Naya
A biblioteca da mansão é o tipo de lugar em que eu nunca imaginei colocar os pés. Estantes que vão quase até o teto, cheias de livros alinhados em cores e tamanhos diferentes, uma escada de correr, tapete grosso abafando os passos, poltronas de couro que cheiram a coisa antiga e cara.
Eu escolhi justamente esse lugar para fugir dos meus próprios pensamentos. Mas eles me seguiram até aqui.
Um livro grosso está aberto no meu colo. Contratos matrimoniais, regimes de bens, deveres e direitos. Tento acompanhar as palavras, mas a cabeça insiste em voltar para outro tipo de “contrato”, o que fiz no escuro, deitada numa cama que ainda me parece maior que a minha própria vida.
Eu me pergunto, pela milésima vez, quem é o homem que me visita todas as noites. Sei que, no papel, é Afonso. Sei que, no cartório, é ele. Mas… o cheiro não combina com as histórias que eu ouvi sobre ele. Os funcionários cochicham e eu acabo ouvindo.
A postura, o toque, a calma… nada bate com a imagem de um herdeiro irresponsável que foge das próprias decisões. Viro mais uma página sem realmente ler.
— Está procurando uma saída? — uma voz masculina pergunta atrás de mim.
Meu coração dá um salto. Fecho o livro de leve e me viro. Enrico está encostado na lateral de uma estante, braços cruzados, camisa azul escuro dobrada até o antebraço, revelando os músculos discretos, mas presentes. Ele observa não o livro, mas a minha expressão.
— Eu… — pigarreio. — Estou tentando entender.
— Entender o quê? — Ele dá alguns passos à frente, entrando de vez na luz que entra pela janela.
Seguro mais forte o livro, como se fosse um escudo.
— O homem com quem me casei — respondo, por fim. — E o tipo de casamento que tenho.
Um canto da boca dele se ergue, sem humor.
— Os livros dizem o que deveria ser — comenta. — O que é, normalmente, é um pouco mais complicado.
Ele se aproxima mais. O suficiente para eu sentir, de novo, o perfume amadeirado que já virou um gatilho dentro de mim. Meu estômago se contrai.
— Está procurando uma saída? — repete, desta vez com um tom que parece meio teste, meio curiosidade.
— Não — respondo, rápida demais, quase defensiva. — Eu só… não gosto de ser completamente cega. Nem de dia.
Ele pára ao lado da poltrona onde estou sentada. A proximidade muda o ar. A biblioteca era um lugar seguro até alguns segundos atrás. Agora, sinto como se o espaço ficasse menor.
Pouso o livro na mesinha ao lado. Minhas mãos ficam livres, inquietas, sem saber onde ficar. Meu corpo inteiro parece consciente demais da presença dele.
— Você acha que ele me quer? — pergunto, antes que a coragem fuja.
A pergunta sai num quase sussurro. Eu não tinha planejado dizer isso em voz alta. Não para ele. Enrico me encara, sério. Os olhos escuros pousam no meu rosto como se buscassem alguma coisa.
— Quem? — ele provoca. — O homem com quem você se casou no papel e não te acompanha durante o dia… ou o homem que divide a cama com você todas as noites?
Sinto o rosto queimar.
— Eu… não sei separar — admito.
Ele dá mais um passo. Agora, está perto o bastante para eu precisar levantar o rosto pra olhá-lo. Sinto o calor que vem do corpo dele, o cheiro, o peso daquela presença.
Enrico levanta a mão. Por um segundo, acho que ele vai recuar. Mas não recua. Os dedos dele tocam meu queixo com delicadeza, como se estivesse testando meu limite.
Meu corpo inteiro repete um arrepio que já reconhece.
— Se ele não quiser… — diz, devagar, a voz baixa — alguém vai querer.
O ar some dos meus pulmões.
Eu sei o que ele está dizendo. Não é só uma frase jogada. É uma afirmação. Uma oferta que não está escrita em nenhum papel, mas está ali, clara, no modo como ele me segura, na forma como não desvia o olhar.
Eu deveria me afastar. Deveria levantar, sair da biblioteca, pedir desculpas e nunca mais entrar aqui sozinha. Mas não me afasto.
Fico presa naquele espaço pequeno entre a minha boca e a dele. Entre a dúvida e a certeza que começa a surgir. Maldita carência afetiva.
Quando o beijo acontece, é rápido. Mas não suave.
É proibido.
Enrico inclina o rosto e, de repente, a distância desaparece. Os lábios dele encostam nos meus num impulso que parece ao mesmo tempo contido e inevitável. Não há tempo para pensar, só para sentir.
O perfume, o calor, a firmeza da mão ainda no meu queixo. Meu corpo reage antes da mente gritar “não”. Meu peito aperta, um choque de reconhecimento atravessa de cima a baixo.
Por um segundo, respondo.
A boca se abre um pouco, o coração dispara, os sentidos confundem tudo: noite e dia, sogro e marido, certo e errado.
Então, o pensamento finalmente alcança o corpo. Eu me afasto, quase num sobressalto, levando a mão aos lábios.
— Isso… — minha voz sai trêmula. — Isso não deveria ter acontecido. É errado. Me perdoe, senhor Torrance.
Enrico fica onde está. Não tenta me puxar de volta, não avança. Ele apenas me olha, um pouco ofegante, o maxilar tenso.
— Tudo que é intenso costuma ser errado — ele diz, sem rodeios.
As palavras me atingem em cheio.
— Senhor Torrance…
— Enrico, Naya — ele corrige, firme.
Eu balanço a cabeça, tentando recuperar o fôlego e algum tipo de lógica.
— Tanto faz — respondo, nervosa, encarando o chão por um instante. — O que acabou de acontecer foi só uma confusão minha.
Ele franze o cenho, mínimo.
— Confusão?
Olho pra ele de novo, com o coração martelando no peito.
— O senhor e seu filho usam o mesmo perfume — começo, sentindo a vergonha subir pela garganta. — E têm quase o mesmo timbre de voz. A diferença é que a voz dele é mais… rouca e menos clara.
Digo “ele” e não sei mais de quem estou falando.
— Foi a droga do meu corpo desejando ele por perto de dia também — desabafo, num misto de raiva de mim mesma e desespero. — Isso não vai voltar a se repetir.
As palavras ficam suspensas no ar, cheias de contradição. Eu mesma não sei se acredito nelas completamente.
Enrico abaixa um pouco a cabeça, como se processasse cada sílaba. Quando volta a me encarar, os olhos dele parecem mais escuros.
— Está apaixonada pelo homem que a visita todas as noites… Naya? — ele pergunta, a voz baixa, mas cortante.
O mundo parece encolher em volta de mim.
Apaixonada.
A palavra me acerta como um tapa. Eu não sei o que sinto. Só sei que espero a noite chegar, que conto as horas, que o corpo responde antes de qualquer análise. Não é amor… mas também já não é só necessidade.
Não respondo.
Se eu negar, vai soar falso.
Se eu admitir, tudo desaba de vez.
Em vez disso, aperto os lábios e me levanto quase de súbito.
— Eu preciso ver minha mãe — digo, sem olhar diretamente pra ele.
Saio da biblioteca praticamente correndo. Sinto o olhar dele nas minhas costas até atravessar a porta.
A cada passo pelos corredores, o beijo se repete na minha mente, misturado com as noites no escuro. Tudo se mistura, me deixando tonta.
Abro a porta do quarto da minha mãe com um pouco de pressa. O cheiro de remédio e talco me acalma de um jeito estranho.
Ela está deitada, os olhos voltados para a janela. Quando me vê, tenta sorrir.
— Oi, mãe… — digo, forçando um sorriso de volta.
Aproximo-me da cama, ajeito o lençol, arrumo uma mecha de cabelo dela, beijo sua testa. É como se, ao fazer essas coisas, eu tentasse lembrar quem eu sou, o que vim fazer aqui, por que aceitei esse casamento.
Fico ali o resto do dia.
Conto histórias leves. Falo do jardim, dos enfermeiros, da comida. Omito a parte em que beijei, à luz do dia, o homem errado, meu sogro. Ou o único homem que parece real nessa casa.
Segura na mão dela, sinto que o mundo lá fora é um pouco mais bonito. Mas, dentro de mim, tudo continua gritando, a voz dele, o perfume, a pergunta que eu não respondi, o beijo que “não deveria ter acontecido”.
E a certeza cada vez maior de que, quanto mais eu tento organizar o que sinto, mais essa casa me empurra para o lado mais escuro da vida.