O dia amanheceu pesado. O morro ainda carregava a ressaca da noite anterior — o ar úmido, cheiro de chuva, mas com um silêncio estranho que só quem vive aqui sabe reconhecer. Serena ainda dormia em casa, e eu sabia que não podia perturbá-la. A primeira coisa que fiz foi descer para a boca, ver pessoalmente o movimento e, principalmente, tentar puxar qualquer fio que nos levasse até quem deixou a menina naquele beco. Guto já estava lá quando cheguei, varrendo a entrada com olhos atentos, sempre procurando qualquer anormalidade. Ele percebeu meu olhar desde longe e se aproximou com o usual aceno discreto. — Chacal, tá tudo calmo, mas o pessoal comenta que o clima tá estranho — disse ele, ajeitando o boné. — Eu sei. Mas estranheza não é só sensação, Guto. Algo mexeu com a ordem quando lar

