O motor da Kombi fazia um barulho constante, um ronco grave que parecia embalar o medo dentro de mim. Eu estava sentada perto da janela, abraçada à sacola que Seu Nilo me mandou levar, e cada vez que o carro chacoalhava, sentia o estômago revirar. O cheiro de gasolina misturado com poeira me fazia lembrar o quarto abafado do bordel, e eu precisei respirar fundo várias vezes pra não chorar ali mesmo. O banco era duro, as molas pareciam atravessar o tecido. A cada curva, eu sentia o coração bater mais rápido. O motorista — um homem grisalho, calado— não olhava muito pra mim. Acho que percebeu o medo nos meus olhos e achou melhor ficar quieto. Do lado de fora, as ruas passavam depressa. Primeiro os becos apertados, as paredes cobertas de pichações. Depois as avenidas largas, o cheiro de ma

