Jane narrando
Eu ainda não estava acreditando.
Não era possível que, no meio do meu desfile, no meio do meu trabalho, no meio de um momento que era pra ser leve, bonito, profissional — o passado tivesse atravessado a passarela de salto alto, de terno caro e cara de psicopata.
Guilherme.
E, como se não bastasse, Letícia chamando por ele.
Aquilo me desmontou por dentro de um jeito que eu não esperava. Não era ciúme. Não tinha nada a ver com isso. Não senti nenhum aperto no peito por ver ele com outra. O que eu senti foi muito pior.
Era memória.
Era lembrar da escola. Da faculdade. Das vezes que eu chorava no banheiro enquanto Letícia, que era minha amiga — ou pelo menos eu achava que era — saía rindo com ele pelo corredor. Das vezes que eu fingia que não via. Das vezes que eu escolhia acreditar que era coisa da minha cabeça. Das vezes que eu perdoava sem ele pedir.
E agora… anos depois… ela ali.
Olhando pra ele. Olhando pra mim. Olhando pro homem tatuado que tava do meu lado.
E, no fundo do peito, eu só consegui pensar uma coisa:
"O que essa mulher deve estar passando na mão desse desgraçado há todos esses anos?"
Porque eu conheço ele. Eu sei do que ele é capaz. Eu senti na pele. E ver outra mulher no lugar que um dia foi meu — no lugar que eu ocupei por anos — me deu um nó no estômago. Não por ele. Por ela.
Quando ele saiu atrás dela, eu senti um alívio estranho. Como se o ar voltasse a circular. Como se o peso que eu nem sabia que tava carregando tivesse sido tirado das minhas costas.
Troquei duas palavras rápidas com o Vulcano no corredor.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, a voz baixa, os olhos fixos nos meus.
— Tá. — menti, com um sorriso que não enganava ninguém.
E entrei no camarim.
Assim que a porta fechou, minha cabeça começou a girar.
Literalmente.
Um giro completo. 360 graus.
Eu encostei na bancada de maquiagem, apoiei as duas mãos na madeira fria, fechei os olhos por um segundo e pensei:
"Era pra ser só um desfile. Era pra ser só um dia bom."
Mas eu sabia.
Não tinha como voltar pro Rio achando que só teria dias bons. Não tinha como pisar nessa cidade e esperar que o passado não viesse me cobrar. Foi aqui que aconteceram as maiores desgraças da minha vida. Foi aqui que eu me perdi. Foi aqui que eu deixei de ser quem eu era. Foi aqui que eu aprendi o que era medo de verdade.
E, ironicamente, foi aqui que eu tava tentando me reencontrar.
Fechei os olhos de novo.
E, como um flash, veio a lembrança do hotel antes do desfile.
O jeito que o Vulcano me olhava — como se eu fosse a única mulher no mundo. O jeito que ele me abraçava — como se quisesse me proteger de tudo. O jeito que ele me apertava contra ele — como se eu fosse pequena demais perto daquele peito enorme, daqueles braços grossos, daquela presença que ocupava todo o espaço.
Abri os olhos assustada quando ouvi a porta.
Ele entrou.
— Fecha a porta. — a voz dele saiu baixa, grossa, sem espaço pra negociação.
Eu nem questionei. Só obedeci. Meus pés se moveram antes do meu cérebro processar.
Ele mesmo girou a chave na fechadura. O clique seco ecoou no camarim pequeno.
Ficou parado me olhando. Os braços cruzados. A cara fechada. A respiração pesada.
E a voz dele entrou no meu ouvido como um sussurro que parecia vir de dentro de mim:
— Qual é a tua com aquele playboy arrombado?
Eu sorri de lado.
Porque eu sabia exatamente de quem ele tava falando. Não precisava dizer o nome. Não precisava descrever. A gente sabia.
— Não tem nada. — falei, a voz saindo mais calma do que eu me sentia. — Eu só queria desfilar e voltar pra casa. Não existe nada entre mim e o Guilherme. Ele é obcecado. Ele é obsessivo. Ele não aceita que acabou. Então já dá pra esperar.
Ele passou a mão no rosto, nervoso. A mandíbula travou. Os olhos não saíam dos meus.
— Não dá pra esperar, não. — ele falou, a voz rouca, grave. — A vontade que eu tô de beijar tua boca… de te jogar na minha cama… de entrar fundo em você…
O ar do camarim ficou pesado. Quente. Denso. Eu senti minha pele arrepiar antes mesmo dele se mexer.
Ele veio pra cima de mim e me beijou.
Sem pedir.
Sem avisar.
Sem espaço pra pensar.
A boca dele pressionou a minha com uma fome que eu já tinha sentido antes — no hotel, no quarto, no meu colo. Eu correspondi na mesma intensidade. As mãos dele foram abrindo espaço na bancada, empurrando maquiagem, bolsa, acessórios, potes de pó, pincéis — tudo pro lado sem nem olhar, sem nem se importar.
Eu senti minhas pernas falharem.
Ele me levantou com facilidade — como se eu não pesasse nada, como se eu fosse uma pluma — e me sentou ali na bancada. Minhas pernas automaticamente cruzaram ao redor da cintura dele.
Senti ele rígido contra mim. O calor do corpo dele através da roupa. A respiração dos dois descompassada. O coração batendo tão forte que eu sentia nas têmporas.
A porta tremeu.
— Jane? Tá tudo bem? — a voz da tia Helena do outro lado, preocupada, aguda.
Ele encostou a testa na minha. A respiração dele misturada com a minha. O suor na testa.
Eu respirei fundo. Tentei organizar a voz.
— Tô bem! — falei alto, com uma firmeza que eu não sabia que tinha. — Só quero ficar sozinha! Deixa a porta fechada!
— Vou pedir a chave reserva! — ouvi o Lucas dizer, a voz dele vindo de algum lugar atrás da tia Helena.
Eu olhei pro Vulcano, aflita. Meus olhos pedindo socorro.
Ele encostou a boca no meu ouvido. O hálito quente acertou minha pele.
— Muito bem… — ele sussurrou, a voz calma, controlada. — Muito bem…
E voltou a me beijar.
As mãos dele subiam pelas minhas costas, desciam pela minha cintura, apertavam minha coxa, minha b***a, me puxando cada vez mais perto. Eu puxei a camisa dele, abrindo os botões com pressa — um, dois, três — os dedos tremendo, o coração disparado.
Ele me beijava o pescoço, a boca, o queixo, a orelha — como se tivesse pressa e calma ao mesmo tempo. Como se quisesse devorar cada pedaço de mim, mas também quisesse saborear.
O mundo lá fora desapareceu.
Só existia aquele camarim.
Aquele calor.
Aquela respiração.
Ele começou a tirar o que eu estava vestindo — a lingerie que eu usei no desfile, o tecido fino, a renda — com urgência, mas sem brutalidade. Sem me machucar. Sem me assustar. Eu puxava a roupa dele, abrindo espaço, querendo sentir a pele dele na minha, o peito dele no meu peito, o coração dele contra o meu coração.
E, de repente, o telefone começou a tocar.
Alto.
Vibrando na mesa.
Insistente.
Ele ignorou.
Continuou.
A boca dele no meu pescoço, a mão dele na minha coxa, os dedos dele subindo devagar.
O telefone tocou de novo.
E, na mesma hora, a voz da mãe dele do lado de fora:
— Jane! Eu vou precisar ir! Parece que o morro tá sendo invadido!
Eu congelei.
O corpo inteiro travou.
— Como assim? — falei, olhando pra ele, os olhos arregalados.
Ele respirou fundo. Passou a mão no rosto. A testa franzida.
— Deve ser por isso que meu telefone tá tocando. — a voz dele saiu calma, mas eu senti a tensão por baixo.
Pegou o aparelho sem soltar a mão da minha coxa. Os dedos ainda apertando minha pele. Atendeu.
Do outro lado, gritos. Barulho que eu não sabia dizer se era fogos ou tiros. O rádio chiando. Vozes se misturando.
— Aguenta aí que eu tô indo! — ele falou, firme, direto.
Desligou.
Encostou a testa na minha. A gente ficou ali, respirando junto, por alguns segundos.
— Gostosa… — ele falou baixo, a voz arranhando. — Vai ficar pra depois. Eu preciso ir.
Eu ainda ofegante, o corpo quente, a boca molhada, falei baixo:
— Tá bom. Você sabe onde me achar.
Ele me deu um selinho rápido. Um toque de lábios. Uma promessa.
Saiu.
A porta fechou.
O silêncio voltou.
Eu fiquei alguns segundos parada, sentada na bancada, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. O peito subindo e descendo. A respiração ainda descompassada. O corpo ainda quente.
Peguei um roupão branco que tava pendurado atrás da porta. Vestir. Amarrei na cintura.
Arrumei a bancada — coloquei tudo no lugar, os potes de maquiagem, os pincéis, a bolsa, o celular. Respirei fundo. Passei a mão no cabelo. Tentei parecer normal.
Quando abri a porta, o Lucas entrou rápido. Os olhos percorrendo o camarim, a bancada, o roupão, meu rosto.
— Aconteceu alguma coisa aqui? — ele perguntou, a voz desconfiada.
Olhei pra ele. Respirei fundo. Engoli o nó que ainda teimava em ficar na garganta.
— Não… não aconteceu nada. — Respondi.
Continua...