O Ataque no Conselho

1381 Words
O salão de reuniões do Consórcio Égide era uma catedral de vidro e mármore, concebida para sugerir transparência absoluta enquanto escondia décadas de decisões obscuras. Cada parede refletia rostos tensos, cada superfície polida amplificava o silêncio carregado de expectativa. Seraphina e Julian chegaram de helicóptero, o pouso no terraço anunciado pelo rugido metálico das hélices. Não era apenas logística era mensagem. Em menos de dois minutos, todos sabiam: eles estavam ali juntos. Quando entraram na sala, o Conselho de Administração já os aguardava. Sussurros cessaram abruptamente. Alguns membros evitaram o olhar de Seraphina; outros observaram Julian com cautela aberta. Marcus Thorne estava sentado à direita da mesa, pálido sob a máscara de arrogância cuidadosamente treinada. Advogados ladeavam-no como escudos humanos. Julian não se sentou. Ficou de pé atrás da cadeira de Seraphina, mãos repousadas com leveza calculada no encosto. Não precisava falar. A sua presença era um aviso silencioso: qualquer ataque teria resposta. Seraphina ocupou a cabeceira o lugar que sempre fora seu, mesmo quando tentaram empurrá-la para fora. Não cumprimentou Marcus. Sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que o necessário. O desprezo não era emocional. Era técnico. — Bom dia — começou, a voz firme, sem esforço. — Esta reunião não foi convocada para discutir o meu casamento. Esse evento apenas acelerou a revelação de um problema que o Égide vem ignorando há meses. O CEO interino, Harrington, limpou a garganta. — Sra. Vance, há preocupações sérias sobre a gestão durante a sua ausência— — Há provas — corrigiu Seraphina, ativando o painel à sua frente de que o consórcio foi sistematicamente drenado pelo Sr. Thorne. O impacto foi imediato. Marcus levantou-se, o rosto avermelhado. — Isso é absurdo! Isto é vingança pessoal! Ela está a usar o nome Kaine como arma porque foi descartada! Seraphina não reagiu. Julian inclinou-se levemente, aproximando-se o suficiente para que apenas ela sentisse a pressão invisível da sua presença. Não era proteção. Era alinhamento estratégico. — O Sr. Thorne prefere uma narrativa emocional — continuou Seraphina. — Infelizmente para ele, números não reagem a insultos. Gráficos preencheram a tela. Fluxos financeiros complexos, rastreados com precisão cirúrgica. — Empresas offshore, controladas por intermediários fictícios, receberam investimentos do Égide. Essas empresas transferiram tecnologia e capital diretamente para a Thorne Global. A sala começou a murmurar. Um conselheiro levantou-se, alarmado. — Isto é… isto é grave. Seraphina avançou nas projeções, expondo contratos, assinaturas digitais, desvios de patentes. — O Sr. Thorne não traiu apenas a mim. Ele comprometeu a competitividade do Égide para benefício próprio. — Mentira! — Marcus gritou. — Kaine fabricou isto! Ele compra auditorias como compra governos! Julian finalmente falou. — Três auditorias independentes. Cadeia de custódia validada. — Ele olhou diretamente para Marcus. — Se acredita na sua inocência, conceda acesso total às contas da Thorne Global agora. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Marcus não respondeu. E isso foi resposta suficiente. — Proponho votação imediata — disse Seraphina. — Remoção do Sr. Thorne como CEO e a******a de investigação formal. A votação foi rápida. Unânime. Marcus caiu na cadeira como se o ar tivesse sido retirado do corpo. Dois seguranças aproximaram-se discretamente. Ao sair, ele parou ao lado de Seraphina. — Você perdeu algo no processo — murmurou, venenoso. — Antes, pelo menos, sentia alguma coisa. Ela ergueu os olhos. — Perdi a ingenuidade. Ganhei clareza. Marcus foi escoltado para fora. A porta fechou-se. A primeira fase estava concluída. No elevador privado, o silêncio era denso. Não havia celebração. Apenas consequência. — Você executou com precisão cirúrgica — disse Julian por fim. — Nenhum erro emocional. — Não confunda frieza com influência — respondeu ela. — Eu não preciso que você me valide. Julian sorriu de lado. — Não estava a validar. Estava a constatar. A tensão entre eles não era física. Era intelectual. Um campo magnético silencioso. — A partir de agora — continuou ele — Marcus vai atacar fora do tabuleiro. Mídia, aliados, rumores. — Então deixamos que ele se exponha — respondeu Seraphina. — Pessoas desesperadas cometem erros caros. O elevador parou. Antes de sair, Julian acrescentou: — Hoje você venceu porque manteve distância. Amanhã, isso pode não ser suficiente. Seraphina permaneceu no elevador por um segundo extra, absorvendo o peso daquilo. Ela não respondeu. Não porque discordasse mas porque sabia que ele tinha razão. Mais tarde, sozinha no escritório, cercada por telas e projeções, ela aceitou a verdade que resistira admitir: A guerra contra Marcus estava sob controlo. A dinâmica com Julian… não. E isso tornava tudo infinitamente mais perigoso. Seraphina permaneceu sentada por longos minutos, observando os gráficos imóveis nas telas à sua frente. O conselho tinha sido vencido. Marcus tinha sido removido. Mas o Consórcio Égide não era uma entidade moral era um organismo ferido. E organismos feridos reagiam. O comunicador interno começou a vibrar novamente. Desta vez, não era Julian. Pedidos de reunião. Mensagens cifradas. Conselheiros “preocupados com estabilidade”. Ela leu todas sem responder. O ataque no conselho tinha exposto Marcus, mas também revelara algo mais delicado: o quão vulnerável o Égide se tornara sem ela no comando direto. Durante meses, decisões tinham sido terceirizadas, diluídas, politizadas. Havia alianças que ela não reconhecia mais. Seraphina abriu o mapa de governança do consórcio. Nomes surgiram ligados por linhas finas, alguns sólidos, outros instáveis. Três conselheiros tinham votado rápido demais. Dois tinham hesitado. Um tinha evitado olhar para Julian o tempo todo. Ela ampliou esse nome. — Interessante — murmurou. O ataque não terminara com a saída de Marcus. Aquilo fora apenas o impacto inicial. Agora vinha a onda secundária, a mais destrutiva. A porta do escritório abriu-se com um toque discreto. Julian entrou sem pedir permissão. Não trazia tablet. Nem documentos. Apenas observava. — Eles estão a reagrupar — disse ele, como se estivesse a continuar um pensamento dela. — Alguns querem um CEO de transição. Outros estão a discutir limitar os seus poderes estatutários. Seraphina não se virou. — Deixe-os tentar. — Não subestime o medo corporativo — Julian respondeu. — O conselho tolera força. Detesta incerteza. Ela finalmente o encarou. — Então vamos dar-lhes certeza. Ela tocou a tela. Um novo documento abriu-se: uma proposta de reestruturação imediata do Égide. Não era defensiva. Era ofensiva. — Dissolução de três subsidiárias inúteis — disse ela. — Reintegração das patentes estratégicas. Centralização do poder executivo. Julian ergueu uma sobrancelha. — Isto é um golpe interno. — Não — corrigiu ela. — É retomar o que nunca deveria ter sido fragmentado. Ele aproximou-se lentamente, lendo. — O conselho vai resistir. — Que resistam. — O olhar dela era de aço. — Eles acabaram de assistir ao que acontece quando me subestimam. Julian permaneceu em silêncio por um instante mais longo do que o habitual. — Está a assumir que eu estarei do seu lado quando eles atacarem. Seraphina sustentou o olhar. — Você já está, Julian. A questão é porquê. Algo mudou no ar. — Porque um Égide fraco não me interessa — respondeu ele. — E porque Marcus Thorne não pode ter a ilusão de que isto foi pessoal. — Mas foi — disse ela, sem emoção. — Apenas não sentimental. Julian sorriu de leve. — É por isso que funciona. O comunicador vibrou novamente. Desta vez, uma convocação formal: sessão extraordinária do conselho em quarenta e oito horas. Seraphina fechou o documento. — Eles querem a segunda ronda. — E vão atacá-la com estatutos, cláusulas e moral corporativa — Julian acrescentou. — Não com fatos. Ela levantou-se. — Então o ataque no conselho ainda não terminou. — Não — concordou ele. — Apenas mudou de forma. Quando Julian saiu, Seraphina voltou-se para a janela. A cidade continuava indiferente. Como sempre. Ela pensou em Marcus, reduzido a ruído. Pensou no conselho, agora dividido. Pensou em Julian, não como marido, nem aliado, mas como variável ativa. O ataque no conselho tinha sido uma vitória. Mas a guerra pelo controlo do Égide estava apenas a começar. E, pela primeira vez desde que construíra aquele império, Seraphina compreendeu algo que não constava em nenhum relatório: O verdadeiro risco não era perder o poder. Era partilhá-lo com alguém capaz de a desafiar em cada movimento. Ela voltou-se para as telas, já a desenhar o próximo ataque. Desta vez, não haveria aviso.
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