A manha descia lenta sobre o Rio, tingindo o céu de tons alaranjados. O som distante das motos subindo o morro se misturava com o barulho dos rádios e conversas pelas vielas. Guto mantinha o olhar atento enquanto guiava a moto devagar, desviando de crianças que ainda brincavam na rua, mesmo depois do pôr do sol. Na garupa, Isadora se segurava firme, o rosto escondido no casaco largo que ele havia emprestado. O vento batia no cabelo desgrenhado dela, e cada curva era um sobressalto, um resquício de medo. Eles haviam se conhecido horas antes, num acaso estranho — o tipo de encontro que parecia destino disfarçado de coincidência. Guto ainda lembrava da expressão dela quando o dono do quiosque gritou “ladra!”, e da maneira como ela pediu desculpas, a voz trêmula, tentando se explicar entre

