém que escolheu estar ali e que pagará cada centavo por esta coroa.
Os aplausos são elegantes, contidos.
Mas chega.
E quando olho para Lorenzo, vejo um brilho intenso nos seus olhos enquanto ele morde o lábio.
— Isso foi incrível... Diz ele, aproximando-se de mim e ignorando aqueles que tentam ao menos chamar a sua atenção. — Mas você sabe que precisa pagar, não é?
— Claro, não sou boba. Reviro os olhos. — Você acha que eu não tenho dinheiro?
— Ei, eu não disse nada, sua pequena fera. Ele ergue as mãos, sorrindo divertido. — Mas essa linda coroa que parece ter sido feita para você vale uma fortuna...
— Eu sei disso, mas tenho economias. Dou de ombros. — Durante esses anos em que eu estudava, também trabalhei com meu pai, ajudando-o a organizar a sua agenda de projetos de arquitetura e sempre o acompanhando, garantindo que tudo estivesse em ordem. Então, aprendi um pouco de tudo. Digamos que sou a secretária dele. Sorrio divertida. — Eu tenho dinheiro, Lorenzo. Há muita coisa que você não sabe sobre mim.
Ele ergue uma sobrancelha.
— Interessante... Murmura, colocando a mão na minha cintura e me puxando para mais perto. — Adoro quando você fala de si mesma, mas acho que nos sentiríamos mais à vontade lá fora.
Olho em volta. Lorenzo tem razão. Somos como animais de circo aqui. Principalmente ele, já que é o organizador. Eles ficam olhando para ele e forçando sorrisos. Imagino quantos deles estariam dispostos a matar Lorenzo para ficar com tudo o que ele possui, se tivessem a chance...
— Sim, é uma boa ideia. Concordo.
Primeiro, bebemos algumas taças de champanhe. Ele troca algumas palavras com alguns senhores de terno. E, bem na hora em que o próximo leilão — desta vez de peças de cerâmica importadas — está prestes a começar, ele pega a minha mão e escapamos para os jardins.
A noite está fresca. Luzes douradas iluminam os caminhos de pedra e as fontes silenciosas.
— Podemos ir agora? Ele me olha.
Não consigo conter o riso.
— Você é a organizador. Você deveria ficar com os seus convidados...
Ele bufa, provavelmente resmungando baixinho.
— Eu preferiria estar com você.
— Eu sei. Respondo, sem conseguir parar de rir do seu comportamento infantil em relação a um evento que ele mesmo organizou. Mas teremos tempo suficiente...
Ele se inclina para mim.
— Você não faz ideia de como eu desejei ter você a sós...
Envolvo os meus braços em volta do seu pescoço e o beijo lentamente desta vez, sem plateia, sem martelos, sem aplausos.
Só nós dois.
Quando me afasto, vejo algo novo nos seus olhos.
Não é possessão.
Não é medo.
É escolha.
E desta vez, a escolha é mútua.
•°~~~~🔥~~~~°•
Virginia.
A vagem de baunilha é aberta longitudinalmente com um corte limpo e preciso. As sementes escuras são raspadas lentamente, como se extraíssemos um segredo escondido na luz.
O leite e o creme de leite são aquecidos juntos, sem deixar ferver. O vapor sobe em fios delicados, prometendo um calor que nunca chega a queimar.
As gemas são batidas com o açúcar até ficarem pálidas e espessas, como se o tempo pudesse iluminar o que permanece escuro lá dentro.
A mistura quente é despejada lentamente, temperando, acostumando, evitando qualquer choque térmico repentino.
Nada aqui é feito com pressa.
O creme de leite volta ao fogo e é mexido constantemente até engrossar o suficiente para cobrir as costas de uma colher. O equilíbrio perfeito entre líquido e firmeza, entre entrega e controle.
Então vem o frio. A mistura é deixada em repouso, primeiro morna, depois congelada. É despejada na máquina que gira e gira, incansavelmente, quebrando o vidro, impedindo que se torne completamente rígida.
O sorvete é formado assim: através do movimento constante e das baixas temperaturas. A maciez construída em meio ao frio.
Quando servido, é branco, suave, aparentemente simples.
Não intimida.
Não desafia.
Mas ao prová-lo, a baunilha se expande lenta, profunda e persistentemente. Não é estridente. É envolvente.
E à medida que derrete, deixa claro que até as coisas mais frias acabam cedendo quando o contato é suficiente.
Algumas coisas parecem calmas.
Neutras.
Inofensivas.
Até que o calor certo as force a revelar tudo o que mantiveram em silêncio.
Há algo que ninguém te conta sobre morar numa mansão enorme.
O silêncio é pesado.
Especialmente quando a pessoa que você está esperando sempre chega quando você já está dormindo.
Lorenzo aparece de madrugada. Sempre. Às vezes, eu o ouço caminhando pelo corredor quando a casa está escura, como se ele estivesse se movendo em outro mundo ao qual eu ainda não pertenço.
É por isso que hoje decidi fazer algo diferente.
Se não posso passar a noite com ele, pelo menos compartilharei o almoço.
E não qualquer almoço.
Um que eu vou me lembrar.
Quebrei a cabeça ontem à noite tentando criar a melhor receita que eu pudesse fazer sem incendiar a cozinha inteira, algo sofisticado, algo que o impressionasse. Embora seja difícil, considerando que Lorenzo provavelmente já experimentou de tudo.
Mas finalmente decidi por um risoto de açafrão com camarões grelhados e limão em conserva...
Apoio as duas mãos na bancada da cozinha e sorrio.
— Ótimo, Virginia. Murmuro. — Você está no último ano da escola de culinária. Hora de mostrar que todo aquele dinheiro da faculdade valeu a pena.
A cozinha principal da mansão parece a de um restaurante profissional. Mármore branco, aço polido, facas enfileiradas como soldados.
Perfeito.
Prendi o meu cabelo num coque frouxo e amarrei um avental.
Começo com a mise en place. Sempre começo assim. É a base de tudo.
Primeiro, o açafrão.
Pego uma pequena caixa de vidro. Os fios são vermelhos, delicados, quase sagrados. Coloco-os numa tigela com um pouco de caldo quente.
A cor começa a desvendar lentamente, como se o tempero estivesse despertando. Enquanto isso, preparo o resto.
Cebola branca. Corto-a em cubinhos perfeitos, quase em brunoise. A faca bate na tábua num ritmo constante.
Toc. Toc. Toc.
Arroz arbóreo.
O melhor que encontrei na despensa. Grãos curtos, perolados.
Em seguida, os camarões frescos. Retiro cuidadosamente as cascas, deixando os rabos. Abro o lombo com a ponta da faca e retiro a membrana escura. Seco-os com papel toalha.
Sal. Pimenta.
Um pouco de azeite.
Limão cristalizado.
Preparo-o rapidamente: tiras finas de casca de limão, escaldadas e depois cozidas numa calda leve com uma pitada de sal. O aroma cítrico invade a cozinha.
Pauso por um segundo.
Isso é… bom.
Como voltar a ser eu mesma.
Nunca cozinhei para ninguém além do meu pai e, às vezes, para minhas melhores amigas — quando elas insistiam demais —, nunca para um homem. Isso deve dizer alguma coisa…
Coloco uma panela rasa no fogão. Azeite, depois manteiga.
Quando começa a espumar, adiciono a cebola. O som é imediato. Um chiado suave. Mexo devagar com uma colher de p*au.