Sinto o peso do silêncio no carro enquanto deixamos o hospital para trás. O som constante do motor e o farfalhar tímido da chuva na lataria parecem marcar o compasso dos meus pensamentos inquietos. Collin dirige em silêncio, o olhar fixo na estrada à frente, enquanto as luzes da cidade se desfazem em manchas borradas pela janela.
Após alguns minutos de tensão quase palpável, ele finalmente rompe o silêncio, a voz embargada por dúvidas e emoções contidas:
— Manuela, eu… eu preciso te perguntar uma coisa. (A mão dele treme ligeiramente sobre o volante.) Esses bebês, serão realmente meus?
Minhas mãos se apertam no encosto do banco, tentando segurar o turbilhão que se forma dentro de mim. Sinto um frio percorrer minha espinha, e minhas palavras saem trêmulas:
— Collin, eu… Eu te juro que eles são seus. Cada batida do meu coração confirma isso.
Ele solta um suspiro longo, e por um instante o silêncio volta a dominar o carro. Então, com os olhos fixos na imensidão da estrada, ele insiste:
— Mas cinco meses se passaram, Manuela. Você se foi, e eu fiquei aqui, sem nada além das dúvidas. Como posso ter certeza de que tudo isso… que nós realmente vivemos aquilo juntos?
A pergunta dele ecoa em mim, e por um momento, sinto como se o tempo tivesse desacelerado. A lembrança de cada despedida, de cada instante de medo, volta com força. Tento encontrar as palavras certas, mas minha voz falha ao responder:
— Eu não poderia ter contado antes porque… porque tinha medo, Collin. Medo de ser rejeitada, de reviver aquele momento de humilhação. Mas eu nunca duvidei da nossa história, nem um segundo. Esses bebês são fruto do que fomos, do que sentimos…
Ele ergue a cabeça, e o ceticismo se mistura à angústia em seus olhos. O carro desacelera enquanto nos aproximamos de um portão imponente, adornado com detalhes que refletem luxo e tradição. A mansão de Collin se ergue à nossa frente, silenciosa e imponente, como se guardasse segredos de um passado que ainda insiste em nos assombrar.
— Chegamos — diz ele, com a voz ainda tensa, mas com uma determinação que não consigo decifrar.
Entramos no carro novamente, e enquanto a porta se fecha, o espaço confinado parece intensificar cada batida do meu coração. No trajeto pelos corredores da mansão, os passos ecoam em mármore polido, e o ambiente opulento contrasta violentamente com o caos que sinto por dentro.
Sentamo-nos na ampla sala de estar, onde o silêncio se mistura com a luz fraca das lâmpadas pendentes. Collin se senta à minha frente, e por um instante, o ar parece pesar mais do que nunca. Ele finalmente quebra o olhar e me encara com uma mistura de incerteza e amargura.
— Manuela, — começa ele, a voz baixa e quase rouca, — eu não posso deixar de pensar… E se, de alguma forma, eu estiver enganado? Se esses bebês não forem realmente meus? Se tudo isso for fruto de um erro ou de um acaso?
Sinto uma pontada aguda no peito. Luto para conter a emoção, mas minhas palavras escapam com sinceridade e dor:
— Collin, eu sei que tudo parece absurdo agora. Mas eu sinto cada movimento, cada batida dentro de mim e… isso me diz que somos nós. Que o que compartilhamos se materializou ali, de forma irrefutável.
Ele se afasta por um breve instante, como se quisesse se proteger do peso da verdade. Seus olhos procuram os meus, buscando algo que lhe dê segurança. A tensão no ambiente é palpável, e a luminosidade suave do ambiente m*l esconde a batalha interna que ele trava.
— Eu… — ele hesita, os dedos tamborilando na mesa de mármore — eu só quero ter certeza de que não estou me enganando. Você entende? São tantas incertezas, e agora, cada dúvida se transforma em um abismo. Como posso ser o pai desses meninos se não tenho a certeza absoluta?
A voz dele se mistura com o som distante da chuva lá fora, e cada palavra soa como um lembrete do abismo que se abriu entre nós. Fecho os olhos por um instante, tentando encontrar calma nas lembranças boas, na esperança de um futuro que, de alguma forma, ainda possa ser nosso.
— Collin, — digo suavemente, inclinando-me para encará-lo, — eu não escolhi esconder a verdade por maldade. Eu escolhi fugir por medo. Medo do teu desprezo, do julgamento, do fracasso. Mas te peço: confie em mim, confie no que vivemos. Eu não faria isso se não acreditasse no que temos, nem mesmo diante das incertezas.
Seus olhos se estreitam, e por um momento, vejo o conflito se refletir neles – a batalha entre o orgulho ferido e a esperança de redenção. Ele suspira, e os ombros caem levemente, como se a dúvida pesasse demais.
— Talvez eu seja cego por tanto orgulho, Manuela. Mas não consigo evitar pensar que… que esses bebês possam ser fruto de outra coisa, algo que eu nunca vi, nunca senti. (Sua voz vacila, revelando uma vulnerabilidade que raramente se deixa notar.) Eu preciso acreditar que sou digno de ser pai deles, mas como posso se ainda há essa sombra de dúvida?
O ambiente parece encolher ao redor de nós, e o som distante da chuva agora se mistura com o bater acelerado do meu coração. Dou um passo à frente, tentando transpor o abismo que suas palavras criaram:
— Eu te peço, Collin, não deixe que essa dúvida destrua o que ainda podemos ter. Olhe para mim: eu estou carregando os nossos filhos, e a cada movimento, eu sinto a vida que cresce dentro de mim. Essa vida não é fruto do acaso. É fruto de nós, dos nossos momentos, mesmo que imperfeitos.
Por alguns longos instantes, o silêncio se faz absoluto. Finalmente, ele se afasta um pouco, como se as minhas palavras tivessem conseguido penetrar a muralha que erguera em torno de si.
— Eu quero acreditar em você, Manuela. Mas o medo… o medo de estar errado, de errar de novo, é enorme. — A voz dele se embarga, e percebo que, por trás de toda a rigidez, há um homem machucado, tentando encontrar um caminho de volta para si mesmo.
Coloco a mão sobre a dele, num gesto silencioso de afeto e de apelo:
— Então, permita que a gente descubra juntos. Não preciso de um milagre para saber que essa gravidez é real. Preciso de você, Collin, de um voto de confiança para que possamos enfrentar essas incertezas lado a lado. Esses bebês não são apenas parte de mim, são parte de nós.
Os olhos dele se enchem de lágrimas contidas, e por um instante, o orgulho e a dúvida se fundem num misto de arrependimento e esperança. A chuva continua lá fora, como se lavasse, ainda que timidamente, os resquícios do nosso passado conturbado.
— Talvez… talvez eu precise deixar de lado essas dúvidas e encarar a realidade, — diz ele, a voz ainda trêmula, mas com um brilho incipiente de aceitação. — Eu perdi cinco meses, Manuela, e não posso perder mais nenhum momento tentando descobrir se sou digno de ser pai. Quero estar presente, de corpo e alma.
Sinto um alívio tênue, embora a incerteza persista. Ainda há uma batalha a ser travada entre o medo e a confiança, entre o orgulho e o amor que um dia compartilhamos. Mas, naquele instante, enquanto a mansão silenciosamente testemunha nosso reencontro, permito-me sonhar com a possibilidade de recomeço.
Enquanto Collin se aproxima devagar e, com cuidado, recoloca a mão sobre meu braço, percebo que, mesmo envoltos em dúvidas e feridas abertas, há uma centelha que insiste em brilhar – a esperança de que, juntos, possamos encontrar a verdade que nos une, transformando incertezas em um caminho para a redenção e para o verdadeiro amor.
E assim, entre os ecos de nossas vozes e os sussurros da chuva, começo a acreditar que talvez, finalmente, possamos deixar as dúvidas para trás e construir algo novo, mesmo que os fantasmas do passado ainda insistam em nos assombrar.