Naya
A rotina na mansão Torrance é feita de extremos.
De manhã, o sol entra pelas janelas enormes, os enfermeiros circulam, os funcionários mantêm tudo funcionando, e eu visto o papel de esposa de um homem que não vejo. À noite, o mundo encolhe para o tamanho do meu quarto, de uma cama e de duas mãos que conhecem cada linha do meu corpo.
Não é normal. Mas, aos poucos, meu corpo começa a chamar isso de rotina.
Durante o dia, eu ando pelos corredores, acompanho a fisioterapia da minha mãe, tomo café na varanda, leio na biblioteca, janto sentada algumas cadeiras abaixo de Enrico. Falo pouco, observo muito.
Sou, oficialmente, uma esposa. Na prática, sou uma presença discreta numa casa que já existia antes de mim e continuaria existindo sem a minha assinatura.
Durante a noite, é diferente.
Durante a noite, eu não sou discreta. Sou puxada, segurada, beijada. Sou chamada pelo meu nome na escuridão, com uma voz que reconheço mais pelo que me faz sentir do que pelo som em si.
Ele me conhece melhor do que eu mesma. Sabe onde tocar quando quero negar. Sabe quando meu silêncio é medo ou desejo. Sabe quando deve ir devagar e quando eu não aguento mais esperar.
E, justamente por isso, algumas coisas começaram a incomodar. Se ele é Afonso, por que tudo contradiz o que me contaram sobre ele?
Na terceira semana, começo a perceber os detalhes com mais clareza. O toque dele é experiente demais. Seguro demais.
Não tem nada de garoto impulsivo tentando provar algo. É o toque de um homem que sabe o que está fazendo. Que conhece o corpo de quem está com ele. Que presta atenção, que repara nas reações, que ajusta o próprio ritmo pra me levar junto, não pra me deixar para trás.
Um playboy irresponsável pode até ter experiência em quantidade. Mas ele tem algo diferente: qualidade. Controle.
Lembro das palavras de Enrico à mesa, falando de um filho que não sabe ser homem à luz do sol. Lembro dos relatos sobre festas, bebidas, apostas.
Nada disso combina com o cuidado que recebo todas as noites.
— “Talvez.” — penso — “Eu tenha julgado errado.”
Talvez o que disseram sobre ele seja exagero. Talvez, por trás da fama, exista um homem sensível, que só consegue ser ele mesmo no escuro. Quero acreditar nisso. É mais fácil do que encarar as dúvidas.
Naquela noite, não preciso lutar contra o medo. Já não tremo porque não sei o que vai acontecer. Tremo porque sei. Porque meu corpo aprendeu a reconhecer o som dos passos no corredor, o jeito como a maçaneta gira, o perfume que invade o quarto segundos antes de ele encostar na cama.
Sento na beira do colchão, a venda já no lugar. As mãos pousadas sobre as pernas, apertando o tecido da camisola. Quando a porta se abre, meu coração já está acelerado.
Ele entra sem falar, como sempre. O colchão afunda ao meu lado. Sinto o calor dele se aproximar, aquele campo magnético que parece encher o quarto inteiro.
— Você sempre me espera acordada — ele observa, a voz baixa.
Um sorriso pequeno escapa antes da resposta.
— Talvez eu tenha começado a gostar da escuridão ao te esperar.
Ele solta um riso baixo, quase um sopro contra minha pele. Esse som arrepia até a raiz do meu cabelo.
Em seguida, o beijo vem. Não é apressado. Não é daqueles que chegam como um ataque. Ele me puxa pela cintura, aproxima meu corpo do dele, posiciona minha boca sob a dele com uma calma que contrasta com a intensidade do que sinto.
Os dedos ao redor da minha cintura apertam um pouco mais. Não é dor, mas também não é neutro. É como se ele quisesse marcar, dizer sem palavras: aqui é meu lugar.
Sinto que não é apenas desejo. Tem algo de posse ali. De necessidade. Eu correspondo, porque já perdi a conta das vezes em que desejei esse mesmo beijo durante o dia, sem ter.
Os minutos seguintes são um misto de calor e respiração entrecortada. Ele me deita com cuidado, mapeia o caminho sobre a minha pele como se cada vez fosse a primeira, embora, na verdade, já seja quase um hábito. Minhas mãos encontram os ombros dele, depois o pescoço, depois a nuca.
Não preciso ver para saber onde segurar. Há um conforto estranho nessa familiaridade. Um conforto que não combina com o fato de eu não saber o rosto dele.
Quando, mais tarde, a urgência dá lugar a uma calma pesada, fico deitada sobre o peito dele, os ouvidos cheios do som do coração que bate forte demais pra um homem que diz que isso é bom.
Minha mão desenha círculos lentos no peito dele, sobre a pele quente. Ele não fala. Eu, pela primeira vez naquela noite, falo o que realmente me incomoda.
— Posso perguntar uma coisa?
— Já está perguntando — ele responde, com um leve humor cansado na voz.
Respiro fundo.
— Por que você não fala comigo durante o dia? — solto de uma vez. — Por que não aparece pra mim? Não é legal me largar sozinha com o seu pai.
O silêncio que se segue é diferente de todos os outros que já dividimos. Não é um silêncio confortável. É um silêncio pesado.
Sinto o peito dele ficar mais rígido sob minha bochecha. A mão, que antes acariciava minhas costas sem pensar, para no meio do caminho.
Por alguns segundos, tenho vontade de engolir as palavras, dizer que era brincadeira. Mas já foi. Finalmente, ele respira fundo.
— Porque durante o dia eu preciso lembrar quem eu sou — responde, cada palavra carregando um peso que eu não sei medir.
Franzo a testa, mesmo coberta pela venda. Ele continua:
— Eu sei que não é… certo. — A pausa é longa. — Só me dê um tempo.
Alguma coisa quebra dentro de mim. Não é um estalo escandaloso. É mais como um fio fininho arrebentando em silêncio.
— “Só me dê um tempo.”
Não é assim que alguém fala quando está decidido.
É assim que alguém fala quando está cansado. Cansado de quê? De quem? Eu abro a boca pra perguntar, mas desisto. Já invadi demais por uma noite.
— Tudo bem — minto, baixinho.
Ele me abraça um pouco mais forte, como se estivesse tentando segurar pedaços de algo que sabe que não consegue sustentar por muito tempo.
Adormeço com aquela frase ecoando pela cabeça, se misturando com outras: contrato, casamento, segredo, inevitável.
No dia seguinte, o céu está limpo. Decido sair para o jardim depois do café. Minha mãe está dormindo, os enfermeiros garantem que está tudo sob controle, e eu preciso respirar ar de verdade, não só o ar condicionado da mansão.
O jardim é bonito demais pra ser real. O gramado parece cortado com régua. As flores estão em fileiras perfeitas, coloridas sem exagero. Há um banco de pedra sob uma árvore grande, onde a sombra cai do jeito exato para proteger, sem escurecer tudo.
Eu sento ali. Fecho os olhos por alguns segundos, deixo o vento bater no rosto. Por alguns minutos, quase esqueço onde estou.
— Naya.
Abro os olhos. Enrico está parado a alguns passos de distância, mãos nos bolsos, sem terno, apenas camisa social clara e calça escura. A luz do sol bate no cabelo dele, destacando alguns fios grisalhos.
— Senhor… — paro, me corrijo. — Enrico.
Ele se aproxima devagar, como alguém que não quer assustar um animal ferido.
— Você parece… diferente — comenta, estudando meu rosto com atenção demais.
— Diferente como? — pergunto, mesmo sabendo que também sinto isso.
Ele inclina a cabeça, estreita levemente os olhos.
— Não sei explicar. — Uma pausa. — Talvez mais… viva.
Quase rio. Se ele soubesse o motivo… olho para o jardim, respiro fundo.
— Talvez eu esteja me acostumando — digo, por fim.
— A quê? — a pergunta vem rápida, direta.
Poderia dizer que estou me acostumando com a casa, com o dinheiro, com a presença dele nos jantares. Mas não digo. Levanto o olhar até encontrar o dele. Sustento, mesmo com o coração batendo rápido demais.
— A ser desejada.
O ar muda. É quase palpável o jeito como o ambiente pesa de repente. O vento continua soprando, os pássaros continuam cantando em algum lugar, mas entre nós dois o tempo parece ter parado.
Enrico não responde de imediato. Os olhos escuros dele pousam na minha boca por um segundo, depois voltam aos meus olhos. O maxilar contrai, solta.
Não há sorriso, não há crítica, não há ironia. Há algo mais denso ali. Talvez seja reconhecimento. Talvez seja culpa. Talvez seja o mesmo desejo que eu finjo não ver, mas sinto, sempre que ele entra em uma sala e o ar parece ficar mais espesso.
Eu desvio o olhar primeiro. Pego uma flor que caiu no banco ao meu lado e começo a girá-la entre os dedos, só pra ter algo com o que ocupar as mãos.
Entre o homem que me beija à noite e o homem que me encara de dia, uma coisa fica cada vez mais clara.
O que existe entre nós não deveria existir. Mas existe. E está crescendo nos espaços onde, teoricamente, só caberia o contrato.