CAPÍTULO 12 – A PRIMEIRA DISCUSSÃO

1583 Words
Enrico Eu não planejei isso. Não planejei erro, nem desejo, muito menos sentimento. Planejei um contrato, um controle, uma solução fria para o desastre que meu filho se tornou. Mas Naya não é um contrato. Ela entra na minha rotina devagar, por detalhes. Primeiro, no silêncio dos corredores. Depois, no som da voz baixa agradecendo a um empregado por algo simples. Depois, no jeito como se inclina sobre a cadeira da mãe para ajeitar um travesseiro. E, por último, no jantar. Começo a perceber que espero aquela mesa longa deixar de ser apenas cenário. Espero o momento em que ela vai entrar, sempre um pouco desconfortável, segurando o guardanapo como se fosse um escudo. Passo a reparar em coisas que um homem que “não se envolve” não deveria reparar. Como ela segura os talheres com delicadeza exagerada, como se tivesse medo de quebrar alguma etiqueta invisível. Como prende o cabelo num coque apressado nos dias em que está mais cansada. Como às vezes perde o olhar na direção da janela, mesmo com o prato cheio à frente. É assim que começa o colapso, não com um grande gesto, mas com pequenas coisas, dia após dia. Eu sei que deveria recuar. Mas não recuo. Naquela noite, o jantar começa como sempre. Mesa posta, pratos alinhados, empregados treinados para sumir após servirem o que precisam. Sento na cabeceira por hábito, não por necessidade. Naya se senta no lugar de sempre, à minha direita, uma cadeira de distância. Ela está mais calada do que o normal. Não olha para mim, não comenta nada sobre o dia, não pergunta da empresa. Só corta a comida com movimentos rígidos, quase mecânicos. Algo está errado. — Sua mãe passou bem hoje? — pergunto, iniciando a conversa pelo ponto seguro. — Passou — ela responde, sem levantar os olhos. — O fisioterapeuta disse que ela reagiu bem ao exercício respiratório. — Ótimo. — Bebo um gole de vinho. — Se houver necessidade de equipamento extra, peça. — Já pediram — ela devolve. — E já foi atendido. Como sempre. Há uma ironia escondida na última frase que ela mesma parece não saber controlar. Levanto o olhar. — Há algo te incomodando, Naya? Ela ri. Um riso curto, sem graça, que não combina com o rosto. — É sério que o senhor está me perguntando isso? — Estou. Ela larga o garfo e a faca sobre o prato. O som do metal batendo na porcelana ecoa alto demais na sala. — Eu não sou um objeto — ela diz, de repente, com a voz embargada. — Afonso existe mesmo? Porque eu estou começando a questionar minha estabilidade mental. Fico em silêncio por um segundo. Eu sei exatamente do que ela está falando, mas ouvir assim, tão cru, me atinge de um jeito que não estou pronto para admitir. — Você tem tudo aqui — respondo, escolhendo instintivamente o caminho que conheço: o racional. — Quanto ao meu filho… ele é real. Ela solta um suspiro indignado, os olhos brilhando de algo que não é só raiva, é dor. — Eu tenho dinheiro — rebate. — Não tenho verdade. Os dedos dela tremem sobre a mesa. — Não sou um brinquedo pra ser usada à noite e descartada durante o dia — continua, a voz ficando mais alta. — Eu acordo sozinha, almoço sozinha, caminho por essa casa sozinha. E, quando o sol se põe, de repente eu viro importante. Só no escuro. Sinto o maxilar travar. — Naya… — Não — ela me corta, levantando-se de repente. — O senhor teve sua parte do acordo. Seu filho casado. Mas eu continuo aqui, sem saber quem é meu marido, sem saber se ele realmente respira o mesmo ar que eu durante o dia ou se eu inventei esse homem a noite na minha cabeça. Isso… não é normal. Quando ela se afasta da cadeira, levanto também. Dou dois passos e alcanço o braço dela antes que chegue à porta. Minha mão fecha em torno do pulso dela com firmeza. Sinto o corpo dela endurecer no mesmo instante. Ela vira o rosto, os olhos marejados, mas ainda em brasa. — Você queria segurança — digo, baixo. — Eu estou te dando. — Segurança não é viver no escuro! — ela explode. A frase fica ecoando entre nós. A sala parece menor de repente. Vejo a respiração dela acelerada, o peito subindo e descendo rápido demais, os ombros tensos. Ela não está apenas irritada. Está magoada. Largo o braço dela com cuidado. Não quero que ela associe minha mão a mais uma prisão. — Eu sei que você está confusa — tento. — Mas as coisas são mais complexas do que parecem. Ela ri de novo, sem humor. — Complexas pra quem, Enrico? — pergunta, finalmente usando meu nome sem hesitar. — Porque, pra mim, é simples… eu deito com um homem que diz ser meu marido e acordo sem saber nem se ele está no mesmo continente que eu. E, quando eu crio coragem de falar, o que recebo é “você tem tudo aqui”. Ela balança a cabeça, os olhos marejados. — Eu tenho tudo, menos a verdade. Vira as costas e sai antes que eu encontre qualquer resposta que preste. Fico parado no meio da sala, ouvindo os passos dela se afastarem pelo corredor. Os empregados fingem que não viram nada. A casa volta ao seu estado de neutralidade, mas dentro de mim nada volta. Ela tem razão. E é isso que mais incomoda. Horas depois, quando a noite já tomou conta dos vidros, fico diante da porta do quarto dela mais uma vez. Já perdi a conta de quantas vezes repeti esse caminho. Mas hoje é diferente. Hoje, não posso fingir que ela não sabe. Não tudo, mas sabe o suficiente pra se machucar. Entro sem fazer barulho. O quarto está escuro, mas agora consigo enxergar mais do que antes, porque aprendi o desenho desse espaço. Vejo a silhueta dela encolhida na cama, as costas viradas para a porta, o ombro tremendo discretamente. Ela chorou. Talvez ainda esteja chorando. Fecho a porta devagar. Dou alguns passos, paro ao lado da cama. Por alguns segundos, fico ali apenas olhando, mesmo que ela não veja. Eu deveria voltar. Deixar que ela durma. Respeitar o pedido que ela não fez, mas que está escrito na forma como se encolhe. Mas saber que eu sou o motivo das lágrimas dela e, ainda assim, ir embora… é mais do que eu aguento. Sento na beira do colchão. Ela se encolhe ainda mais. — Naya — chamo, a voz mais baixa, mais rouca do que nunca. Ela não responde. — Você quer que eu pare? — pergunto, finalmente. A pergunta é mais ampla do que parece. Não é só sobre essa noite. É sobre todas as outras. Sobre nós dois. Sobre o que eu venho construindo na sombra, sem coragem de assumir na luz. Ela fica em silêncio. Consigo quase ouvir o conflito dentro dela. Demora. Talvez vinte segundos. Talvez dois minutos. Pra mim, parece uma eternidade. Quando a resposta vem, não é firme, nem grandiosa. — Não — ela sussurra. Só isso. Mas é o bastante pra quebrar o resto da resistência que ainda existia em mim. Não a toco imediatamente. Fico ali, sentado, sentindo o peso dessa pequena palavra invadir tudo. Eu poderia usar isso como desculpa, como permissão, como licença pra continuar fingindo que o que temos é apenas físico. Mas ela chorou por minha causa. E o que acontece aqui não é mais só corpo. Me inclino devagar. Encosto a mão nas costas dela, sobre o tecido fino do pijama. — Vem cá — digo, a voz quase falhando. Ela hesita um segundo, depois se vira devagar, procurando meu calor no escuro como alguém que conhece o caminho mesmo sem enxergar. Quando finalmente se encaixa nos meus braços, não parece uma cena de desejo. Parece uma cena de sobrevivência. Ela se agarra a mim, o rosto escondido no meu peito, respirando fundo como se tentasse se acalmar. Minhas mãos sobem e descem pelas costas dela, num gesto simples, quase automático, que nunca usei com ninguém desde minha falecida esposa. Não há pressa. O que existe ali, naquele primeiro contato, é necessidade emocional pura. O medo de ficar sozinha. O medo de eu ir embora. O meu próprio medo de perder o pouco de humanidade que ainda resta, se fingir que não sinto nada. Depois, o beijo vem. Depois, os corpos se procuram, como sempre fazem. Mas até nisso tem algo diferente. Não há jogo, não há provocação. Não estou tentando provar nada, não estou cobrando nada. Estou apenas segurando uma mulher que está tão perdida quanto eu. Quando, mais tarde, ela adormece, continua agarrada à mim, como se, mesmo inconsciente, tivesse medo de eu desaparecer. Eu não durmo. Fico ali, acordado, olhando pro teto que não enxergo totalmente, ouvindo o som da respiração dela se estabilizar. Passo os dedos de leve pelos cabelos dela, afastando uma mecha do rosto. É nesse silêncio que a verdade se impõe, sem pedir licença. Eu não estou apenas envolvido. Não estou apenas obcecado. Não estou apenas apaixonado. Eu amo Naya. Amo de um jeito que nunca planejei, que não cabe em contratos, que não respeita sobrenomes, que não se importa com o fato de eu ser o pai do homem que, no papel, é marido dela. E, pela primeira vez, o peso desse amor é maior do que o medo da consequência.
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