CAPÍTULO 13 – SOMBRAS NA MANSÃO

1133 Words
Naya A mansão Torrance sempre foi silenciosa. Mas, com o tempo, começo a perceber que há tipos de silêncio diferentes. Tem o silêncio normal, de casa grande, onde cada som se perde na distância. E tem o silêncio que vem depois de cochichos interrompidos. Nos primeiros dias, eu estava ocupada demais tentando me adaptar… a rotina da minha mãe, os horários dos enfermeiros, as regras implícitas de uma casa rica. Agora, com certos medos ficando “habituais”, comecei a ouvir mais. Ouço quando duas funcionárias abaixam o tom de voz assim que eu entro na cozinha. Ouço quando Raul, o administrador, responde demais com “não se preocupe com isso, senhora”. Ouço o nome “senhor Afonso” surgir e sumir rápido demais nas conversas. Afonso nunca aparece. Eu sei que ele é meu marido no papel. Sei que, teoricamente, dorme na mesma casa que eu. Sei que, à noite, existe um homem que me toca como se me conhecesse. Mas, à luz do sol, Afonso é um fantasma que só existe no registro civil. Uma tarde, crio coragem e chamo a governanta, Dona Helena, na área de serviço. Ela é uma mulher na casa dos cinquenta, rosto cansado mas firme, que parece saber de tudo o que acontece ali. — Dona Helena… — começo, mexendo nervosa na barra da blusa. — Posso te perguntar uma coisa? Ela me olha com aqueles olhos que já viram muita coisa. — Claro, senhora Naya. — O senhor Afonso… — sinto o nome pesar na boca — viaja muito? Ela hesita. Justo ela, que responde tudo tão rápido. — O senhor Afonso… — escolhe as palavras como quem anda em chão rachado — trabalha demais. “Trabalha demais”. Não é uma resposta. É um desvio. Forço um sorriso, mas por dentro algo se contrai. — Entendi. — minto. — Obrigada. Ela se apressa em mudar de assunto, perguntando se desejo algo específico no jantar, se minha mãe precisa de algo. Eu respondo mecanicamente, mas metade de mim ficou presa naquela frase. Trabalha demais. Se ele trabalha demais, por que se casou? Se vive para a empresa, por que precisava de uma esposa? Volto para o quarto da minha mãe ainda remoendo isso. Ela dorme, respirando bem, o rosto sereno apesar de tudo. Sento na cadeira ao lado da cama e começo a falar sozinha, num desabafo que sei que ela não pode responder por estar dormindo. — Às vezes eu acho que casei com um cargo, mãe. — Seguro a mão dela, morna, frágil. — De dia eu sou a senhora Torrance, esposa formal de um homem que não existe aqui dentro. De noite… Engulo em seco. — De noite eu só sirvo pra aquecer a cama de um homem que vive para a empresa — sussurro, sentindo a culpa e o desejo se misturarem. — E o pior é que, quando ele chega… eu não consigo recuar. Fecho os olhos. Eu gostaria de dizer que sou mais forte, que consigo mandar ele embora, que tenho controle. Mas a verdade é outra. À noite, tudo que eu faço é esperar. Naquela madrugada, o costume se repete. Coloco a venda antes mesmo de ouvir os passos. O quarto escurece por completo. Meu corpo já aprendeu esse ritual e reage antes da porta se abrir. Quando a maçaneta gira, meu coração já está disparado. Ele entra em silêncio, como sempre. O perfume amadeirado invade o ar, e, por um instante, todo o resto da casa deixa de existir. O colchão afunda sob o peso dele. Um segundo depois, sinto a mão tocar minha cintura, me puxando pra perto. O beijo vem rápido, urgente, diferente das noites em que ele parece testar limites. Dessa vez, ele age como quem não tem tempo a perder. Eu deveria empurrá-lo. Deveria dizer que estou confusa, que preciso de respostas antes de continuar. Mas, quando a boca dele encaixa na minha, a teoria desaba. Minhas mãos sobem instintivamente, encontrando o rosto dele no escuro. Dessa vez, não fico só na nuca ou nos ombros. Meus dedos percorrem a linha da mandíbula, a barba aparada, o formato dos lábios. Seguro o rosto dele entre as mãos, firme, como se, pelo tato, eu pudesse arrancar a verdade que ele não me dá com palavras. O beijo desacelera um pouco. — Quem é você de verdade? — pergunto, com a voz embargada, sem tirar as mãos do rosto dele. Ele fica imóvel. Sinto o peito dele parar por um segundo, como se tivesse esquecido de respirar. — Por que me deixa no escuro? — continuo, antes que a coragem vá embora. — Pelo meu toque, sinto que não tem motivo pra se envergonhar da sua aparência, então… por que, Afonso? O nome dele sai como um teste. Ele não responde. Por longos segundos, o quarto inteiro parece conter o ar junto com a gente. Minha mente dispara mil cenários. Será que ele tem alguma cicatriz? Um segredo de saúde? Alguma fobia estranha? Ou é algo muito pior do que isso? Finalmente, ele afasta o rosto alguns centímetros. Ainda sinto o calor da respiração dele na minha boca. — Sou o homem que está aqui — ele diz, enfim. A voz não está mais tão firme. — Isso basta, Naya. “Sou o homem que está aqui.” Não é uma resposta. É uma barreira. Minha vontade é insistir. Gritar, arrancar a venda, acender a luz, forçar a verdade a aparecer. Mas, ao mesmo tempo, alguma coisa dentro de mim recua. Porque, seja o que for… eu já estou envolvida demais. Se eu puxar esse fio agora, talvez tudo desabe: a casa, o contrato, a segurança da minha mãe, o pouco de chão emocional que ainda tenho. Minhas mãos escorregam do rosto dele para o peito. Sinto o coração batendo rápido, tão confuso quanto o meu. Eu poderia dizer que não basta. Mas o que sai, em vez disso, é um suspiro cansado. Ele me puxa de volta para o beijo, mais suave agora, como se quisesse apagar a pergunta com a boca. E eu deixo. Não porque a dúvida sumiu. Mas porque, por alguns minutos, é mais fácil me perder no calor dos braços dele do que encarar as sombras da mansão, os cochichos dos funcionários, o vazio do lugar que deveria ser ocupado por um marido de verdade. Quando, mais tarde, adormeço colada ao peito dele, sei que não estou mais lutando contra o sentimento. Estou lutando contra a verdade. E, lá no fundo, começo a aceitar uma coisa que ainda não sei nomear. Talvez eu não queira, de verdade, a resposta. Porque, seja qual for, vai doer. E, mesmo assim, o lugar ao lado dele, no escuro, já parece mais meu do que qualquer outro canto dessa casa.
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