Enrico
Encontro a resposta de Juliana no fim da tarde, mas a verdade eu já sabia antes do telefone tocar.
— O rastreamento do cartão confirmou, senhor Torrance — ela diz do outro lado da linha. — Ele está fora do país.
Olho pela janela do meu escritório, os vidros devolvendo meu próprio reflexo misturado com a cidade lá embaixo.
— Destino? — pergunto, embora não faça tanta diferença.
— Amsterdã. Voo com dois amigos. Não há passagem de retorno marcada.
Amsterdã. Claro. Uma cidade inteira construída em torno do que Afonso acredita que a vida deveria ser: excesso, luzes, coisas fáceis.
Fecho os olhos por um segundo. Ele fugiu. Assinou um casamento que não leu, depois correu como se estivesse escapando de uma armadilha.
Talvez esteja.
— Obrigado, Juliana. — Minha voz sai controlada demais para o que sinto. — Mantenha o dossiê de movimentações atualizado, mas não tente contato.
— Entendido, senhor.
Desligo.
Fico sozinho com a certeza que vinha empurrando há anos, meu filho não foi feito para o peso que carrego. E, ainda assim, é o nome dele que ela leva.
Pego, sobre a mesa, a cópia do contrato de Naya. O sobrenome Torrance ao lado do dela parece uma mentira que eu mesmo inventei e decidi transformar em lei.
Desço os olhos pelas cláusulas. Ali está tudo: a casa, a pensão, o cuidado vitalício com a mãe, os termos de confidencialidade. Tudo friamente calculado.
Nada fala sobre o que realmente acontece quando a porta do quarto se fecha. Pouso o papel na mesa de novo.
Saio do escritório e caminho até o andar de baixo. Não tenho agenda nem motivo oficial, mas eu sei por que estou indo.
Do alto da escada, vejo Naya atravessando o corredor principal. Jeans simples, uma blusa clara, o cabelo preso numa linda trança única. Ela anda devagar, observando os quadros, como se ainda não tivesse certeza se pode tocar o ar dessa casa.
Ela parece frágil. Os ombros estreitos, o corpo magro, a mão segurando o corrimão com cuidado.
Mas há algo na forma como ela respira fundo antes de seguir adiante que denuncia outra coisa: ela não quebra fácil.
Frágil e forte ao mesmo tempo.
Encosto na balaustrada, sem anunciar minha presença de imediato. Fico apenas observando.
Naya pára perto de uma janela, olha para o jardim, cruza os braços como se sentisse frio. É uma mulher que perdeu tudo e, de repente, ganhou mais do que consegue processar.
E eu sou o homem que colocou essa coleira de ouro no pescoço dela. Deveria parar. Deveria admitir que o erro já foi longe demais, que essa casa comporta muitos tipos de pecado, mas não esse.
Penso em minha falecida esposa. Penso no rosto dela, na forma como me acusaria com o olhar, sem dizer nada.
Mas, quando Naya se vira um pouco de lado e vejo o cansaço no rosto, a preocupação que não some nem aqui, nem com tudo pago, algo dentro de mim se mexe.
Não é piedade.
Não é só desejo.
É algo mais perigoso, a vontade de ser, para ela, mais do que eu deveria ser.
Viro as costas e volto para o meu escritório. Passo o resto do dia entre reuniões e relatórios, mas a imagem dela andando pela casa me acompanha mesmo quando estou falando de números com diretores que nem sabem que, no andar de cima, a vida de alguém mudou por causa de uma assinatura minha.
À noite, caminho pelo corredor como quem sabe que vai cometer um crime. O chão de madeira não faz barulho sob meus passos, mas, dentro da minha cabeça, cada avanço ressoa como um aviso.
Você sabe o que está fazendo.
Sabe quem está lá dentro.
Sabe que não é seu lugar.
Eu sei. E, ainda assim, paro diante da porta. Minha mão toca a maçaneta.
Por um instante, lembro do rosto de Afonso, garoto ainda, correndo pela casa com os cabelos despenteados, pedindo que eu o visse, que eu estivesse presente. Lembro também do homem que ele se tornou: fútil, fugindo das próprias decisões.
Ele foi embora.
Ela ficou.
A linha já foi cruzada na primeira noite em que entrei aqui. Tudo que faço agora é continuar.
Abro a porta.
O quarto está escuro. Nenhum fiapo de luz escapa dessa vez. A única coisa que ouço é o som da respiração dela. Um pouco acelerada. Atenta à minha presença.
Fecho a porta atrás de mim.
O perfume da casa se mistura ao que passou a ser o meu sinal aqui dentro, o amadeirado que ela já reconhece.
Dou alguns passos em direção à cama. Meu peito está pesado de um jeito que não estava antes. Hoje, não é só desejo. É culpa, raiva, frustração. Tudo misturado.
Sento na beira do colchão.
— É você… — ela sussurra, com aquela voz que parece sempre pedir licença para existir.
— Sim.
A palavra sai mais rouca do que eu pretendia. Eu não deveria tocar nela. Mas quando estendo a mão e encontro o braço dela, quente, macio, o corpo reagindo ao meu toque, sei que não vou parar.
Ela se aproxima um pouco mais, como se buscasse o lugar exato onde minha presença fica mais clara.
Eu a beijo.
Desde o primeiro contato, sei que há algo diferente em mim hoje. O beijo não tem mais esse cuidado excessivo da primeira vez. Ainda não é brutal, mas vem carregado de uma fome que eu não fiz esforço para esconder.
Minha boca encontra a dela com urgência contida. Não é pressa de quem quer acabar logo, é a pressa de quem passou o dia inteiro lutando contra a própria vontade.
Ela percebe.
Os dedos dela, que antes se agarravam aos lençóis, dessa vez sobem até meu rosto. Tímidos no começo, depois mais seguros. Ela segura meu queixo, desliza os dedos pela linha da minha barba, como se tentasse reconhecer, pelo tato, o homem que não pode ver.
É a primeira vez que ela me toca assim. Por um segundo, fecho os olhos também, mesmo já estando no escuro.
— Por que você parece diferente hoje? — ela pergunta, baixinho, com os lábios ainda colados aos meus.
Respiro fundo. A pergunta entra numa parte de mim que faço questão de trancar. Poderia mentir. Dizer que estou cansado, que tive um dia difícil, que é normal.
Mas a verdade já corroeu tanto dentro de mim que mentir para ela agora parece pior do que o que já estou fazendo.
Encosto a testa na dela.
— Porque estou perdendo o controle — respondo, numa sinceridade que me surpreende.
Ela fica quieta por um segundo. Sinto os dedos dela ainda no meu rosto, leves, como se quisessem segurar mais do que a pele, segurar algo dentro de mim que está prestes a escapar.
— E isso é r**m? — ela pergunta, como se tivesse medo da resposta.
Penso em tudo que significa perder o controle sendo quem eu sou: Ceo, pai, viúvo. Homem que fez da disciplina a própria armadura.
— É perigoso — digo, enfim. — Mas, pela primeira vez… eu não me importo com as consequências.
As palavras saem e ficam suspensas entre nós, como uma confissão. Ela não sabe o peso delas. Não sabe de quem estou falando quando digo “consequências”. Não sabe que tem um homem, em outro país, que deveria estar no meu lugar.
Mas ela entende outra coisa.
Sinto quando o corpo dela relaxa um pouco debaixo das minhas mãos. Sinto quando a respiração dela muda, deixando de ser apenas nervosa para se tornar… entregue.
Ela me puxa de volta para o beijo, como se a resposta dela fosse essa.
Eu aceito.
Deixo que a culpa fique em segundo plano e deixo o desejo ocupar o lugar que venho tentando negar desde que a vi pela primeira vez naquela sala, com as mãos apertando o copo de água como se fosse um colete salva-vidas.
Desde então, tudo o que faço é me aproximar dela por caminhos tortos. No escuro, no silêncio, em pedaços.
Sei que não deveria. Mas, enquanto a boca dela busca a minha, enquanto as mãos dela seguram meu rosto como se eu fosse real demais para ser só um acordo, entendo que já não existe retorno digno para nenhum de nós dois.
A linha foi cruzada. A ausência de Afonso só deixou mais claro o que eu vinha fingindo não ver. Eu tomei, pra mim, o lugar que nunca foi meu. E, pior do que isso, não sinto vontade nenhuma de devolvê-lo.