Naya
O homem da noite e o homem do dia não cabem na mesma pessoa. É essa sensação que começa a me levantar suspeitas, mesmo que eu ainda não consiga admitir isso em voz alta.
Os dias na mansão passam num ritmo estranho. Tudo é quieto, organizado, quase clínico. Enfermeiros entram e saem do quarto da minha mãe, os funcionários se movem como sombras educadas, fazendo o que precisam sem incomodar.
Enrico aparece sempre no horário.
No café da manhã, às vezes. Quase sempre no jantar. A presença dele é constante e, ao mesmo tempo, distante. Ele está lá, senta à cabeceira, come devagar, faz perguntas pontuais sobre a saúde da minha mãe, sobre se falta algo para mim. Mas mantém um espaço invisível entre nós.
O homem da noite… não.
O homem da noite encosta em mim como se o mundo fosse desabar se ele não fizesse isso. Segura minha cintura, sussurra no meu ouvido, me beija como se tivesse pressa e calma ao mesmo tempo.
Uma noite, depois de um desses momentos em que o corpo fala mais alto que qualquer pensamento, ele encosta a boca no meu pescoço e sussurra, com a voz rouca demais pra eu esquecer:
— Eu poderia destruir o mundo por você.
A frase queima na minha pele. Eu deveria levar aquilo como exagero, como algo dito no calor do momento. Mas não levo. Fica latejando dentro de mim.
Durante o dia, no entanto, o mundo parece intacto demais.
No jantar, Enrico está como sempre: impecável. Terno escuro, gravata perfeitamente alinhada, cabelo arrumado, nenhuma emoção escorrendo do rosto que ele não permita.
Eu empurro a comida no prato, sem muito apetite.
— A comida não está boa? — ele pergunta, sem dureza, apenas observando.
— Está sim — respondo, rápida. — Eu que… não estou com tanta fome hoje.
Ele assente, como se entendesse mais do que eu digo.
As conversas entre nós viraram um território neutro. Falamos da minha mãe, da fisioterapia, dos ajustes que os enfermeiros sugerem. Às vezes ele comenta algo sobre a empresa, sempre de forma genérica, sem detalhes.
Mas os silêncios… os silêncios dizem muito mais.
Tem horas em que sinto o olhar dele sobre mim enquanto bebo água, corto um pedaço de carne ou mexo no guardanapo. Quando levanto os olhos, ele já desviou, focado no prato ou em algum ponto do nada.
Eu também evito.
Depois do beijo na biblioteca, passei a desviar de corredores que sei que ele usa, a ficar mais tempo no quarto da minha mãe, a me esconder atrás de tarefas pequenas só pra não enfrentá-lo sozinha em algum lugar estreito.
Mesmo assim, o jantar é inevitável. É o único contato diário que tenho com o meu sogro. E, cada vez mais, parece pouco. Ou parece perigoso. Não sei bem.
O homem do dia é distância.
O homem da noite é fogo.
E meu corpo está preso entre os dois.
Naquela madrugada, o quarto está mais quente que o normal. Talvez seja coisa da minha cabeça, ou talvez seja o peso do que sinto.
Estou deitada, ofegante, o coração ainda acelerado. Ele está ao meu lado, um braço pesado envolvendo minha cintura, me puxando mais pra perto.
A venda continua sobre meus olhos, fiel companheira, mas eu já decorei o caminho do corpo dele pelo toque. Sei onde encaixo o rosto, onde o peito dele sobe e desce mais rápido, onde o coração parece bater com mais força.
Dessa vez, ele não sai logo em seguida. Fica ali, respirando perto da minha orelha, a mão abrindo e fechando devagar sobre minha barriga, como se quisesse ter certeza de que eu ainda estou ali.
O quarto cheira a nós dois. Eu poderia ficar assim por horas, mas uma pergunta começa a martelar tanto, que eu sei que se não falar, não vou conseguir dormir.
— Posso perguntar algo? — minha voz sai fraca, mas quebra o silêncio.
Ele demora um pouco para responder.
— Pode.
— Você… me ama?
O silêncio que vem depois parece maior do que o quarto. Por um segundo, acho que ele vai fingir que não ouviu. Ou vai rir. Ou vai se levantar e ir embora.
Sinto o corpo dele ficar mais tenso. A mão na minha cintura endurece, depois relaxa. Ele respira fundo, uma, duas vezes, como se brigasse consigo mesmo antes de abrir a boca.
— Eu nunca deveria… — ele começa, a voz baixa, pesada. Meu peito aperta. Ele continua: — Mas é inevitável.
As palavras caem dentro de mim como algo quente demais, queima de dentro pra fora. Não é uma declaração bonita. Não é um “eu te amo” claro, aberto, fácil. É uma confissão torta, quase arrancada à força. Mas, ainda assim, é a coisa mais sincera que já ouvi desde que cheguei nessa casa.
Nunca deveria.
Mas é inevitável.
Uma parte de mim se ilumina. Outra se encolhe, lembrando de todos os motivos pelos quais isso é errado, confuso, perigoso.
Não sei o que responder.
Em vez de palavras, o que sai é um suspiro pesado. Meu corpo relaxa contra o dele, como se, de alguma forma, aquela resposta tivesse sido exatamente o que eu precisava e o que eu temia ao mesmo tempo.
Ele me puxa um pouco mais pra perto. Sinto um beijo leve no topo da minha cabeça, tão rápido que eu quase duvido que aconteceu.
— Dorme, Naya — ele sussurra.
E, pela primeira vez, eu durmo com a sensação de estar… escolhida.
Quando abro os olhos, o quarto está claro. A venda está no chão, ao lado da cama. A outra metade do colchão está fria. Ele se foi antes do dia nascer, como sempre.
Viro para o lado e encaro o espaço vazio, o travesseiro que ainda tem traços do perfume dele, o lençol amassado. Tudo parece prova de que ele esteve ali. Mas, ao mesmo tempo, é como se eu tivesse sonhado.
Levo a mão ao peito. A frase dele ainda vibra dentro de mim.
— “Eu nunca deveria… mas é inevitável.”
Sinto algo apertar na garganta. Eu queria odiá-lo pelas metades. Metade presença, metade ausência. Metade luz, metade sombra. Metade homem, metade segredo.
Mas, em vez disso, o que sobe é outra coisa. As lágrimas chegam antes que eu consiga impedir. Caem silenciosas, uma depois da outra, molhando o travesseiro.
Não é só por ele. É por mim.
Porque, pela primeira vez, eu desejo algo tão simples e tão grande que parece quase ridículo de dizer em voz alta. Eu queria acordar ao lado do meu marido.
Não do homem da noite. Não do desconhecido. Não do fantasma que entra e sai como se eu fosse uma estação.
— Afonso… — sussurro o nome, testando como ele soa na minha boca.
É estranho. Distante. Quase como se eu estivesse falando de um personagem e não de alguém real. Mas, no papel, é ele. No meu corpo.
Choro baixinho, sem soluços escandalosos, só aquele tipo de choro cansado, de quem já segurou demais. Não choro pelo contrato, pela casa, pelo dinheiro. Choro pela falta.
Pela vontade absurda de viver, pelo menos uma vez, algo normal. Uma manhã qualquer, com alguém ao meu lado, sorrindo torto, reclamando de sono, me puxando de volta pra cama.
Aqui, tenho tudo. E, ao mesmo tempo, não tenho nada do que realmente importa. Seco as lágrimas com as costas da mão.
Depois de alguns minutos, levanto. Vou até o banheiro, lavo o rosto, olho meu reflexo no espelho. Me vejo mais pálida, com os olhos vermelhos, mas algo mudou ali também.