Era como se o ar da casa carregasse eletricidade desde que ele chegou.
Thiago Nogueira.
O homem da festa. O estranho da noite. O dono do pingente.
Agora, mais estranho do que nunca.
Desde que cruzamos o olhar naquela sala, senti tudo dentro de mim ruir. Não pela frieza com que me tratou — mas pela certeza de que ele sabia exatamente quem eu era. E mesmo assim… escolheu me ignorar. Como se nada tivesse acontecido entre nós.
Ele agia como se eu fosse invisível.
— Ele sempre foi meio reservado — Dario comentou, ao me ver cabisbaixa no café da manhã. — Mas vai por mim, Helena, quando ele relaxa, é um cara incrível.
Assenti, forçando um sorriso. Queria acreditar. Mas tudo em Thiago gritava distanciamento. Era quase ofensiva a maneira como ele m*l dirigia a palavra a mim. E quando o fazia, era sempre com um tom impessoal, quase profissional. “Com licença”. “Você pode passar o açúcar?”. “Obrigado.”
Era como conviver com um iceberg.
Pior ainda era o contraste com Dario. Ele era tudo o que Thiago não parecia ser: doce, atencioso, vibrante. Passava o tempo todo tentando me fazer rir — e em alguns momentos, ele conseguia.
— Vamos à praia hoje? — ele perguntou, empolgado. — O dia tá lindo, e eu quero te mostrar uma trilha secreta que só eu conheço.
— Vai parecer clichê, mas… eu não trouxe biquíni — respondi.
— E eu não trouxe juízo, então estamos quites — ele riu. — Vem de shorts e camiseta mesmo. Eu levo uma toalha. O que importa é o passeio.
No fim, aceitei. Estava precisando distrair a cabeça, esquecer a frieza de Thiago. Sentir o sol na pele, o vento salgado no rosto. E o caminho até a praia realmente era bonito. Passamos por um trecho de mata com árvores altas, sombras densas e pequenos barulhos de vida por todos os lados. Era como respirar outra atmosfera.
Quando finalmente avistamos o mar, foi como um alívio.
— É aqui que eu venho quando quero esquecer do mundo — Dario confessou. — Às vezes meu pai enche tanto o saco que eu fico dias aqui, sozinho, só ouvindo o barulho das ondas.
— Seu pai parece… exigente.
— É um jeito educado de dizer que ele é um ditador? — ele riu.
Eu sorri. Mas por dentro, uma tensão sutil me corroía. Era estranho ouvir Dario falando daquele jeito de Thiago — como se ele fosse só mais um pai rígido e ausente. Porque aquele homem que eu vi na festa, que me tocou como se soubesse todos os meus segredos, não combinava com a frieza imposta agora.
Talvez o problema fosse comigo.
No fim da tarde, voltamos à mansão. O céu começava a se tingir de tons alaranjados, e o ar ficava mais fresco. A brisa era suave, mas trazia um arrepio. Um aviso.
Ao chegar, Thiago estava na sala de estar, lendo um livro com a expressão compenetrada. Não ergueu os olhos quando entramos. Nem quando Dario comentou algo sobre a trilha.
— Pai, a Helena adorou a praia. Um dia você devia vir com a gente.
— Hum.
Uma resposta curta, seca. E o olhar? Continuou cravado no papel.
Senti o incômodo crescer em mim.
No jantar, a tensão se tornou insuportável.
Sentamos à mesa redonda do salão principal. Dario puxou minha cadeira com gentileza, e Thiago se limitou a um aceno discreto ao se sentar. A empregada trouxe o prato principal — filé ao molho de vinho com purê de batata — e o silêncio se arrastou por longos minutos.
Até que Dario tentou quebrá-lo.
— Então… Helena é apaixonada por literatura. Ela quer ser escritora. Tá estudando Letras.
— Interessante — disse Thiago, sem emoção.
— Você ainda escreve? — perguntei, meio sem pensar. Me lembrava de tê-lo visto anotar algo num caderninho na festa.
Ele ergueu os olhos. Pela primeira vez, me encarou de verdade.
— Não. Já escrevi… quando era mais jovem. Mas percebi que a realidade exige mais do que palavras bonitas.
As palavras caíram como pedras. Tive que desviar o olhar.
— Mas às vezes as palavras são tudo o que temos — murmurei.
— E às vezes são a pior forma de ilusão — ele rebateu, cortando o filé com precisão cirúrgica. — Palavras iludem. Gestos… esses, sim, dizem a verdade.
A frase ficou suspensa no ar como uma ameaça. Dario pigarreou, desconfortável. E eu não consegui mais comer.
À noite, tentei fugir da presença de Thiago.
Fui para a varanda dos fundos, onde o ar era mais leve, e as luzes da cidade ao longe pareciam piscar feito vaga-lumes.
Dario me encontrou ali, trazendo duas canecas de chá.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, sentando ao meu lado.
— Não sei. Seu pai me confunde.
— Ele é assim com todo mundo. Mas comigo você pode relaxar. Estou aqui pra te lembrar que tem gente que gosta de você como você é.
Havia uma doçura no olhar de Dario que me desarmava. Ele se inclinou um pouco mais. Por um instante, achei que ele fosse me beijar.
Mas algo dentro de mim bloqueou o momento.
Talvez fosse o som de passos atrás de nós.
Ou talvez fosse a presença invisível de alguém que ainda estava tatuado na minha pele.
No dia seguinte, o clima parecia ainda mais estranho.
Thiago evitava me olhar. Dario tentava compensar com brincadeiras e gestos gentis. Mas eu estava inquieta. Como se algo estivesse para acontecer.
Na hora do almoço, ofereci ajuda à cozinheira. Queria me ocupar, me distrair da tensão. Ela sorriu, me dando algumas verduras para cortar e me ensinando os temperos da casa.
— O sr. Thiago gosta das coisas do jeito dele — ela comentou, mexendo a panela. — Nunca foi muito de sorrisos. Mas tem bom coração. Só… um passado difícil, sabe?
Queria perguntar mais, mas não tive coragem.
Fui até a bancada pegar uma travessa. Estava distraída, concentrada na tarefa, quando ouvi passos firmes se aproximando por trás.
— Precisa de ajuda?
Era ele.
Thiago.
O tom de voz era mais baixo que o habitual. Quase hesitante.
Virei devagar. E o que vi me desmontou.
Ele estava sem o blazer, mangas da camisa arregaçadas, olhos presos nos meus. Mas havia algo ali. Um abismo entre o que ele sentia e o que permitia mostrar.
— Eu estou bem… obrigada — murmurei, sentindo o coração disparar.
Nosso olhar se prendeu por um segundo longo demais.
Ele avançou, pegou uma faca sobre o balcão, sem dizer nada. Começou a fatiar um limão ao lado da pia.
Ficamos em silêncio. O som da lâmina contra a tábua era quase hipnótico.
E então… aconteceu.
Fui pegar a frigideira quente. Ele se virou ao mesmo tempo, com o prato de salada. Nossos corpos se tocaram num leve esbarrão.
Apenas um toque.
Mas foi o suficiente.
Minha pele arrepios. O cheiro da pele dele, o calor. Tudo gritou dentro de mim.
Thiago parou. O corpo rígido. Mas não se afastou.
Seus olhos buscaram os meus, como se me desafiassem a dizer algo. A admitir que aquilo… tinha significado.
Mas ele nada disse.
E quando finalmente se afastou, senti o chão sob mim perder o equilíbrio.
Porque…
"Um toque acidental na cozinha... e meu corpo pegou fogo."