A casa dormia, mas eu não conseguia. Fazia tempo que o sono me parecia perigoso — era nele que tudo voltava: os gritos, as mãos, a rua, o sangue. Então, quando a madrugada caía, eu apenas ficava acordada, escutando o som distante dos cachorros e o barulho do vento batendo nas janelas. Naquela noite, o morro estava silencioso. Um silêncio que doía. Acabei indo até o quintal, onde a piscina refletia o céu nublado. Sentei na beira, deixei os pés tocarem a água fria e fechei os olhos. Aquela água me lembrava o mar — o mesmo que me engoliu dias atrás, quando tudo ficou escuro e eu achei que não ia acordar mais. Mas Guto apareceu. E agora eu estava ali, viva, tentando me lembrar de como era não sentir medo o tempo todo. Encolhi os joelhos e abracei as pernas. A roupa fina não segurava o frio

