Saí do hospital quando o céu começava a clarear, ainda pesado de nuvens escuras. O corpo doía, não pela noite sem sono, mas pelo peso da tensão que ainda me agarrava no peito. O cheiro de desinfetante misturado a sangue seco ainda estava nas narinas. Meu tênis rangia no cimento molhado a cada passo, e a jaqueta colada de chuva me dava arrepios de frio. Precisei de ar.
Precisava me recompor.
Montei na moto e desci as vielas até minha casa no alto. Cada curva parecia me puxar de volta pro beco, pro sangue correndo na guia, praquela menina nos meus braços. Eu sabia que não ia esquecer tão cedo.
Entrei em casa sem acender luz, deixei a arma na mesa da cozinha e segui direto pro banheiro. A água quente caiu no corpo como soco e alívio ao mesmo tempo, escorrendo a noite inteira pelos ralos. Tirei da pele o cheiro de hospital, da roupa a umidade da chuva grossa, mas da cabeça eu não tirava a imagem dela. Morena clara, cabelos pretos longos, lisos, grudados de água e sangue. Olhos castanhos grandes, assustados, mas vivos. O rosto pequeno, cortado. Era tão nova que a raiva crescia em mim cada vez que lembrava.
Vesti roupa limpa, calça de moletom e camiseta preta. Fiz um café forte, mas não tomei mais que dois goles. A mente já estava na rua, na boca.
Eu precisava de respostas.
Cheguei lá e a movimentação era normal pra quem não sabe sentir o silêncio. Mas eu sabia. O morro tinha algo errado e eu não ia ignorar.
— Quero relatório da noite passada — falei seco, voz firme.
Guto apareceu com um caderno de anotações improvisado.
— Tudo?
— Tudo — confirmei.
— Carro que subiu, que desceu, placa, cor, gente estranha. Quero até cachorro que latiu mais do que devia.
Ele não discutiu. Chamou dois moleques que ficam na contenção e passou ordem. Um correu pra buscar o registro dos mototáxis, outro foi falar com o pessoal do beco do lado leste. Cada detalhe vira pista quando a coisa fede.
Enquanto eles se mexiam, fiquei parado, mão no bolso, cigarro apagado na boca só pelo gosto amargo. A cabeça trabalhava sozinha. Ninguém larga uma menina amarrada daquele jeito sem motivo. Era recado, era castigo ou era descuido de quem não tem medo de ser visto. De qualquer forma, era provocação. E provocação comigo tem preço alto.
Decidi que não ia esperar respostas só da rua. Precisava ver ela de novo. Montei na moto e voltei pro hospital.
O hospital do morro tem cheiro de vida remendada. É mistura de álcool, suor, sangue e remédio barato. As paredes são descascadas, mas cada rachadura conta história de quem foi salvo ali. Gente da comunidade cuida, porque sabe que amanhã pode ser o próximo a entrar carregado.
Passei pela recepção improvisada, uma mesa velha com duas pranchetas, e fui direto pro corredor do fundo. Ali onde deixam os casos mais pesados.
Dona Marta, a médica-chefe, me reconheceu de cara. Mulher de cinquenta e poucos, cabelo preso em coque, jaleco sempre manchado de alguma coisa. O olhar dela atravessa a alma de qualquer um.
— Chacal, precisamos conversar. — ela chamou, séria.
Fui até a sala pequena, quase um depósito, mas era o que tinham de reservado pra falar em particular. Fechou a porta e respirou fundo antes de começar.
— A menina… — ela ajeitou os óculos na ponta do nariz.
— Está muito machucada. Apanhou muito. Encontramos ossos que já tinham sido quebrados antes e não foram tratados. Colou errado.
Senti o maxilar travar. Apertei os punhos até as unhas marcarem a palma.
— Tem mais... Sofreu a***o. Repetidas vezes. Não é de ontem, é de tempo. O corpo dela mostra sinais claros. E… está sem vitaminas, sem nutrientes. Quase desnutrida.
Cada palavra era lâmina entrando fundo.
— E não tinha nada com ela? Nenhum documento, nada? — perguntei, tentando manter a calma.
Dona Marta pegou uma folha amassada, rabiscada com caneta azul.
— Só isso. Escrito no braço dela, com caneta, como se fosse a única coisa que queriam deixar. “Serena 18”.
Peguei o papel, encarei o nome. Serena. Dezoito. Era só isso que restava dela no mundo?
— Vai sobreviver? — perguntei baixo.
— Se não tiver complicações, sim. Mas vai precisar de cuidado, alimento, remédio, descanso. O corpo aguenta, Chacal, mas a cabeça… não sei. — respondeu.
Assenti devagar.
Saí da sala e voltei até o quarto onde tinham colocado ela. A porta estava encostada, empurrei com cuidado. O quarto era pequeno, duas camas de ferro, colchão fino, cheiro de álcool. Uma lâmpada fraca iluminava o espaço. Ela estava ali, deitada, rosto mais limpo agora, respirando devagar.
Aproximei. O cabelo preto espalhado no travesseiro, a pele marcada, mas ainda bonita, ainda jovem. Parecia dormir, mas cada cicatriz contava história de dor.
Fiquei de pé ao lado da cama, braços cruzados.
— Serena… — murmurei, testando o nome no ar.
Olhei em volta. Não tinha flores, não tinha família, não tinha ninguém esperando por ela. Só eu. Só minha promessa.
Ali mesmo decidi: ia cuidar dela. Ia dar remédio, comida, cama quente. Mas mais que isso: ia descobrir quem fez aquilo e cobrar com juros.
Saí do quarto devagar, mas antes olhei mais uma vez. Ela parecia pequena demais naquele colchão grande, perdida no meio do lençol.
Mas agora tinha alguém do lado.
Tinha eu. E eu não ia largar.