O salão de reuniões do Consórcio Égide era uma catedral de vidro e mármore, concebida para sugerir transparência absoluta enquanto escondia décadas de decisões obscuras. Cada parede refletia rostos tensos, cada superfície polida amplificava o silêncio carregado de expectativa.
Seraphina e Julian chegaram de helicóptero, o pouso no terraço anunciado pelo rugido metálico das hélices. Não era apenas logística era mensagem. Em menos de dois minutos, todos sabiam: eles estavam ali juntos.
Quando entraram na sala, o Conselho de Administração já os aguardava. Sussurros cessaram abruptamente. Alguns membros evitaram o olhar de Seraphina; outros observaram Julian com cautela aberta. Marcus Thorne estava sentado à direita da mesa, pálido sob a máscara de arrogância cuidadosamente treinada. Advogados ladeavam-no como escudos humanos.
Julian não se sentou.
Ficou de pé atrás da cadeira de Seraphina, mãos repousadas com leveza calculada no encosto. Não precisava falar. A sua presença era um aviso silencioso: qualquer ataque teria resposta.
Seraphina ocupou a cabeceira o lugar que sempre fora seu, mesmo quando tentaram empurrá-la para fora. Não cumprimentou Marcus. Sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que o necessário. O desprezo não era emocional. Era técnico.
— Bom dia — começou, a voz firme, sem esforço. — Esta reunião não foi convocada para discutir o meu casamento. Esse evento apenas acelerou a revelação de um problema que o Égide vem ignorando há meses.
O CEO interino, Harrington, limpou a garganta.
— Sra. Vance, há preocupações sérias sobre a gestão durante a sua ausência—
— Há provas — corrigiu Seraphina, ativando o painel à sua frente de que o consórcio foi sistematicamente drenado pelo Sr. Thorne.
O impacto foi imediato.
Marcus levantou-se, o rosto avermelhado.
— Isso é absurdo! Isto é vingança pessoal! Ela está a usar o nome Kaine como arma porque foi descartada!
Seraphina não reagiu. Julian inclinou-se levemente, aproximando-se o suficiente para que apenas ela sentisse a pressão invisível da sua presença. Não era proteção. Era alinhamento estratégico.
— O Sr. Thorne prefere uma narrativa emocional — continuou Seraphina. — Infelizmente para ele, números não reagem a insultos.
Gráficos preencheram a tela. Fluxos financeiros complexos, rastreados com precisão cirúrgica.
— Empresas offshore, controladas por intermediários fictícios, receberam investimentos do Égide. Essas empresas transferiram tecnologia e capital diretamente para a Thorne Global.
A sala começou a murmurar. Um conselheiro levantou-se, alarmado.
— Isto é… isto é grave.
Seraphina avançou nas projeções, expondo contratos, assinaturas digitais, desvios de patentes.
— O Sr. Thorne não traiu apenas a mim. Ele comprometeu a competitividade do Égide para benefício próprio.
— Mentira! — Marcus gritou. — Kaine fabricou isto! Ele compra auditorias como compra governos!
Julian finalmente falou.
— Três auditorias independentes. Cadeia de custódia validada. — Ele olhou diretamente para Marcus. — Se acredita na sua inocência, conceda acesso total às contas da Thorne Global agora.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Marcus não respondeu.
E isso foi resposta suficiente.
— Proponho votação imediata — disse Seraphina. — Remoção do Sr. Thorne como CEO e a******a de investigação formal.
A votação foi rápida. Unânime.
Marcus caiu na cadeira como se o ar tivesse sido retirado do corpo. Dois seguranças aproximaram-se discretamente.
Ao sair, ele parou ao lado de Seraphina.
— Você perdeu algo no processo — murmurou, venenoso. — Antes, pelo menos, sentia alguma coisa.
Ela ergueu os olhos.
— Perdi a ingenuidade. Ganhei clareza.
Marcus foi escoltado para fora.
A porta fechou-se.
A primeira fase estava concluída.
No elevador privado, o silêncio era denso. Não havia celebração. Apenas consequência.
— Você executou com precisão cirúrgica — disse Julian por fim. — Nenhum erro emocional.
— Não confunda frieza com influência — respondeu ela. — Eu não preciso que você me valide.
Julian sorriu de lado.
— Não estava a validar. Estava a constatar.
A tensão entre eles não era física. Era intelectual. Um campo magnético silencioso.
— A partir de agora — continuou ele — Marcus vai atacar fora do tabuleiro. Mídia, aliados, rumores.
— Então deixamos que ele se exponha — respondeu Seraphina. — Pessoas desesperadas cometem erros caros.
O elevador parou.
Antes de sair, Julian acrescentou:
— Hoje você venceu porque manteve distância. Amanhã, isso pode não ser suficiente.
Seraphina permaneceu no elevador por um segundo extra, absorvendo o peso daquilo.
Ela não respondeu.
Não porque discordasse mas porque sabia que ele tinha razão.
Mais tarde, sozinha no escritório, cercada por telas e projeções, ela aceitou a verdade que resistira admitir:
A guerra contra Marcus estava sob controlo.
A dinâmica com Julian… não.
E isso tornava tudo infinitamente mais perigoso.
Seraphina permaneceu sentada por longos minutos, observando os gráficos imóveis nas telas à sua frente. O conselho tinha sido vencido. Marcus tinha sido removido. Mas o Consórcio Égide não era uma entidade moral era um organismo ferido. E organismos feridos reagiam.
O comunicador interno começou a vibrar novamente. Desta vez, não era Julian.
Pedidos de reunião.
Mensagens cifradas.
Conselheiros “preocupados com estabilidade”.
Ela leu todas sem responder.
O ataque no conselho tinha exposto Marcus, mas também revelara algo mais delicado: o quão vulnerável o Égide se tornara sem ela no comando direto. Durante meses, decisões tinham sido terceirizadas, diluídas, politizadas. Havia alianças que ela não reconhecia mais.
Seraphina abriu o mapa de governança do consórcio. Nomes surgiram ligados por linhas finas, alguns sólidos, outros instáveis. Três conselheiros tinham votado rápido demais. Dois tinham hesitado. Um tinha evitado olhar para Julian o tempo todo.
Ela ampliou esse nome.
— Interessante — murmurou.
O ataque não terminara com a saída de Marcus. Aquilo fora apenas o impacto inicial. Agora vinha a onda secundária, a mais destrutiva.
A porta do escritório abriu-se com um toque discreto. Julian entrou sem pedir permissão. Não trazia tablet. Nem documentos. Apenas observava.
— Eles estão a reagrupar — disse ele, como se estivesse a continuar um pensamento dela. — Alguns querem um CEO de transição. Outros estão a discutir limitar os seus poderes estatutários.
Seraphina não se virou.
— Deixe-os tentar.
— Não subestime o medo corporativo — Julian respondeu. — O conselho tolera força. Detesta incerteza.
Ela finalmente o encarou.
— Então vamos dar-lhes certeza.
Ela tocou a tela. Um novo documento abriu-se: uma proposta de reestruturação imediata do Égide. Não era defensiva. Era ofensiva.
— Dissolução de três subsidiárias inúteis — disse ela. — Reintegração das patentes estratégicas. Centralização do poder executivo.
Julian ergueu uma sobrancelha.
— Isto é um golpe interno.
— Não — corrigiu ela. — É retomar o que nunca deveria ter sido fragmentado.
Ele aproximou-se lentamente, lendo.
— O conselho vai resistir.
— Que resistam. — O olhar dela era de aço. — Eles acabaram de assistir ao que acontece quando me subestimam.
Julian permaneceu em silêncio por um instante mais longo do que o habitual.
— Está a assumir que eu estarei do seu lado quando eles atacarem.
Seraphina sustentou o olhar.
— Você já está, Julian. A questão é porquê.
Algo mudou no ar.
— Porque um Égide fraco não me interessa — respondeu ele. — E porque Marcus Thorne não pode ter a ilusão de que isto foi pessoal.
— Mas foi — disse ela, sem emoção. — Apenas não sentimental.
Julian sorriu de leve.
— É por isso que funciona.
O comunicador vibrou novamente. Desta vez, uma convocação formal: sessão extraordinária do conselho em quarenta e oito horas.
Seraphina fechou o documento.
— Eles querem a segunda ronda.
— E vão atacá-la com estatutos, cláusulas e moral corporativa — Julian acrescentou. — Não com fatos.
Ela levantou-se.
— Então o ataque no conselho ainda não terminou.
— Não — concordou ele. — Apenas mudou de forma.
Quando Julian saiu, Seraphina voltou-se para a janela. A cidade continuava indiferente. Como sempre.
Ela pensou em Marcus, reduzido a ruído. Pensou no conselho, agora dividido. Pensou em Julian, não como marido, nem aliado, mas como variável ativa.
O ataque no conselho tinha sido uma vitória.
Mas a guerra pelo controlo do Égide estava apenas a começar.
E, pela primeira vez desde que construíra aquele império, Seraphina compreendeu algo que não constava em nenhum relatório:
O verdadeiro risco não era perder o poder.
Era partilhá-lo com alguém capaz de a desafiar em cada movimento.
Ela voltou-se para as telas, já a desenhar o próximo ataque.
Desta vez, não haveria aviso.