CAPÍTULO 7 – O HOMEM DO DIA

2017 Words
Naya O cheiro de café fresco invade o ar antes mesmo de eu entrar na cozinha. A mansão é tão grande que o caminho até ali parece um pequeno labirinto, corredor, escadas, mais corredor. Ainda estou me acostumando com o som dos meus próprios passos ecoando sozinhos. Meu corpo dói de um jeito estranho. Não é uma dor r**m, mas é nova. Cada movimento me lembra da noite anterior. Da venda. Dos toques. Da voz baixa no escuro. Quando atravesso a porta, vejo Enrico sentado à cabeceira da mesa comprida, impecável como sempre. Camisa branca sem um único amasso, gravata escura perfeitamente alinhada, relógio caro no pulso. Um jornal e alguns relatórios espalhados à frente dele, como se o mundo estivesse sempre sob análise. Ele não parece ter saído de uma noite complicada. Parece ter acordado antes do sol, se organizado, dominado o dia. Eu paro por um segundo na porta, sem saber se devo falar ou esperar. — Bom dia, senhora Torrance — diz ele, sem erguer os olhos dos papéis. O coração dá um pulo. — Bom dia — respondo, me aproximando. Uma das empregadas, Sofia, aparece silenciosa ao meu lado, sorridente, e puxa uma cadeira um pouco abaixo da dele, na lateral. Sento devagar, tentando ignorar a sensação de estar deslocada naquela mesa enorme, onde caberiam pelo menos dez pessoas. É só nós dois. Enquanto ela serve o café, o cheiro sobe, familiar. Mas não é o cheiro que me faz engasgar. É outro. O perfume. O mesmo perfume da noite anterior. Amadeirado, discreto, sofisticado. Exatamente o que ainda está preso no travesseiro do meu quarto. Meu peito aperta. — Dormiu bem? — ele pergunta, com a naturalidade de quem fala sobre o tempo. Não levanta o olhar, continua lendo um relatório, como se a pergunta não tivesse peso nenhum. Engulo em seco. O café entra errado, quase desce para o lugar errado. — Eu… — dou uma leve tossida, tentando me recompor. — Sim. Sinto as bochechas queimarem. Ele vira uma página, como se nada tivesse acontecido. O silêncio que se instala entre nós não é vazio. Tem algo ali, suspenso no ar, me pressionando por dentro. Eu olho para o prato, para o pão, para qualquer lugar que não seja o rosto dele. Mas, ao mesmo tempo, é impossível não olhar. Lanço um olhar rápido. Ele continua concentrado no que lê, a testa levemente franzida, a mão segurando a caneta entre os dedos. O jeito como ele se porta é tão seguro, tão sólido, tão… diferente do homem que imaginei como sogro. Lembro da noite. Lembro do toque. Lembro da voz. Não faz sentido pai e filho serem tão iguais. E, ainda assim, uma parte de mim começa a ligar pontos que eu mesma tenho medo de montar. Respiro fundo. — Eu… queria falar sobre o meu marido — digo, quebrando o silêncio. Ele fecha o relatório com calma e finalmente ergue os olhos para mim. O olhar é direto, escuro, intenso. — Sim? Seguro a xícara com as duas mãos, mais por nervoso do que por necessidade. — Ele… esteve no quarto ontem. — A frase sai devagar. — Nós… Não consigo terminar, mas sei que ele entende. — Eu sei — responde, sem nem piscar. Um arrepio atravessa minhas costas. — Ele… foi gentil — acrescento, sem saber por que estou dizendo isso. Talvez eu queira que ele saiba que não fui machucada, que está tudo bem. Ou talvez eu queira ouvir a reação dele. Enrico reclina um pouco na cadeira. — Fico satisfeito em saber. Há alguma coisa na forma como ele fala que me faz sentir observada, mesmo no escuro que eu ainda carrego por dentro. — Depois… ele saiu antes do amanhecer — continuo. — Eu não o vi hoje cedo. Nem ontem, na chegada. Enrico fica em silêncio alguns segundos, estudando meu rosto. — Ele prefere manter distância durante o dia — diz, por fim. Franzo a testa. — Por quê? Ele segura a caneta, gira devagar entre os dedos, como se escolhesse as palavras com cuidado. — Porque ele não sabe ser homem à luz do sol. A resposta é tão direta que me pega desprevenida. — Como assim? — pergunto, confusa. — Afonso… — ele começa, e só de ouvir o nome sinto o estômago revirar de leve. É a primeira vez que alguém fala o nome do meu marido na minha frente depois dessa noite. — Ele é um homem… peculiar. Carrega vícios, inseguranças, uma vida inteira construída no escuro. Ele faz uma pausa, depois continua: — À noite, ele se sente mais livre. Durante o dia, se sente exposto demais. É assim há anos. Mordo o lábio, tentando entender. — Então… ele nunca vai me procurar enquanto o sol estiver alto? — pergunto, tentando não deixar a voz tremer. — Não posso dizer “nunca”. — Enrico apoia os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos. — Mas posso dizer que não é o ambiente em que ele sabe ser… ele mesmo. Fico olhando para o café, as palavras dele girando na minha cabeça. Peculiar. Não sabe ser homem à luz do sol. — Mas ele… — hesito, sinto meu rosto esquentar de novo. — Ele foi… muito diferente do que eu imaginei. — Diferente como? — Enrico pergunta, sem desviar os olhos de mim. Não sei se devo responder. Não sei se é apropriado falar desse tipo de coisa com o meu sogro. Mas, ao mesmo tempo, sinto que ele é a única pessoa que pode me explicar o homem com quem eu me deitei sem ver o rosto. Respiro fundo. — Eu achei que ele fosse ser… descuidado. Brusco. Mas ele foi… paciente. Enrico sustenta o olhar, e por um instante tenho a estranha impressão de que ele já sabe cada detalhe da noite. Ele se inclina um pouco mais. — Ele deixou claro que a noite que tiveram… o prendeu de um jeito que será difícil separar — diz, enfim. A frase cai entre nós como algo pesado. — Prendeu? — repito, sentindo o coração acelerar. — Sim. — Os olhos dele brilham de um jeito que eu não sei decifrar. — Alguns homens só entendem o que querem quando encostam de verdade na consequência das próprias escolhas. Fico em silêncio, tentando respirar normalmente. — "O prendeu de um jeito que será difícil separar." O que isso quer dizer, exatamente? Que ele vai voltar? Que ele me deseja? Ou que, na cabeça dele, eu virei uma espécie de corrente, de cadeia, de ponto sem retorno? — Entenda uma coisa, Naya — Enrico continua, usando meu nome pela primeira vez. — Essa casa é cheia de sombras. Algumas você vai conseguir atravessar. Outras, só vai aprender a respeitar. A forma como ele fala meu nome me causa um impacto estranho. É diferente de “senhora Torrance”. É mais próximo. Mais real. — E eu? — pergunto, surpresa comigo mesma pela coragem. — Sou o quê, aqui dentro? Ele não responde de imediato. Apenas me observa, como se buscasse algo além da pergunta. — Você é a mulher que aceitou carregar um sobrenome sem exigir nada em troca pra si, apenas pra quem ama — diz, enfim. — Isso a torna mais forte do que imagina. E, por isso mesmo, mais perigosa do que Afonso está pronto pra encarar. Sinto um nó na garganta. Não sei se é elogio, aviso ou ameaça. Talvez seja um pouco dos três. O resto do café da manhã segue com frases simples sobre horários, enfermeiros, compromissos. Mas, por trás de cada palavra, a frase dele continua ecoando na minha cabeça. — "A noite que tiveram… o prendeu de um jeito que será difícil separar." À noite, coloco a venda com menos hesitação. Meu corpo já reconhece o tecido, o gesto, o momento em que o quarto mergulha no escuro total. O coração ainda bate rápido, mas de um jeito diferente. Não é só medo agora. É expectativa. Ouço os passos no corredor. Cada batida do sapato no chão parece marcar uma contagem regressiva. Meu corpo responde antes da mente. A pele arrepia, a respiração se acelera. A porta se abre. O perfume invade o quarto, preenchendo todos os espaços vazios. Não há dúvida. É ele. Afonso está de volta. Dessa vez, ele não demora tanto pra se aproximar. O colchão afunda perto de mim, o calor do corpo dele é imediato. — Você voltou — sussurro, sem pensar. Sinto a ponta dos dedos dele roçar meu queixo, fazendo meu rosto virar na direção da voz. Sinto a mão grande deslizar pela minha coxa nua, subindo devagar até a curva da cintura. O toque é firme, quase urgente, como se ele tivesse passado o dia inteiro esperando por isso. — Isso entre nós, vai ser difícil separar — ele responde, rouco. — Você pensou em mim hoje? — a voz rouca roça meu ouvido. — Pensei — confesso, a voz tremendo de vergonha e desejo. O beijo vem mais rápido, mais intenso. Não há a mesma hesitação da primeira noite. É como se, agora que já cruzamos a linha, ele não estivesse disposto a voltar um passo. As mãos dele me encontram com mais certeza. Onde antes havia cuidado cauteloso, agora há familiaridade. Não é brutalidade, ele continua atento às minhas reações, mas é mais… possessivo. Como se quisesse marcar que esse espaço, essa cama, esse momento, pertencem aos dois. Eu me surpreendo com a forma como meu corpo responde. Já não estou tão perdida. Já reconheço o caminho das mãos, o ritmo da boca, o jeito que ele sussurra meu nome quando perde o controle por alguns segundos. Ele me vira de costas para ele com facilidade, me puxando contra o peito largo. O calor do corpo dele me envolve. A boca encontra meu pescoço, beijos abertos, dentes arranhando de leve a pele sensível. Eu arqueio, um gemido escapando sem permissão. As mãos dele descem, abrem minhas pernas com determinação. Dedos experientes encontram o ponto que já lateja, molhado só de antecipação. Ele esfrega devagar, depois mais rápido, circulando o ponto sensível até eu me contorcer contra ele. — Quero ouvir você — sussurra, mordendo o lóbulo da minha orelha. — Quero sentir você gøzar pra mim. Eu obedeço. O prazer sobe rápido, intenso. Gozø tremendo, apertando os dedos dele dentro de mim, gemendo alto. Ele não espera. Me posiciona de quatro, o paü já duro roçando minha entrada. Entra de uma vez só, fundo, me arrancando um grito abafado. O ritmo é mais rápido que na primeira vez, mais possessivo. Cada estocada me reivindica. As mãos dele apertam meus quadris, marcando a pele. — Eu sou seu… — ele rosna contra minhas costas, voz quebrada de t***o. — Completamente seu. As palavras me atravessam como fogo. Eu empurro contra ele, querendo mais, querendo tudo. Gozamøs juntos, ele se derramando quente dentro de mim, eu pulsando ao redor dele. Depois, ele me abraça forte, ainda dentro, respirando pesado no meu cabelo. No escuro, começo a desejar coisas que nunca me permiti desejar à luz do dia. Desejo que ele fique mais tempo. Desejo ouvir mais a voz dele. Desejo, por um instante, poder tirar a venda e ver o rosto que combina com essa presença tão intensa. Mas não faço nada disso. Não peço. Aceito as regras do jogo, mesmo sem entendê-lo por completo. Quando tudo termina, ele fica por alguns instantes comigo, respirando pesado, o peito subindo e descendo perto do meu. Sinto a mão dele apertar de leve minha cintura, como se não quisesse soltar. Depois, como na noite anterior, ele se afasta devagar. — Boa noite, Naya — ele diz, antes de se levantar. A forma como ele fala meu nome faz meu estômago virar. Os passos se afastam. A porta se fecha. Fico sozinha de novo. Deitada na escuridão, com a venda ainda cobrindo meus olhos, percebo uma verdade que me assusta… durante o dia, essa casa me oprime. Mas, à noite, com ele… eu começo a desejar a escuridão. A escuridão já não assusta. Ela me pertence.
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