Manuela Morris
Hoje o sol despertava preguiçoso sobre as águas de Cabo Verde, e eu me encontrava imersa numa mistura de ansiedade e resignação. Era o dia do nosso casamento – o dia em que, de alguma forma, eu deveria selar a união com Collin, transformando toda aquela bagunça de acordos, dúvidas e mágoas em um compromisso formal. Mas, enquanto os preparativos corriam e os convidados chegavam, uma sombra insistente se aninhava em meu peito: a ausência esmagadora da minha família, que, lá em Moçambique, não poderia estar presente para me amparar.
Vestida com um elegante vestido branco que contrastava com os tons terrosos do local escolhido para a cerimônia, eu caminhava lentamente pelos corredores do antigo casarão adaptado para a celebração. Cada passo ecoava como uma batida do meu coração, e, a cada olhar que encontrava, sentia a urgência de justificar minhas escolhas. Em meio aos risos contidos dos convidados e ao som distante de um fado que parecia entoar melancolias, eu tentava, sem sucesso, silenciar a voz interior que me lembrava: “E se eu estiver cometendo um erro irreparável ao casar sem o abraço protetor da minha família?”
Ao chegar à pequena capela montada no jardim, o ambiente estava decorado com simplicidade e elegância – arranjos de flores tropicais e luzes suaves que desenhavam sombras dançantes nas paredes. Collin já me aguardava ao altar, com o semblante sério e os olhos carregados de uma emoção que oscilava entre a esperança e a inquietação. Ao meu lado, alguns parentes e amigos do noivo completavam o cenário, mas era impossível não notar a lacuna deixada por meus próprios entes queridos.
Enquanto eu me dirigia lentamente para o altar, o som de passos atrás de mim me fez virar a cabeça. Uma das madrinhas, a simpática Lara, aproximou-se e, num sussurro reconfortante, comentou:
— Manuela, eu sei que hoje tudo parece tão solene, mas tente sentir a energia positiva que está no ar. Mesmo que sua família não esteja aqui, eles estão contigo em pensamento e no coração.
Agradeci com um sorriso triste, mas a verdade era que cada palavra de Lara só reforçava a saudade. Pensei em minha mãe, no abraço apertado da minha irmã e nos conselhos sábios que sempre me guiavam – agora distantes, separados por um oceano que parecia intransponível. Eu desejava tanto poder ouvir, mesmo que por telefone, a voz carinhosa da minha avó dizendo que eu era capaz de superar qualquer obstáculo.
No altar, Collin estendeu a mão e, com um olhar que misturava alívio e cautela, sussurrou:
— Manuela, hoje é o nosso recomeço. Eu te amo e, mesmo que tudo pareça incerto, quero que acredite que farei o possível para te fazer feliz.
Eu me aproximei, sentindo o peso de cada palavra, e respondi, com a voz firme, mas trêmula de emoção:
— Collin, eu também te amo. Mas hoje, enquanto estamos aqui, sinto que precisamos carregar mais do que simples promessas – precisamos carregar a coragem de recomeçar, mesmo com todas as dúvidas.
O celebrante, um senhor de voz pausada e olhar atento, iniciou a cerimônia:
— Estamos aqui reunidos para celebrar a união de duas almas que, mesmo marcadas por cicatrizes do passado, encontram na responsabilidade e no compromisso a esperança de um futuro melhor. Hoje, Collin e Manuela, diante de todos, declaram seu desejo de construir uma vida juntos.
Enquanto ele prosseguia com as palavras, meus pensamentos vagueavam para a ideia de que aquele altar representava, para mim, muito mais que um simples contrato matrimonial. Era a prova de que, apesar de todos os acordos e cláusulas que selaram nossa união de forma tão fria e burocrática, ainda restava um resquício de humanidade, um fio tênue de amor que insistia em se manter vivo.
No entanto, a cerimônia também trazia à tona minhas dúvidas mais profundas. Em um dos intervalos, durante a troca de votos, eu não pude deixar de pensar: “E se um dia eu me olhar no espelho e não reconhecer a mulher que se sacrificou para manter essa união? E se a solidão da ausência da minha família se tornar insuportável?” Essas perguntas se misturavam aos versos que eu pronunciava, criando um conflito interno que ameaçava transbordar em lágrimas.
Quando chegou a hora de trocar os votos, Collin começou:
— Manuela, eu prometo cuidar de nossos filhos, de nossa união e, mesmo que o caminho seja árduo, não me permitirei ser dominado pelo medo do passado. Hoje, eu me entrego a esse compromisso, com a esperança de que possamos, juntos, encontrar um equilíbrio.
Eu respirei fundo e, olhando diretamente em seus olhos, respondi:
— Collin, hoje eu me entrego a esse compromisso, não por obrigação, mas porque ainda acredito que há um espaço para a verdade e para o respeito entre nós. Prometo lutar para preservar minha dignidade e, mesmo que a ausência dos meus entes queridos me fira, seguirei em frente com a convicção de que sou capaz de construir algo que valha a pena.
Alguns murmúrios de aprovação se espalharam entre os convidados, mas por detrás dos aplausos, eu sentia o eco dos silêncios que ficavam na minha alma – o silêncio daqueles que não podiam estar aqui para me apoiar.
Após a troca dos votos, o celebrante anunciou que era chegado o momento da assinatura dos documentos que formalizavam nossa união. Em uma sala reservada, onde os detalhes do acordo pré-nupcial ainda pairavam como uma lembrança amarga, sentamos juntos para assinar os papéis que, em teoria, selavam nosso destino. Collin segurava minha mão com uma firmeza que tentava transmitir segurança, mas eu sabia que, naquele instante, também carregava um peso de incertezas.
— Manuela, hoje damos um passo importante – disse ele, com a voz embargada. — Eu sei que esse contrato pode parecer frio e impessoal, mas é a nossa proteção. Eu preciso ter certeza de que não repetirei os erros do passado.
Eu olhei para o documento, os parágrafos minuciosamente escritos, e respondi:
— Collin, eu assino esse acordo com a condição de que ele reconheça, mesmo que minimamente, o que eu represento. Não serei tratada como nada, nem como um mero adereço para proteger seu patrimônio. Se é para caminhar juntos, que seja com igualdade e respeito mútuo.
Nesse momento, enquanto a caneta deslizava sobre o papel, senti uma mistura agridoce de alívio e tristeza. Eu estava oficializando uma união que, apesar de todas as intenções de proteger o futuro dos nossos filhos, carregava em si as marcas de uma história repleta de dúvidas e cicatrizes. E, enquanto assinava, não pude deixar de pensar em como seria o futuro sem o aconchego dos abraços familiares – sem o olhar compreensivo da minha mãe ou o riso contagiante da minha irmã.
O clima na sala era carregado de formalidade e, ao mesmo tempo, de uma tensão quase palpável. Após a assinatura, Collin se aproximou e sussurrou:
— Manuela, sei que este momento não é perfeito, mas prometo que farei tudo para que possamos transformar essas incertezas em confiança. Eu te amo.
Eu forcei um sorriso, tentando esconder as lágrimas que ameaçavam cair:
— Eu também te amo, Collin. Mas hoje, enquanto este contrato selamos, sinto a ausência de minha família como um vazio que nada pode preencher. Eles estão em Moçambique, e, mesmo que eu saiba que estão comigo em pensamento, a distância machuca.
Collin apertou minha mão com mais força e respondeu:
— Eu sei, e lamento que sua família não possa estar aqui hoje. Talvez, com o tempo, possamos encontrar uma forma de aproximá-los novamente, para que você sinta todo o apoio que merece.
Enquanto os convidados se reuniam para celebrar o término da cerimônia com um brinde, fui levada a um canto silencioso do casarão. Ali, longe do burburinho e dos cumprimentos, permiti que minhas emoções fluíssem livremente. Sentei-me em uma poltrona antiga, e o som distante dos risos e das conversas não conseguia abafar o turbilhão interno. Lembrei-me das inúmeras vezes em que minha família me disse para nunca abrir mão de meus valores, para lutar pelo que eu acreditava ser justo – e hoje, essa luta parecia ter se materializado naquele contrato que eu assinara com o coração apertado.
Em meio a esse turbilhão de sentimentos, fui surpreendida pela aproximação de uma parente distante de Collin, que, num tom amistoso, comentou:
— Manuela, sei que este dia está carregado de emoções. Eu sei que sua família não pôde vir, mas saiba que você é uma mulher forte e capaz. Espero que, com o tempo, você encontre a paz que merece.
Aquelas palavras, simples e sinceras, trouxeram um conforto momentâneo. Eu sorri agradecida, mesmo que por instantes, e respondi:
— Obrigada. Eu só desejo que, de alguma forma, essa união não me faça esquecer quem eu sou, nem me leve a renunciar aos meus direitos e ao meu valor como pessoa.
O dia se desenrolava com uma solenidade que misturava a esperança de um novo começo e a dor de velhas feridas. Durante a recepção, enquanto os pratos eram servidos e os brindes se sucediam, eu me via dividida entre o dever de celebrar e a necessidade de processar as minhas incertezas. Em um dos momentos de pausa, Collin se aproximou novamente, desta vez com um olhar que tentava disfarçar a própria angústia:
— Manuela, hoje foi um dia importante. Mas me diga, como você se sente, realmente?
— Sinto que, mesmo selando nosso compromisso, há algo que falta – confessei, baixando a voz. — Sinto a ausência da minha família, o eco dos conselhos que sempre me guiavam, e uma dúvida incessante: será que estou me perdendo no caminho?
Collin segurou meu braço gentilmente e disse:
— Eu entendo, e lamento muito que sua família não esteja aqui. Mas, por favor, acredite que juntos podemos construir algo que transcenda as dores do passado. Eu estou disposto a lutar para que você se sinta valorizada, amada e, acima de tudo, respeitada.
Ouvindo aquelas palavras, senti uma centelha de esperança, embora a sombra das incertezas persistisse. O casamento, com toda a sua formalidade e os contratos que o cercavam, era apenas o primeiro capítulo de uma longa jornada – uma jornada que eu não escolhi por vontade de ser refém de promessas vazias, mas por acreditar que, mesmo nas circunstâncias mais complexas, o amor e o respeito poderiam encontrar um caminho para florescer.
Ao final do dia, quando os convidados já haviam se despedido e a festa se transformava num silêncio repleto de memórias, caminhei até a varanda para contemplar o mar. As ondas batiam ritmadas, como se quisessem sussurrar segredos de renovação e mudança. Lágrimas silenciosas rolavam pelo meu rosto, mas não eram apenas de tristeza – eram de uma determinação que eu m*l conseguia compreender. Eu havia selado uma união marcada por acordos e incertezas, mas também pelo desejo de ser reconhecida e de lutar por um futuro onde, mesmo distante da minha família, eu pudesse encontrar forças para ser a mulher que sempre acreditei ser.
Hoje, enquanto o céu se tingia dos últimos vestígios do crepúsculo, percebi que o casamento não era o fim, mas o início de um novo capítulo. Um capítulo repleto de desafios, sim, mas também de oportunidades para transformar cada dúvida em aprendizado, cada ausência em motivação para buscar a presença – interna e emocional – que realmente importa.
E assim, com o coração ainda pulsando de inseguranças, mas com a firme intenção de não me deixar definir pela distância daqueles que amo, encerrei este dia com a convicção de que, apesar das imperfeições e dos acordos que tentam me reduzir a algo menor, eu continuarei a lutar pela minha dignidade e pelo direito de ser feliz. Afinal, o verdadeiro valor de uma união não se mede por contratos ou cláusulas, mas pelo respeito mútuo, pelo amor que se constrói a cada dia e pela coragem de encarar, de frente, os desafios que o destino nos impõe.