Acordei na poltrona dura do hospital, o pescoço doendo e os olhos ardendo. Nem percebi quando tinha apagado ali, sentado ao lado dela. A menina ainda estava deitada, conectada a soro, a respiração lenta, o corpo pequeno perdido naquele lençol branco.
Serena.
Era o nome escrito no braço dela, a única coisa que alguém achou que valia deixar.
Eu nunca dei muito valor pra nomes, mas esse já pesava. “Serena” não tinha nada de sereno. O que eu vi naquela madrugada foi guerra.
Estiquei o corpo, passei a mão no rosto, e voltei a me recostar na cadeira. O hospital do morro nunca dorme, mas naquela hora da manhã o movimento era menos barulhento. Só dava pra ouvir passos apressados, o barulho de bandejas metálicas, os gemidos abafados de algum paciente mais ao fundo. O cheiro de álcool e sangue fresco estava impregnado no lugar, como se fosse perfume obrigatório.
Não tirei os olhos dela. Cada marca no rosto era um recado, cada roxo no braço era uma história que eu ainda não sabia. Me consumia não ter respostas.
Dona Marta apareceu, trazendo uma prancheta e um copo de café barato.
— Trouxe pra você, Chacal. — Ela me entregou, sem cerimônia.
— Valeu. Alguma novidade? — Tomei num gole só.
Ela suspirou.
— O corpo dela tá reagindo bem. O problema é psicológico. Esse tipo de trauma… não se cura com injeção.
Assenti, sem falar nada. Nunca fui bom com palavras de consolo. O que eu sabia fazer era resolver do meu jeito.
Passei o dia indo e voltando entre o hospital e a boca. Guto já estava no corre, me atualizando das anotações. Tinha gente revistando cada esquina, procurando informação de carro, de moto, de qualquer estranho que circulou pela comunidade.
— Chacal, encontramos uma van branca que entrou de madrugada — Guto disse quando cheguei.
— Ninguém conhece o motorista. Entrou e saiu sem parar.
— Placa? — perguntei seco.
— Tá sendo levantada. Um dos moleques disse que achou estranho porque o vidro era fumê, mas ele não viu quantas pessoas tinha dentro.
Acenei com a cabeça. Van branca, madrugada, menina deixada pra morrer… as peças começavam a se alinhar, mas ainda faltava muita coisa.
Voltei pro hospital à tarde. Ela continuava dormindo, o rosto menos pálido, mas ainda frágil. Fiquei de pé, olhando. E me peguei pensando em coisas que não costumo pensar. Quem cuida dela? Quem vai aparecer perguntando por ela? Ninguém. Porque se tivesse alguém, já teria dado notícia.
E isso só me deixava com mais raiva.
Naquela noite, sentei de novo na poltrona. O barulho de chuva voltava lá fora, batendo no telhado enferrujado do hospital. Fiquei escutando, o cigarro apagado entre os dedos só pelo vício de segurar.
Perto das duas da manhã, Guto apareceu no hospital, com o rosto fechado.
— Chacal… — Ele parou na porta do quarto, meio sem jeito.
— Tem certeza que quer ficar aqui? Isso não é sua função.
Olhei pra ele, frio.
— Desde quando eu preciso de função pra fazer o que eu quero?
Ele coçou a nuca.
— Só digo porque tá todo mundo comentando. Você não sai do lado dela.
— Que comentem. — Cruzei os braços.
— Ela caiu no meu colo, Guto. Isso não é acaso.
Ele não respondeu, mas ficou me olhando com aquela cara de quem sabe que não vai me convencer.
No dia seguinte, já estava de novo na boca, coordenando as buscas. A van branca era nossa prioridade. Dois moleques disseram ter visto descendo pela rua de trás, sentido avenida. Mandei rastrear todas as câmeras de comércio que funcionavam na rota. Não importa se a câmera é velha, borrada ou em preto e branco, sempre tem um detalhe que entrega.
— Quero essa placa até amanhã — ordenei.
— Tá na mão, primo — Guto garantiu.
Voltei pro hospital na mesma noite. Ela ainda não tinha acordado. Fiquei olhando. O cabelo dela estava solto, caindo pro lado, cobrindo parte do rosto. Cheguei perto, ajeitei devagar, sem encostar muito. Ela parecia tão pequena, tão frágil. E ao mesmo tempo, sobreviver do jeito que sobreviveu já mostrava que não era qualquer uma.
— Quem foi que fez isso com você, boneca? Porque eu vou descobrir. — murmurei.
Dona Marta entrou sem bater.
— Você fala com ela como se pudesse ouvir.
— Talvez ouça — respondi.
Ela cruzou os braços.
— Ela precisa de alguém quando acordar. Não pode estar sozinha.
Olhei firme.
— Não vai estar.
Dona Marta me encarou, avaliando. Depois, só balançou a cabeça.
Os dias foram passando nesse ciclo. Boca, investigação, hospital. E toda vez que entrava naquele quarto, era como se o resto do mundo silenciasse. Não era só vigiar uma sobrevivente. Era vigiar um recado que o destino jogou na minha frente.
Uma noite, depois de mais um dia de busca frustrada, sentei na poltrona e fiquei encarando o teto. Pensei no meu pai, que sempre dizia: “Chacal não corre atrás da presa por acaso. Ele fareja, ele escolhe, ele vai até o fim.” E eu entendi porque aquele vulgo sempre me serviu. Era exatamente isso que eu ia fazer.
No quarto, o monitor cardíaco dela apitava baixo, marcando os segundos. A respiração lenta preenchia o silêncio. Eu não sabia quando ela ia acordar. Mas sabia de uma coisa: quando abrisse os olhos, ela não ia estar sozinha.
E quem tinha feito aquilo ia ter o nome riscado da lista da vida.