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Os Raimundos

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Blurb

Uma estória instigante com personagens que têm o mesmo nome e que vão se sucedendo até um trágico e surpreendente final! Engraçado e trágico ao mesmo tempo, um retrato do ambiente urbano do nosso pais. Vale a pena ler!

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Os Raimundos
Raimundo rima com vagabundo Embora seja uma grande mentira Raimundo sempre trabalhou muito Construíra muito mais do que destruíra Mas foi traído por uma mulher traíra Uma xará de Raimundo  Linda de cara e bem v*******a! Terrorista social de fama cruel Destruidora de vidas e reputações Ficava com o espólio e não hesitava Enfiava a faca e ainda girava Contava nos dedos o bem que fazia O m*l que gerava, na calculadora Armava e logo fugia De segunda a segunda, roubava Corações, dinheiro e paz Já, Raimundo, entrou pelo cano Foi viajar, do país nem saiu  Levava na mala quilos de coca Feito de mula, assim se sentiu Saber o autor, ele bem que sabia Quanto a provar, nem sonhando podia Viu-se enredado em trama sutil Sua pena cumpriu e foi esquecido Uma vez esquecido, esqueceu-se da vida Viveu um papel no mundo do crime Bem sucedido, subiu escalões Do topo do morro, fazia justiça Quem era traidor, bem cedo morria Quem era leal, tudo auferia Mas o dia de acertar as contas estava chegando O paradeiro de Raimunda, ele foi rastreando Empregou homens, recursos e muita paciência Mais do que chegar, imperioso era registrar Todas as merdas da dita cuja, ele foi documentando  Seguiu pista, seguiu trilha, até o fim do mundo ele foi  Mesmo sendo bandido, ficou escandalizado  Era grande a lista que havia juntado A mulher não parava, apenas se “aperfeiçoava” Já estava rica e ainda aplicava Golpes sem fim no povo inocente Era senhor de idade que ficava sem aposentadoria Era moça jovem que tudo perdia A diversidade dos golpes também impressionava Um repertório sofisticado e bastante variado Até de finanças a bicha entendia Derivativo e mercado futuro pra ela era sopa Mas sua predileção, aquilo que tocava o coração Era mesmo o mercado imobiliário No criminoso mundo, Diba era Raimundo  E foi assim que Diba apareceu Foi de repente, em uma noite enevoada Ela parou o carro antes de abrir o portão Viu-se cercada, rezou para o diabo Mas nem precisou rezar muito Pois ele lá já estava De muitos outros acompanhado Em uma moto, sentado Fixamente olhando para ela  Um deles, com o fuzil, o vidro quase partiu:  “Abre!” Ela abriu e foi fuzilada: “Ele é o Diba, entendeu?! Grava bem a cara dele!” Ela obedeceu e seu coração se estarreceu Contemplar aquele rosto, foi grande o contragosto! No início, desprezo sentiu, ao depois, o medo pegou Viu os fuzis, sentiu a intimidação Mas não entendia nada ... Em sua vida solitária, de p*****a salafrária, Sentada em sua sala, sozinha, Raimunda pensava: "Como pode? O Raimundinho?! Não!" O nome Diba, já havia pesquisado Era pauleira, era tráfico pesado Mortes nas costas, tinha mais de mil Matava brincando, sem gatilho puxar  Criava guerras em seu mundo particular  Emergia forte, com sangue nas mãos  "Se Diba fosse Raimundo, eu não estaria morta Estaria agonizando, em pedaços, literalmente Mas estou aqui, tomando meu Martini, neste big casarão E isto é realidade, não ilusão! Agora ... o rosto dele, como era parecido! Parece tanto o b****a do meu ex marido!” Mas Raimunda tinha uma vida na flauta pra levar Deixou a pulga atrás da orelha e foi em frente  Voltou a "trabalhar" Já tinha vários casos, um deles, avançado  Um empresário rico, pai de família  Respeitável, embora extremamente influenciável Lá estava ele, bobo de paixão, comprando um apê pro seu mozão Raimunda falava ao corretor  Últimos detalhes acertando "Parabéns pela aquisição, a sua unidade é uma das mais belas!" "Eu que agradeço", disse ela "Eu agora preciso ir, mas antes um recado devo lhe dar" Assegurando-se da distração do acompanhante, sua boca na orelha dela encostou: "Raimundinho mandou lembranças" Ela, atônita, ar engoliu e boquiaberta ficou Ele observou-a atentamente, deleitando-se com a visão Após alguns segundos, saiu num galope Deixando sua ex cliente em verdadeiro estado de choque Raimunda sentiu um baque tremendo Livrou-se do amante e correu para casa Ansiava, e muito, por organizar seus pensamentos Mas, doce ilusão! Sobre a mesa, uma carta, uma intimação No Ministério Público agora era ré E agora, Raimunda? Não preciso nem dizer, o apê não foi vendido  E os negócios de Raimunda nunca mais chegaram a termo A bem da verdade, m*l começavam e já eram interrompidos Ora era  desmascarada de maneira vergonhosa, ora perdia o contato com a outra parte de forma misteriosa Raimunda estava em uma festa e se sentia levemente observada Zanzava pelo salão Sua vítima havia saído para buscar bebida e nunca que voltava Sua cabeça dava voltas enquanto escutava falas sem muita atenção Mas uma voz em volume dominava  Era o DJ Rocco, ele disse, ao final do que parecia ser um discurso longo: "Raimundinho mandou lembranças!" e pôs mais uma música Raimunda estremeceu e seu coração congelou Ziguezagueou pela festa e foi parar na saída Quando viu, estava ao lado do segurança "Esse DJ, Rocco, ele disse um negócio engraçado e sem sentido. Você ouviu?" "A senhora já pegou o seu recado hoje?" "Que recado?" "Raimundinho mandou lembranças" O homem tinha mais de dois metros  Era o dobro do tamanho dela Ela ficou parada, sem nada dizer Esperava um carro Dentro do carro e depois em casa Ela pôs-se a refletir Estaria ela ficando louca? Ou teria tudo aquilo sido um sonho? Envolvida ela mais e mais parecia Enredada em um mundo de Raimundo Sem saída, com ou sem ilusão Precisava espairecer Foi ao cinema Filme nacional Simples, mas engraçado Precisava esquecer Que nada dava certo Que Raimundo à espreita Menos longe que perto Divertiu-se de verdade Deu risadas à vontade Ficou até o The End E leu os créditos sem fim Saboreou cada um Até chegar no final: RML RML RML Essas três letras piscavam Como luzes de neon Saiu em disparada  Entrou em seu carro Agora, no cinema, a tela mostrava: RML Produções  Raimunda já quase sem grana Precisava se desfazer de mimos imobiliários Coisa normal, vendia imóveis e caixa fazia Foi acionar suas assessorias Que nada! De todas elas sempre ouvia: RML, RML, v***a! Raimunda agora não acreditava em mais nada Estava mesmo era pra lá de Passárgada E o pior de tudo: não era amiga do rei Nessas horas sombrias, o melhor que se faz É buscar o conforto dos verdadeiros amigos Raimunda tinha um tio mais que pai Confidente das falcatruas perdidas Corrigia o rumo dos negócios m*l feitos Verdadeiro guru de toda uma vida Ótimo para se pedir uma dica do m*l  Péssimo para indicar o caminho do bem Ela contou tudo que havia no imbróglio Tanto o presumidamente real Quanto o supostamente ilusório Ele, a cada fato contado, falsamente estupefato se fazia Raimunda, finalizando a falação, por pouco não se encosta no ombro do tiozão  Ele, frio como um iceberg, mudo como uma lápide, sacou de uma gaveta uma carta Apontou-a para ela como se fosse uma a**a  Raimunda começou a leitura e aos poucos foi percebendo O conteúdo da carta era como um projétil Rasgava a carne e ía doendo Dizia:  “ Espero que esta lhe encontre em perfeito estado de apodrecimento Tanto físico quanto moral Espero que todo o m*l que causou volte-lhe agora Em forma de puro sofrimento O que vim a me tornar Não me faz ter muito orgulho Mas a sua biografia Dá-me náuseas e engulho Ser jogado numa cela Sem ter nada feito errado Pela própria companheira Foi um ato desgraçado A frieza é calculista O agir é sorrateiro Crueldade, sem limites De um ego interesseiro Seu amor pela pecúnia Deve ser uma doença O d***o é o seu mandante E o dinheiro é a sua crença Tenho fé que se divirta Com a vida atual Igualmente ao que sentia Ao lesar o pessoal Imagine o desespero Dos sujeitos que roubou Quem não tinha quase nada Bem mais p***e ‘inda ficou E você com esse seu luxo, Esbanjando prepotência, Sinta agora o amargor  De uma grande decadência Não precisa nem tentar  Em buraco se esconder Seu caminho é rastreado Da manhã ao entardecer Sinto pena de sua alma Encerrada em puro mal Haverá de ser eterna a Penitência infernal E agora me despeço  Desejando-lhe o bem Bem sofrida a sua vida E a morte assim também RML Ass.: Diba " Era preciso limpar a alma  Após tanto amaldiçoamento Vestiu uma roupa bonita e foi à missa Calma, cheia de paramentos:  Colares, anéis e brincos  Mas nem se atreveu a confessar  Queria apenas comungar E receber o santo pão  O corpo do próprio Cristo E foi em frente, ávida por remissão  Boca aberta, já, caminhando O indulto, por antecipação, degustando Foi chegando perto, mas só a matéria Sua mente estava longe, etérea  Estava habituada à frase: "O corpo e o sangue de Cristo" Mas recebeu a hóstia e ouviu do padre: "Raimundo de Sousa Evaristo" Na saída, Raimunda pergunta: "Esse padre é novo aqui?" "Imagina, está aqui há mais de cinco!" "Cinco anos, meu Deus!' "Pensa num cara de confiança!" "Eu só queria compaixão!' "E conseguiu o quê?" Raimunda meneou a cabeça,  Sem responder Na praça em frente à igreja Contemplava suas irmãs árvores, pensando: "Elas estão presas Mas, ao menos, estão em paz E eu, se estivesse presa, Estaria em paz também?" Nesse momento, toca o telefone Era o advogado, Doutor Albertoni Amigo de vários amigos Mais confiável que o próprio umbigo Confidente de muita eficiência Ouvia tudo e não perdia um detalhe  Um verdadeiro suprassumo da santíssima paciência Ligara para avisar: Iria entrar com a defesa No MP, o processo avançava   E Raimunda mais e mais se encrencava "E essa defesa, doutor, ficou boa?" "Mas é claro, minha filha, eu trabalho! Ou você pensa que eu sou um cara à toa? Acalme seu coração, de um jeito ou de outro, resolveremos essa questão.", disse ele, rindo. Depois, mandou mensagem: "Fique tranquila, será a melhor réplica da minha vida!  Abraços, RML." - RML, RML, RML ... ..... - RML, chegamos, disse o motorista. - Onde? - Na RML Produções. A senhora entrou no táxi repetindo RML, RML, RML. Aí eu trouxe a senhora aqui. - Ah, entendi ... - Por quê, não era? - Eu estava delirando quando entrei no táxi, moço! - Mas eu vou entrar nesse prédio mesmo assim. - Poxa, agora eu que não entendi! - É, eu acabei de ter uma ideia maluca. - E vai pôr em prática? - Vou. - Eu não tenho nada a ver com isso, hein? - Fica tranquilo, moço, os taxistas nunca tem culpa de nada. Vocês só transportam os malucos de um lado para o outro da cidade. A culpa pelas maluquices é toda nossa!    Raimunda deslizou para fora do carro e o homem, rapidamente, guiou seu veículo para longe.    Raimunda chegou na recepção do prédio e anunciou a si mesma: -Oi, eu vim falar com o Raimundo. -Seu nome, por favor? -Raimunda.    - Só um momento. Alô, seu Raimundo, a Raimunda está aqui e quer falar com o senhor. Ok, perfeitamente.    - A senhora é irmã dele, né?    - Isso.    - Pode subir.     - Obrigada.    Raimundo Moraes de Lucena era um filho de fruticultor da Bahia que nunca havia demonstrado um pingo de vocação agrícola. Seu pai exportava frutas para o exterior, mas ele queria era exportar sua ideias para a tela do cinema. Queria ser grande, famoso e reconhecido internacionalmente, assim como as frutas de sua família.    Mas logo percebeu que, no mundo artístico, a realidade e o sonho não eram vizinhos de porta.    Resolveu investir na produção de vídeos publicitários com a ajuda de seu genitor. Usando do mesmo cuidado e detalhismo daquele, construiu um negócio que havia se tornado parceiro principal das maiores agências de publicidade do país. O prédio de dez andares onde havia começado sua empresa agora estava arrendado inteiramente para ele e pensava seriamente em comprá-lo.     Tinha também uma Raimunda em sua vida mas, diferentemente de Raimundo Evaristo, não era ex-esposa e sim irmã. Raimundo de Lucena era um cara extrovertido, capaz de se expressar e dizer o que queria e onde gostaria de chegar. Já sua irmã era o outro extremo nesse quesito. Guardava tudo para si como se fosse um tesouro. Nunca saíra da cidade natal nem para fazer um pouco de turismo. A bem da verdade, m*l se aventurava além dos limites da fazenda de seu pai em busca de diversão, estudos ou qualquer outro objetivo. Por essa razão, Raimundo ficou entusiasmado quando soube que ela havia decidido ir até a cidade grande com sua mãe para conhecer o negócio de seu irmão. Ficou esperando ansioso em sua sala pela chegada da irmã.    Os minutos se passavam e nada de sua mana aparecer. Ao invés disso, ouviu um burburinho do lado de fora e uma sequência interminável de passos apressados.    Alguns minutos antes, um homem na rua avistou uma pessoa se equilibrando sobre a mureta do terraço e foi até a recepção do térreo para avisar. A recepcionista, por sua vez, ligou diretamente para a secretária de Raimundo:    - Avisa o chefe da segurança, respondeu a secretária.    - Já avisei, ele já está subindo.    A secretária larga o telefone e sobe a escada que dá para o terraço, chega ao final e encontra a porta destrancada, abre-a mas não vê ninguém. Resolve andar um pouco e, ao contornar a casa de máquinas, enxerga alguém sobre o parapeito,  equilibrando-se e olhando para baixo, como se estivesse hesitando em se jogar.    Ela volta alguns passos para trás e se pergunta: "O que fazer?". Sente medo de precipitar algo que poderia ser evitado por alguém com maior poder de dissuasão do que ela. Retorna correndo para o andar e dá de cara com o pessoal de criação, que a vê transtornada:   - O que foi, Gláucia?    - Tem uma pessoa tentando se jogar do terraço!    - O quê?! Mentira! Disse Pedrão, o roteirista.    - Vai lá ver então! E eu acho que é a irmã do seu Raimundo.    A secretária saiu para dar a seu Raimundo o que ela acreditava ser uma péssima notícia.    Pedrão correu para o terraço juntamente com Soraia, a figurinista e Marlon, o diretor de fotografia. A conversa transcorria cheia de chavões e lugares comuns: - A vida é bela, deixa disso! - Mas ela não faz mais sentido para mim! Acabou! Adeus, mundo desgraçado! - Para com isso, vai, me dá um exemplo de algo r**m e eu deixo você pular tranquila. - Ah, você quer um exemplo?! Eu posso te dar um monte de exemplos! - Estou esperando, aliás, tenho todo o tempo do mundo, se você quiser saber. - Ah, é? Mas eu não, quero acabar logo com isso! - Pra que a pressa, se você vai morrer mesmo?! Me conta, vai, o que foi que aconteceu?    - Mas foi há muito tempo, talvez nem devesse gerar mais nenhum efeito hoje, só que foi terrível, ele nunca me perdoou por isso.    - Ele quem?    - Meu ex marido.    - Pelo quê?    - Eu o traí.    - Mas isso é normal hoje em dia. E ele n******e fazer nada, era só largar você e cada um seguia seu caminho, certo? Isso não precisa gerar nenhum sofrimento assim tão grande e tão longo!    - Não, eu o traí em outro sentido, eu ...    E assim Raimunda foi vomitando em detalhes tudo o que fez, tanto com o ex quanto com suas demais vítimas.    Pedrão, que tinha uma memória de elefante, salvava tudo em seu HD cerebral e já via o filme passando à frente de seus olhos.     Nesse meio tempo, seu Raimundo já tinha ido até o terraço para verificar se a mulher que tentava se m***r era realmente sua irmã. Por alguns instantes ele, aterrorizado, havia fantasiado um trágico fim para a timidez quase patológica daquela. Sentiu enorme alívio ao ver que era outra pessoa, percebeu a conveniência de ter seu melhor roteirista tentando ajudar a mulher e voltou ao escritório para coordenar os esforços na tentativa de trazer agentes públicos experientes para resolver o mais rapidamente possível aquele impasse.      Pedrão havia se apegado muito rapidamente à estória e reconhecia o incrível potencial dramático da mesma. Percebeu também, naquele momento, que precisava que a suicida iminente permanecesse viva para que pudesse municiá-lo do máximo de detalhes: - A gente pode te ajudar aqui, sabia? - Aqui?! - Sim, aqui na empresa! E a gente ainda pode ajudar a limpar a tua reputação um pouco até, se você quiser. - Mas eu nem sei se tudo que estou vivendo é verdade ou mentira. - Não importa, a gente pode te ajudar mesmo assim.        Dentro de um padrão de precariedade mais do que esperado para a segurança pública brasileira, nem o Corpo de Bombeiros e nem a Polícia Militar davam sequer mostras de estarem próximos de chegar. Pedrão ía ganhando um precioso tempo com Raimunda, esforçando-se para não transformá-la em mais uma lastimável defunta.    - Vocês podem me ajudar como, exatamente?    - Contando a sua história.    - Mas eu serei uma vilã!    - Mas não se você se arrepender sinceramente!    Raimunda ficou ponderando durante vários segundos em tudo que aquilo poderia implicar. Era difícil raciocinar usando elementos que, em alguns casos, lhe pareciam mais imaginários do que reais! Como concluir algo minimamente confiável quando a própria realidade parecia sumir entre seus dedos a toda hora?! - Eu acho que eu estou ficando louca. - Olha, disse Pedrão, a vida, na realidade, é uma grande ilusão, não te parece? - É verdade, às vezes eu acho que sou apenas um boneco manipulado por alguém maior do que eu, sabe? - Então, vamos viver essa ilusão da melhor maneira que a gente puder! O que a gente pode fazer?    Mais um longo intervalo de reflexão e Raimunda vem com esta: - Mas eu sou uma pessoa muito, muito f**a! Ninguém jamais vai gostar de mim! Nesse momento, Pedrão, que já havia notado os inegáveis atributos físicos da criatura à sua frente, respondeu: - O que eu estou vendo aqui, pra ser bem sincero, é uma lindíssima mulher!    Àquela altura, o fato já havia juntado bastante gente no terraço. Quando Pedrão proferiu aquela frase, ele simultaneamente ofereceu seu braço direito a ela, fazendo com que a pequena multidão ao redor se comovesse e emitisse um sonoro OOOOOOHHHH, seguido de alguns aplausos entusiasmados.     Raimunda agora dava toda a pinta de que desistiria do auto assassinato. Seu gestual mostrava isso, havia acabado de girar tronco e pernas à esquerda, para o lado de dentro do terraço e seu braço direito começava a subir ao encontro do de Pedrão. Ela, no entanto, possivelmente tivesse algum tipo de alteração anatômica devida à má formação de órgãos internos como o útero retrovertido ou a dextrocardia. Associe-se a isso a inclinação empreendida por ela em seu tronco na ânsia de alcançar Pedrão mais rapidamente. Sendo assim, o centro gravitacional de sua massa corpórea foi deslocado e ela despencou do terraço.    No térreo, Raimundo de Lucena tentava averiguar o infortunado fato:    - Como essa mulher tinha o mesmo nome da minha irmã?!    - Pois é, seu Raimundo, Raimunda.    - E cadê aquele faxineiro filho da p**a?!    - Ele saiu com a bicicleta dele um pouco antes da mulher chegar, seu Raimundo, disse a recepcionista.    - Eu não falei pra ele deixar a porta do terraço fechada?!    - Mas hoje não ía ter gravação no terraço, seu Raimundo?    - f**a-se! Abrisse na hora, a porta, p***a! Eu vou m***r aquele filho da p**a desgraçado!    Na sala de criação, o pessoal conversava:    Pedrão:    - É muito Raimundo para uma estória só!    Soraia acrescentou:    - Coincidência demais!    Marlon pontuou, mudando de assunto:    - Caramba, Pedrão, você quase conseguiu, foi brilhante!    E Pedrão respondeu:   - É, lá se foi um ótimo roteiro!   - O Pedrão tá preocupado com o roteiro, disse Soraia, rindo.   - O bicho só pensa em trabalhar, né? Marlon falou.   - Isso é um radar, ele aproveita tudo.   - É, eu tenho medo das merdas que eu falo perto dele.    E os dois caíram na risada.    Pedrão protestou:  -  Para com isso, gente! Vocês viram que o Raimundo quer demitir o faxineiro? s*******m, o cara tem quatro filhos!   - É, coitado do Mundinho! "Mundo, mundo, vasto mundo, Se eu me chamasse Raimundo Seria uma rima, não seria uma solução"      Carlos Drummond de Andrade                         Pedro Melchiades    

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