As Regras do Silêncio

1240 Words
Seraphina regressou à suíte leste pouco depois das duas da manhã. O The Residences dormia envolto em vidro, aço e silêncio absoluto. O luxo, naquela hora, não era conforto era contenção. Uma jaula perfeitamente dourada. Ela fechou a porta atrás de si com cuidado excessivo, como se qualquer ruído pudesse denunciar a fratura que carregava por dentro. Livrou-se do vestido Balmain sem cerimónia, deixando-o cair sobre o encosto do sofá. O tecido caro parecia um símbolo de tudo o que aquela noite exigira dela. O anel no seu dedo capturou a luz indireta do corredor e devolveu um brilho quase c***l. Seraphina apoiou as mãos na bancada de mármore da cozinha minimalista e fechou os olhos. O evento tinha sido um sucesso absoluto. A narrativa fora controlada. Marcus tinha sido reduzido a um erro histórico. E ainda assim, algo estava fora do lugar. Não era culpa. Nem arrependimento. Era a sensação desconfortável de que Julian Kaine tinha avançado uma casa sem pedir permissão. Ela atravessou a galeria comum que separava as duas suítes, território neutro, estipulado em contrato. A escultura n***a de metal angular permanecia no centro, fria, lógica, imutável. Seraphina sempre gostara dela por isso. Não reagia. Não cedia. — Não confie nele — murmurou, mais como comando do que como aviso. A porta de vidro da suíte oeste abriu-se sem ruído. Julian estava ali, descalço, vestindo apenas calças de moletom cinzas. O cabelo ainda húmido denunciava um banho recente. Ele não parecia o bilionário intocável que a cidade venerava, mas sim um homem que permanecia acordado quando já devia estar a dormir. — Está acordada — constatou ele, como se isso confirmasse algo. Seraphina virou-se lentamente, o rosto já recomposto. — Esta é uma área comum. Não estou a violar nada. — Não — concordou Julian, aproximando-se apenas até a linha invisível que delimitava o espaço dela. — Mas está inquieta. E isso não estava nos termos. Ela cruzou os braços. — O que aconteceu esta noite não lhe dá direito a interpretações privadas. — Não. — Ele inclinou ligeiramente a cabeça. — Dá-me dados. O tom dele era calmo demais. Estratégico. — A reação da imprensa foi exatamente a que previmos. Marcus perdeu apoio em tempo real. Os acionistas do Égide vão exigir explicações até amanhã. — Eu sei lidar com isso. — Sei que sabe. — Ele fez uma pausa. — A questão é como vai enquadrar a sua motivação. Julian estendeu um tablet. Na tela, gráficos, fluxos financeiros e linhas de tempo surgiam com precisão cirúrgica. — Não transforme isto numa narrativa de vingança pessoal — continuou. — Transforme numa correção estrutural. Ele não traiu você. Ele comprometeu a empresa. Seraphina analisou os dados em silêncio. Era brilhante. Frio. Irrefutável. — Você preparou isto antes mesmo de eu pedir. — Porque sabia que precisaria — respondeu ele. — E porque sabia que hoje não ia conseguir desligar. Ela levantou os olhos. — Não confunda estratégia com i********e, Julian. Um leve sorriso surgiu, mas não chegou aos olhos dele. — Está a confundir controlo com distância, Seraphina. São coisas diferentes. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de tudo o que não tinha sido dito — e de tudo o que tinha sido sentido, apesar das regras. — A partir de agora — disse ela, finalmente — qualquer ação fora do previsto será comunicada. Não improvisamos com reputações. Nem com corpos. Julian assentiu lentamente. — Muito bem. — Ele deu um passo atrás. — Mas entenda isto: o mundo acreditou no que viu hoje. E crença pública cria realidade privada, queira você ou não. Ele virou-se para regressar à sua suíte. — Amanhã começamos a segunda fase. E será mais agressiva. A porta fechou-se com suavidade absoluta. Seraphina permaneceu imóvel por longos segundos. Ela não sentia desejo. Nem raiva. Sentia algo pior. Antecipação. Virou-se e caminhou de volta à sua suíte, ignorando o quarto. Em vez disso, entrou no escritório. Telas acenderam-se. Códigos, projeções e contratos preencheram o espaço. Se Julian Kaine estava a redesenhar o jogo, ela faria o mesmo. Mas, pela primeira vez desde que assinara aquele casamento estratégico, Seraphina reconheceu a verdade que tentara evitar: O maior risco daquela guerra não era perder. Era ganhar e descobrir que já não controlava todas as variáveis. Seraphina sentou-se lentamente na cadeira ergonómica do escritório, como se o corpo precisasse acompanhar a gravidade do pensamento. À sua frente, as telas exibiam números, fluxos de capital, contratos interligados por linhas luminosas. Aquilo era o seu território natural. Ali, sentimentos não tinham jurisdição. Ela respirou fundo e começou a trabalhar. Reviu projeções de mercado, reestruturou cenários de risco, antecipou reações do conselho do Égide. Cada decisão era calculada com frieza matemática. Marcus Thorne deixara rastros suficientes para ser desmontado peça por peça. Não haveria espetáculo, apenas desintegração silenciosa. E ainda assim, por baixo da lógica impecável, algo insistia. Julian não tinha tocado nela naquela noite. Não tinha levantado a voz. Não tinha exigido nada. Ele apenas reposicionara o tabuleiro. Seraphina percebeu isso quando abriu o dossiê final: um memorando interno, redigido por Julian, destinado exclusivamente a ela. Não era uma ordem. Era uma hipótese. Se Thorne reagir publicamente, recomendo que o façamos parecer emocional. Se tentar negociar, já temos a armadilha legal preparada. Se recuar… perde tudo em silêncio. Era uma obra-prima estratégica. E era isso que a perturbava. Julian Kaine não estava a protegê-la por obrigação contratual. Ele estava investido. Intelectualmente. Psicologicamente. Talvez mais. Ela fechou o memorando e apoiou o queixo na mão. — Você está a aproximar-se demais — murmurou para o reflexo escuro da tela. Não como homem. Como força. Seraphina sempre acreditara que o perigo vinha de homens impulsivos, Marcus fora prova disso. Julian era o oposto. Ele não atacava. Ele esperava. Observava. Ajustava. E, quando se movia, já tinha vencido metade da batalha. O relógio marcou quatro e vinte da manhã quando ela finalmente se levantou. Caminhou até a janela panorâmica. Nova York estendia-se abaixo, brilhante, indiferente. Um organismo que respeitava apenas uma coisa: poder bem exercido. — Não confunda dependência com parceria — disse em voz baixa, como se ele pudesse ouvir. Mas a verdade era mais incómoda. Julian era o único homem naquela cidade que não precisava dela e exatamente por isso, tornara-se indispensável. Ela percebeu que o equilíbrio tinha mudado quando o comunicador interno vibrou. Mensagem não solicitada. Dormir é opcional. Antecipação não. — J.K. Seraphina não respondeu. Não porque não soubesse o que dizer mas porque qualquer resposta seria uma concessão. Desligou o dispositivo e voltou-se para o escritório, decidida a terminar o plano sozinha. Ajustou cláusulas, reforçou blindagens jurídicas, criou três camadas adicionais de proteção contra interferência externa. Tudo impecável. Tudo racional. E ainda assim, quando o céu começou a clarear, uma conclusão instalou-se com nitidez desconfortável: Julian Kaine não queria apenas vencer Marcus Thorne. Queria reescrever Seraphina dentro do jogo. Não como vítima. Não como aliada submissa. Mas como algo mais perigoso. Uma igual. Ela fechou os olhos por um segundo, permitindo-se uma única admissão,curta, controlada, quase imperceptível: — Isto vai custar mais do que eu planeei. Quando o sol finalmente tocou os prédios de vidro, Seraphina já estava de pé, perfeitamente composta, a máscara de CEO firmemente no lugar. A guerra estava oficialmente aberta. E, pela primeira vez desde que assinara aquele casamento estratégico, ela não tinha certeza se estava a liderar… ou se tinha acabado de aceitar o único adversário à sua altura.
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