Manuela Morris
O telefone tremia em minhas mãos. O nome “Mamã” brilhava na tela, e meu coração batia contra o peito como um tambor de guerra. Eu havia adiado essa conversa por tempo demais. Agora, casada, já não havia como esconder a verdade. Mas como explicar para minha mãe que eu havia me casado sem a presença dela? Pior ainda, como explicar que eu agora era esposa de Collin, meu antigo chefe, um homem que ela desprezava?
Respirei fundo antes de tocar no botão de chamada de vídeo. A conexão demorou alguns segundos e, quando a tela iluminou-se com o rosto de minha mãe, um aperto se formou em minha garganta.
— Manuela, minha filha! — A voz dela transbordava saudade e carinho. — Finalmente resolveu lembrar que tem mãe?
Eu ri, nervosa, mas logo minha expressão séria tomou conta do momento.
— Mamã, eu nunca te esqueci. Você sabe que te amo.
— Então por que desapareceu? Já faz semanas que não me liga direito.
Engoli em seco. Como começar? Como dizer? Resolvi ir direto ao ponto.
— Mamã, eu preciso te contar uma coisa… Eu me casei.
O silêncio foi instantâneo. Um segundo. Dois. Três. O rosto de minha mãe congelou, como se o tempo tivesse parado. Os olhos dela, antes carinhosos, tornaram-se duros, desconfiados.
— O quê? — A voz dela saiu num tom baixo, mas carregado de incredulidade.
— Eu me casei, mamã. Oficialmente.
Ela piscou várias vezes, como se tentasse processar a informação. Então, como se de repente um vulcão tivesse entrado em erupção, sua voz explodiu:
— Você ficou maluca, Manuela?! Como assim casou? E sem a sua família? Como você teve coragem de fazer isso sem mim?
— Mamã, eu…
— NÃO! — Ela me interrompeu, a fúria clara em cada sílaba. — Isso não pode estar acontecendo. Me diga que isso é uma brincadeira de mau gosto!
— Eu queria ter te contado antes, mas foi tudo muito rápido.
— Quem é o infeliz? — O olhar dela faiscou com suspeita e revolta.
Eu hesitei. Esse era o pior momento.
— É… é o Collin.
O silêncio voltou. Um silêncio pesado, cortante. Minha mãe piscou lentamente, os olhos arregalados, a boca ligeiramente aberta, como se tivesse ouvido o absurdo mais inacreditável do mundo.
— O quê? — Ela repetiu, a voz saindo mais rouca, quase sem fôlego.
— Mamã, eu sei que é difícil de aceitar, mas…
— Difícil de aceitar? — Ela riu, mas não era um riso de humor. Era um riso amargo, carregado de dor e incredulidade. — Manuela, você enlouqueceu?! Você se casou com aquele homem?!
— Mamã, me escuta…
— ESCUTAR O QUÊ?! — Ela gritou. — Como pode me pedir para escutar algo tão absurdo? Aquele homem te destruiu, Manuela! Te fez chorar, te humilhou! E agora você me aparece casada com ele?!
— As coisas mudaram, mamã.
— Mudaram?! Como mudaram?! Ele comprou você? Te ameaçou? Me diga que isso não foi algo forçado, porque eu não consigo entender!
As palavras dela doíam como facas cravando no meu peito. Eu sabia que minha mãe não aceitaria isso facilmente, mas vê-la tão furiosa, tão decepcionada, me fazia sentir ainda pior.
— Não foi forçado, mamã. Eu aceitei esse casamento.
— Por quê?! — Ela gritou novamente, os olhos brilhando de raiva e… mágoa. — Por que faria algo tão e******o?
Engoli em seco. Como explicar? Como colocar em palavras tudo o que acontecera entre mim e Collin?
— Porque eu o amo.
Minha mãe bufou, jogando as mãos para o alto em um gesto de total indignação.
— Ah, claro! Você o ama! Como uma garotinha ingênua! Ele deve estar rindo agora, feliz porque conseguiu te fazer de tola!
— Para com isso, mamã! — Minha voz saiu mais alta, cheia de frustração. — Eu sei o que estou fazendo!
— Não, você NÃO sabe! — Ela rebateu. — Esse homem já mostrou quem ele é! Já provou que não se importa com ninguém além de si mesmo. E você foi se jogar nos braços dele?!
— Ele mudou!
— Ninguém muda, Manuela. Homens como ele só melhoram a manipulação.
Cada palavra dela era um golpe. Meu coração apertava-se mais e mais.
— Eu queria que você me apoiasse… — Minha voz falhou.
— Apoiar? Como posso apoiar uma decisão que eu sei que vai te machucar? Como posso ficar feliz quando sei que você está prestes a sofrer de novo?
Eu passei as mãos pelo rosto, tentando segurar as lágrimas.
— Mamã, eu estou cansada de brigar. Eu só queria que você aceitasse minha decisão.
— Não me peça isso, Manuela. — A voz dela agora era mais baixa, mas cheia de dor. — Eu nunca vou aceitar esse casamento. Nunca.
Meu coração se partiu ao ouvir isso.
— Então é assim? Você vai simplesmente me virar as costas?
— Não estou virando as costas, minha filha. Mas eu sou sua mãe. Eu conheço você. Eu sei que você está cometendo um erro terrível.
— Você pode estar errada.
— Eu queria estar. — Ela suspirou, os olhos marejados. — Mas eu te conheço, Manuela. E conheço homens como Collin.
Eu não sabia o que dizer. Parte de mim queria gritar, queria argumentar, queria convencê-la. Mas outra parte… outra parte sabia que minha mãe sempre teve uma intuição afiada.
— Eu te amo, mamã.
— Eu também te amo. E por isso eu sofro. Porque sei que ainda vou te ver chorar por esse homem.
As lágrimas finalmente escaparam dos meus olhos.
— Eu só queria que você me apoiasse…
— E eu só queria que você enxergasse a verdade antes que fosse tarde demais.
Nos olhamos por alguns segundos, ambas feridas, ambas magoadas. Eu sabia que essa conversa não acabaria bem, mas não esperava que doesse tanto.
— Eu preciso ir. — Ela disse, sua voz fria agora. — Preciso de um tempo para processar isso.
— Mamã…
— Adeus, Manuela.
E então, a tela ficou preta. A ligação caiu.
Eu fiquei ali, segurando o telefone como se pudesse trazê-la de volta. Mas sabia que nada que eu dissesse agora mudaria sua opinião.
Respirei fundo, sentindo a dor do afastamento se espalhar pelo meu peito. Eu sabia que minha mãe só queria me proteger. Mas Collin não era o monstro que ela imaginava. Ele havia mudado. Ele me amava.
Então, por que meu coração ainda doía tanto?
Fiquei parada ali, segurando o telefone, com o peito apertado e a mente em um turbilhão. As palavras da minha mãe ecoavam na minha cabeça como um disco arranhado:
"Eu nunca vou aceitar esse casamento. Nunca."
A dor no tom dela me atingiu mais do que eu queria admitir. Eu sabia que ela teria uma reação negativa, mas ouvir a decepção em sua voz foi um golpe duro. Meu casamento já não era exatamente como eu havia sonhado, e agora, sem o apoio dela, parecia ainda mais frágil.
Respirei fundo, tentando me recompor. Mas antes que eu pudesse sequer enxugar as lágrimas, a porta do quarto se abriu, e Collin entrou.
— Manuela? — Ele franziu a testa ao me ver. — O que aconteceu?
Virei o rosto rapidamente, limpando as lágrimas com a palma da mão.
— Nada.
— Não parece ser nada. — Ele fechou a porta atrás de si e caminhou até mim, os olhos azuis analisando meu rosto. — Você está chorando.
Suspirei pesadamente, sem vontade de discutir.
— Conversei com minha mãe.
Ele ficou em silêncio por um momento.
— Ela não reagiu bem.
Não era uma pergunta, e sim uma constatação.
— Ela me odeia agora. — Minha voz saiu amarga.
Collin soltou um suspiro, passando a mão pelos cabelos.
— Ela não te odeia. Ela só está irritada. Vai passar.
Eu ri, sem humor.
— Não, não vai. Ela deixou bem claro que nunca vai aceitar esse casamento.
— Então, deixe que ela tenha o tempo dela. Não há nada que possamos fazer para mudar isso agora.
Ele falava como se fosse algo simples, mas para mim, não era.
— Ela é minha mãe, Collin. Eu queria que ela estivesse do meu lado.
Ele se sentou na beira da cama, observando-me por alguns segundos antes de falar:
— Você não precisa da aprovação dela. Você é adulta, tomou sua decisão. Agora é seguir em frente.
Suas palavras só fizeram meu peito pesar mais. Seguir em frente? Como se fosse tão fácil.
— Não quero falar sobre isso agora. — Murmurei, me afastando.
Ele me observou por um momento, mas então mudou de assunto.
— Certo. Então vamos falar sobre nossa lua de mel.
Eu franzi o cenho.
— Lua de mel?
Ele assentiu, pegando um envelope de dentro do bolso do paletó e me entregando.
— Sim. Vamos para as Maldivas.
Minha boca se abriu em choque.
— O quê?
— Uma viagem de duas semanas. Partimos amanhã de manhã.
Fiquei parada, segurando o envelope sem saber o que dizer. Eu não esperava por isso.
— Collin, eu… eu não quero ir.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Não quer ir?
— Não. — Balancei a cabeça, sentindo um aperto no peito.
— Por que não? — Sua voz soou mais dura agora.
Eu fechei os olhos por um momento, tentando organizar meus sentimentos.
— Porque eu não estou no clima. Acabei de brigar com minha mãe, minha cabeça está uma bagunça. A última coisa que eu quero agora é fingir que está tudo bem e ir para uma viagem romântica.
Ele me encarou, seus olhos ficando mais frios.
— Isso não é sobre fingir. É sobre nós. Somos recém-casados, e isso faz parte do processo.
— Mas eu não me sinto bem para viajar agora.
— Manuela, já está tudo reservado.
— Então vá sozinho.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Você está brincando, não está?
Cruzei os braços, me mantendo firme.
— Não estou. Eu simplesmente não quero ir.
Seus olhos se estreitaram, e a tensão no quarto aumentou.
— Você sabia que um casamento exige compromisso, certo?
— E você sabia que um casamento também exige compreensão? — Retruquei, sentindo a frustração crescer dentro de mim.
Ele respirou fundo, visivelmente irritado.
— Então é assim que vai ser? Vamos começar nosso casamento com você fugindo de mim?
— Não estou fugindo! Eu só quero um tempo para processar tudo!
— Processar o quê, Manuela? — Sua voz estava mais áspera agora. — Você tomou essa decisão. Você escolheu se casar comigo. Não entendo por que está agindo como se fosse uma prisioneira.
Fiquei em silêncio por um momento, sentindo meu coração apertar.
— Porque, às vezes, é assim que eu me sinto.
As palavras saíram antes que eu pudesse segurá-las. E, assim que as disse, vi algo mudar na expressão dele.
Por um segundo, um lampejo de algo parecido com mágoa passou por seus olhos. Mas logo foi substituído por frieza.
— É assim que se sente?
Engoli em seco, percebendo a gravidade do que eu havia dito.
— Collin, eu não quis dizer dessa forma…
— Não? — Ele se levantou, sua postura rígida. — Porque foi exatamente isso que pareceu.
O silêncio entre nós era sufocante.
— Sabe de uma coisa? — Ele disse, pegando o envelope de volta da minha mão. — Se você não quer ir, então ótimo. Fique aqui. Mas não me culpe quando perceber que está sabotando algo que poderia ser bom.
E, sem esperar resposta, ele se virou e saiu do quarto, batendo a porta atrás de si.
Fiquei ali, sozinha, sentindo uma mistura de raiva, tristeza e confusão.
Eu sabia que tinha machucado Collin com minhas palavras, mas também sabia que ele não entendia o que eu estava sentindo.
Suspirei, sentindo uma lágrima escorrer pelo meu rosto.
Nosso casamento m*l havia começado, e já estávamos quebrados.