O dia já começou errado antes mesmo de eu abrir os olhos. Acordei com aquela pressão no peito, como se alguém tivesse batido em mim. Não era dor, não era ressaca, não era nada físico. Era aquele aviso invisível que só quem cresceu no morro conhece. O corpo sente antes do cérebro entender. É como se o morro falasse comigo em silêncio, avisando que a paz é só ilusão e que logo a desgraça vai bater na porta.
Fiquei uns minutos deitado, encarando o teto.
Não conseguia relaxar. O relógio ainda marcava cedo, mas dormir mais não era opção.
No morro, a gente nunca dorme de verdade. Só fecha os olhos, esperando qualquer barulho estranho. Suspirei fundo, passei a mão na cara e levantei. Fui até o banheiro, liguei a água gelada - mas a sensação não saia, não sumia.
Desci até a cozinha, preparei meu café amargo, do jeito que gosto. Encostei na bancada enquanto olhava pela janela. O sol tentava rasgar as nuvens cinzentas, mas não tinha brilho nenhum naquela manhã. A rua, normalmente cheia de vida, parecia parada. Nem os moleque que correm cedo estavam ali. Cachorro não latiu, rádio não tocou. Só um silêncio grosso, pesado, que incomodava mais do que o barulho de tiro.
Apoiei os braços na varanda da frente e fiquei observando de cima. A rua molhada da chuva da madrugada refletia como um espelho quebrado. Podia ser impressão, mas senti o vento mais frio do que devia. Tudo parecia fora do compasso.
— Que p***a é essa? — murmurei pra mim mesmo, tragando o cigarro.
Bati o café de uma vez, lavei o rosto e desci. Não dava pra enrolar. Quem manda no morro não pode se dar ao luxo de se esconder por causa de sensação r**m. Coloquei a jaqueta, peguei a moto e desci pelas vielas, atento em cada canto, cada sombra.
No caminho, notei que até os olhares dos moradores estavam diferentes. Normalmente, mesmo com medo, eles cumprimentam, abaixam a cabeça, seguem o fluxo. Hoje, muitos só fecharam a porta, outros desviaram o olhar. As crianças que costumavam correr entre as casas estavam trancadas. Era como se todo mundo tivesse recebido o mesmo recado que eu: hoje não é dia normal.
O motor da moto ecoava forte, mas dentro de mim a pressão só aumentava. Parecia que a qualquer momento alguma coisa ia estourar.
Cheguei na boca. O movimento tava rolando, mas algo não batia. De cara já percebi que os moleques estavam mais quietos, trabalhando sem olhar muito pra ninguém. Uns mexiam nas anotações, outros carregavam caixas.
Tudo certo na prática, mas no ar?
No ar tinha fumaça invisível.
Estacionei e desci, observando cada detalhe. Guto já estava lá, organizando uns moleques na lateral. Ele me viu e veio na hora, com aquele jeito dele: firme, mas tranquilo. Sempre foi meu braço direito, desde moleque. A gente cresceu junto, sabe tudo da minha vida, e eu da dele. Não confio em muita gente, mas Guto é exceção.
— Chegou cedo hoje, primo — ele disse, batendo de leve no meu ombro.
Balancei a cabeça, sem expressão.
— O morro tá diferente, Guto. Tá estranho desde que acordei. Não consigo tirar essa p***a de sensação do peito.
Ele arqueou a sobrancelha, meio rindo.
— Estranho como?
Passei os olhos pelo movimento. Os moleques descarregando caixas, um rádio chiando no canto, o cheiro de cigarro misturado com comida frita de alguma barraca próxima. Tudo parecia normal, mas não era. Não pros meus olhos.
— É no ar. No silêncio. No jeito que a rua tava quando desci. Todo mundo calado demais. Até os cachorro tão quietos. Tem coisa errada.
Guto riu baixo, mas sem deboche.
— Tu anda muito encucado, mano. Isso é só impressão. O pessoal tá trabalhando, tudo no esquema.
Olhei direto nos olhos dele, sério.
— Não é impressão. Quem vive de guerra sente quando o clima muda. O morro fala, Guto. E hoje ele tá falando alto.
Ele respirou fundo, cruzando os braços.
— Eu sei que tu tem faro, primo. Não tô desmerecendo, não. Mas às vezes a gente cria coisa na cabeça. A boca tá girando, o corre tá rodando, ninguém vacilou. Tá tudo sob controle.
Mordi o lábio, segurando a raiva que aquela frase me causou. Sob controle. Quantas vezes eu já ouvi isso antes de m***a acontecer? Controle nenhum existe no morro. O que existe é alerta, disciplina e sangue frio.
— Controle é ilusão, Guto. Hoje pode tá tudo calmo, mas amanhã um vacilo estoura uma guerra. — Apontei pros moleques que trabalhavam.
— Olha bem. Eles tão com cara de normalidade, mas por dentro tão no mesmo clima que eu. Sabem que tem algo errado.
Ele me olhou sério por uns segundos, depois deu de ombros.
— Tá, vou redobrar atenção. Mas relaxa, mano. Não adianta pirar antes da hora. Se for rolar m***a, a gente segura. Sempre seguramos.
Suspirei fundo, mas a sensação continuava grudada em mim. Era como sombra que não larga, mesmo no escuro.
Passei o dia andando pela boca, observando cada detalhe, cada gesto. Os moleques falavam baixo, evitavam cruzar comigo. O rádio chiava mais que o normal. Até o vento parecia trazer mensagem. Guto, como sempre, mantinha a calma. Ele confia demais no sistema, confia demais em mim. Eu também confio nele, mas sei que confiar no morro é pedir pra morrer.
A cada hora que passava, a pressão no peito aumentava. O sol foi descendo, pintando o céu de cinza. As luzes do morro começaram a piscar, os sons voltaram devagar, mas ainda assim… nada apagava a sensação.
No fundo, eu sabia: aquilo não era paranoia. O morro não fica diferente sem motivo. O silêncio não pesa à toa. Alguma coisa estava vindo, e ia bater de frente comigo mais cedo ou mais tarde.
E eu estaria pronto.
Sempre estou.