O Jantar Perfeito

1376 Words
A chegada ao Le Fleur foi tudo menos discreta. O maître interrompeu o fluxo do salão no instante em que os reconheceu. Três recepcionistas surgiram quase em formação, e o caminho até a cabine central abriu-se como um corredor cerimonial. Era o lugar mais visível do restaurante escolhido para ser visto, comentado e fotografado. Seraphina percebeu os olhares antes mesmo de se sentar. Curiosidade, especulação, inveja. O ataque no conselho já circulava em sussurros, e agora todos queriam ver o casal que havia derrubado um titã corporativo em plena luz do dia. Julian moveu a cadeira dela com precisão ensaiada. Ao fazê-lo, pousou a mão entre as omoplatas de Seraphina por um breve segundo. O toque era leve, quase casual mas a mensagem era clara para quem observava. — Sorria — murmurou ele, inclinado o suficiente para que apenas ela ouvisse. — Não para mim. Para o teatro. Ela sorriu. Desta vez, não foi difícil. O conselho estava neutralizado. Marcus fora removido. O peso imediato tinha desaparecido, substituído por uma sensação perigosa de domínio absoluto. Por alguns minutos, Seraphina permitiu-se sentir-se invencível. A cabine era um palco fechado. Julian dispensou o menu e pediu um Bordeaux específico, mencionando o ano com naturalidade. O gesto estabelecia autoridade silenciosa ele não frequentava o Le Fleur; ele pertencia ao Le Fleur. — A narrativa desta noite é simples — disse ele, em tom baixo, como se comentasse o vinho. — Casal recém-casado. Alívio após tensão. Nenhuma menção a negócios. — Está a dar-me instruções? — ela perguntou, sem perder o sorriso social. — Estou a alinhar expectativas. — O olhar dele deslizou pela sala. — Pessoas observam microexpressões, não palavras. O garçom voltou, trazendo exatamente o prato favorito dela. Seraphina ergueu uma sobrancelha. — Isso não estava em nenhum cardápio público. — Não — Julian respondeu. — Mas estava nos relatórios. A franqueza desconcertou-a mais do que qualquer charme. — Você investiga demais. — Eu preparo o terreno — corrigiu ele. — Especialmente quando algo me importa. A palavra ficou suspensa entre eles. Julian apoiou o antebraço na mesa, aproximando-se ligeiramente. Não a tocou. Ainda assim, Seraphina sentiu o deslocamento de atenção ao redor. Aquilo também era técnica. — Há algo que quero compreender — disse ele. — Não como parceiro de fachada. Como aliado estratégico. Ela manteve o olhar fixo no copo. — Continue. — Por que você deixou Marcus assumir os créditos públicos durante tanto tempo? A pergunta não era acusatória. Era cirúrgica. Seraphina inspirou devagar. — Porque eu acreditava que construir era mais importante do que aparecer. — Um sorriso seco surgiu. — Achei que o poder silencioso bastaria. — E bastaria — disse Julian — se você estivesse a lidar com um homem que não tivesse medo da sua inteligência. Ela virou-se para ele. — Medo? — Marcus não a traiu por ambição — continuou Julian. — Traiu porque percebeu que, a longo prazo, você o tornaria irrelevante. Aquilo atingiu com precisão desconfortável. — Você analisa pessoas como empresas — disse ela. — E você analisa empresas como sistemas de sobrevivência. — Ele inclinou a cabeça. — Somos mais parecidos do que gostaria de admitir. O vinho chegou. O som do líquido a tocar o cristal ofereceu uma pausa necessária. — E você? — perguntou ela. — Nunca casou. Nunca se expôs. Por quê? Julian demorou um segundo a mais do que o habitual para responder. — Porque alianças verdadeiras exigem risco. — Um sorriso breve. — E eu só aposto quando o retorno é proporcional. Ela percebeu o perigo ali. Não era sedução direta. Era validação intelectual muito mais difícil de rejeitar. Conversaram sobre arte, cidades, arquitetura. Nada íntimo, nada pessoal demais. Ainda assim, Seraphina sentiu algo raro: não precisava defender território. Julian acompanhava o ritmo, desafiava quando necessário, recuava quando conveniente. No fim do jantar, ele levantou-se primeiro. — Hora de consolidar a imagem — disse. Ao passarem pelo centro do salão, Julian colocou a mão na base das costas dela, guiando-a com naturalidade. Não houve beijo. Não houve exagero. Apenas proximidade suficiente para alimentar especulação. Funcionou. Já no carro, o silêncio era diferente dos anteriores. Não carregado. Avaliativo. — Hoje — disse Julian — você venceu sem levantar a voz. — E você? — ela respondeu. — O que ganhou? Ele olhou pela janela antes de responder. — Informação. Seraphina sentiu um leve arrepio. Quando chegaram à torre, Julian não tentou prolongar o momento. Apenas disse: — Amanhã, o conselho vai reagir. — Um olhar significativo. — E eles não vão atacar você. Vão tentar dividir-nos. Ele saiu antes que ela respondesse. Sozinha no elevador, Seraphina apoiou a cabeça no espelho escuro. Não havia beijo para confundir as coisas. Não havia quebra de contrato para racionalizar. Havia apenas uma certeza inquietante: Julian Kaine não precisava ultrapassar limites físicos para a desestabilizar. Ele estava a conquistar espaço exatamente onde ela era mais vulnerável no controlo. E isso, mais do que qualquer escândalo ou inimigo externo, era o verdadeiro risco. Seraphina compreendia agora com uma clareza desconfortável: Julian Kaine não era apenas um aliado perigoso, nem apenas um marido de conveniência. Ele era um vetor de desestabilização. Um elemento imprevisível inserido deliberadamente no sistema que ela havia passado anos a tornar impenetrável. No silêncio do escritório, enquanto as primeiras luzes da manhã começavam a diluir o n***o da cidade, ela analisava gráficos e relatórios sem realmente os ver. O seu cérebro repetia padrões, criava projeções, simulava cenários. Tudo aquilo era familiar. Controlável. Reconfortante. Mas, por baixo da lógica, havia uma variável nova, indisciplinada, que se recusava a ser quantificada. O toque dele. A facilidade com que Julian transitava entre estratégia e i********e era o que mais a perturbava. Ele não forçava. Não exigia. Ele criava situações onde a reação parecia inevitável e depois observava, aprendia, ajustava. Seraphina fechou os olhos por um breve instante, recordando a forma como ele a olhara após o beijo na limusine. Não havia ali apenas desejo. Havia avaliação. Curiosidade. Antecipação. Julian Kaine não estava apenas interessado nela como parceira ou esposa. Ele estava a mapear-lhe as fronteiras emocionais, tal como faria com um mercado hostil. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não tinha a certeza de onde essas fronteiras realmente estavam. O jantar no Le Fleur fora uma obra-prima de engenharia social. Cada gesto, cada escolha —desde a mesa central ao vinho, do beijo público à saída calculada fora executado com precisão cirúrgica. Para o mundo exterior, eles eram o casal perfeito: poder, elegância, i********e. Uma união inevitável entre duas forças dominantes. Mas por trás da encenação, algo escapara ao controlo. Ela havia sentido. E sentir, para Seraphina, sempre fora um luxo perigoso. Levantou-se da cadeira e aproximou-se da janela, observando a cidade a despertar. Nova York nunca dormia; apenas mudava de turno. Assim como ela. Assim como Julian. Dois predadores em horários diferentes, agora forçados a partilhar o mesmo território. Marcus Thorne continuava a ser o inimigo declarado. O alvo. O motivo oficial de tudo aquilo. Mas Marcus era previsível. Ambicioso, sim, mas limitado pela própria vaidade. Ele reagiria como sempre: tentando recuperar terreno através de influência política, vazamentos seletivos, ataques indiretos. Julian, não. Julian avançava em silêncio. Não destruía estruturas redesenhava-as por dentro. O casamento dera-lhe acesso irrestrito. Não apenas às empresas, aos conselhos e às salas de decisão, mas a algo infinitamente mais valioso: à perceção pública dela. À narrativa. À imagem cuidadosamente construída de Seraphina Vale como uma CEO imune a distrações, emoções ou fraquezas. E agora essa imagem estava contaminada por algo humano. Ela voltou à secretária e abriu um novo ficheiro. Não um relatório financeiro, nem uma análise de risco corporativo. Um documento pessoal, protegido por múltiplas camadas de encriptação. Um hábito antigo, reservado apenas para momentos críticos. No topo da página, escreveu um único título: Julian Kaine — Avaliação de Risco Interno Ficou a olhar para as palavras durante alguns segundos antes de continuar. Porque, pela primeira vez, o maior perigo não vinha de fora. Não vinha de concorrentes, conselhos hostis ou ex-parceiros ressentidos. Vinha da possibilidade subtil, insidiosa de que Julian Kaine não fosse apenas parte do plano. Mas alguém capaz de reescrevê-lo. E essa perceção, mais do que qualquer escândalo ou inimigo externo, era o verdadeiro risco.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD