A sala de estar da mansão de Collin era ampla, fria e imponente. As paredes decoradas com retratos de ancestrais pareciam nos julgar, como se cada olhar pintado cobrasse a verdade dos nossos passos. Senti o peso do ambiente – e, sobretudo, o peso da história que nos unira de forma tão c***l – enquanto ele permanecia sentado em uma poltrona de couro escuro, os dedos tamborilando nervosamente na mesa de mármore.
— Manuela, eu… — Collin começou, a voz hesitante, quase sufocada pelo silêncio que se instalara entre nós.
Respirei fundo, tentando reunir forças para falar. Não éramos amantes, não tínhamos um romance; éramos dois estranhos que, por um impulso, passaram a noite juntos e agora teriam dois filhos. E, como se isso não bastasse, ele havia me demitido assim que soube daquilo. Eu não conseguia deixar de reviver a humilhação daquele dia, o frio na espinha, o desprezo estampado em seus olhos enquanto me dispensava sem cerimônia.
— Você quer casar comigo? — a pergunta dele pairou no ar, abrupta e quase irônica, como se aquilo fosse uma simples formalidade para reparar os danos.
Minhas mãos tremiam, e, sem conseguir controlar a revolta que fervia por dentro, eu soltei:
— Você me acusa de os nossos não são seus, mas quer casar comigo?
Aquelas p************s e carregadas de mágoa, cortaram o silêncio. Collin arregalou os olhos, e por um breve instante, a postura rígida que sempre adotara pareceu vacilar. Ele inclinou-se para a frente, tentando explicar:
— Não é assim, Manuela. Eu… eu estou tentando resolver tudo da melhor forma possível. Preciso ter a certeza de que esses bebês, de fato, são meus. Você sabe que, depois daquela noite, eu não podia aceitar a situação como estava.
— Resolver? — interrompi, minha voz tremendo tanto de raiva quanto de tristeza. — Você me demitiu no mesmo instante em que descobriu que passamos a noite juntos, e agora, depois de tudo o que passamos, quer me obrigar a um casamento forçado? Como se um pedaço de papel pudesse apagar o que você fez!
Collin suspirou, esfregando as têmporas com um gesto que misturava cansaço e frustração.
— Não se trata de “obrigar”, Manuela. É uma questão de responsabilidade. Não estou propondo um casamento por amor ou por romance – nós sabemos que isso nunca foi o nosso caso – mas porque esses filhos precisam de estabilidade. Eu não posso me dar ao luxo de viver com a dúvida de que não sou o pai deles. Você entende, não é?
Eu ri, uma risada amarga e sem humor.
— Estabilidade? Você fala de estabilidade enquanto tenta apagar a verdade com um anel e um contrato? Eu sei que não somos nada próximos – nem éramos sequer – mas não me venha com essa conversa de “responsabilidade” como se o fato de termos passado uma noite juntos fosse a mesma coisa de um relacionamento real.
Collin permaneceu em silêncio por um momento, os olhos fixos no retrato de um de seus antepassados que enfeitava a parede. Então, num impulso de raiva contida, ele disse:
— Você quer que eu aceite uma paternidade que nem sequer tenho certeza? Você sabe quantas dúvidas corroem a minha mente? Cinco meses se passaram, e ainda não consigo entender como tudo isso pôde acontecer sem que você me contasse a verdade logo de cara!
— Verdade! — retruquei, levantando-me e caminhando de um lado para o outro, incapaz de me manter parada diante da injustiça. — Você não me procurou, Collin. Você me expulsou do seu mundo assim que descobriu que aquela noite… aquela única noite – nada mais do que um erro – mudou tudo. E agora, de repente, você quer apagar esse erro com um casamento?
Ele se levantou também, e a tensão aumentou de forma palpável. Seus olhos, normalmente frios e calculistas, agora revelavam um turbilhão de emoções – dúvida, medo, e, quem sabe, um resquício de arrependimento.
— Eu não estou tentando apagar nada, Manuela. Estou tentando construir algo, por mais estranho que pareça. Esses bebês precisam de um pai, e eu preciso ter a certeza de que eles realmente são meus. Se você tivesse sido honesta desde o início, talvez eu não estivesse tão dilacerado por dentro.
— Honesta? — minha voz se elevou, carregada de amargura. — Você se lembra de como me tratou? Lembra-se de como me humilhou e me demitiu sem sequer considerar os sentimentos ou o que poderia ter sido uma explicação? Você me condenou, e agora quer que eu aceite essa solução como se nada tivesse acontecido!
O ambiente parecia vibrar com a intensidade das nossas palavras. Collin deu um passo em minha direção, tentando, de alguma forma, se aproximar para argumentar.
— Não se trata apenas de sentimentos, Manuela. Trata-se da vida que estamos criando. Eu sei que errei, mas preciso que você entenda: não estou propondo um casamento por capricho. Estou propondo um compromisso para que possamos, juntos, cuidar desses filhos.
— Cuidar? — respondi com voz fria, dando um passo para trás. — Você não sabe nada sobre cuidar de alguém, Collin. Nunca me apoiou quando eu precisava. Você só pensa em si mesmo, nos seus interesses, no seu orgulho. E agora, de repente, quer assumir uma responsabilidade que nem sequer reconhece de verdade.
Houve um instante de silêncio enquanto nossos olhares se fixavam, cada um refletindo mágoa e desconfiança. Collin respirou fundo, como se quisesse encontrar palavras que fizessem jus ao turbilhão interno.
— Olha, Manuela, eu entendo sua revolta. Sei que tudo isso é um absurdo para você. Mas pense: dois filhos, uma situação que ninguém planejou. Não posso simplesmente me afastar e deixar que a dúvida me consuma. Tenho que tentar, mesmo que isso signifique enfrentar a dor do que fiz.
— Enfrentar? — minha voz se quebrou ligeiramente, revelando a tristeza que eu tentava esconder. — Você acha que enfrentar é forçar um casamento? Que assumir uma união selada por um compromisso forçado vai consertar tudo? Você me acusa de ser desonesta, de esconder a verdade sobre os nossos filhos, e agora quer que eu finja que tudo está bem?
Collin balançou a cabeça, os ombros se curvando como se o peso do mundo repousasse sobre eles.
— Não finja, Manuela. Eu quero que sejamos honestos um com o outro – mesmo que a verdade doa. Quero que esses filhos saibam de onde vieram e que possam contar com a presença de um pai que, apesar de tudo, está disposto a se responsabilizar.
— Responsabilizar? Você fala como se eu fosse a culpada por tudo, como se fosse minha responsabilidade resolver o que aconteceu naquela noite!
— E você, Collin, parece esquecer que também é você o responsável. Lembra-se de como me expulsou, como me humilhou publicamente? Como eu fui deixada sem emprego, sem um rumo?
— Eu agi naquele momento com o que tinha –
— Com o que tinha? Com orgulho e arrogância! Você nunca quis me ver como alguém com valor. Nunca quis me ver além do erro daquela noite!
A tensão aumentava a cada palavra trocada. O silêncio que se seguiu parecia romper a atmosfera, deixando-nos expostos às verdades que tentávamos evitar. Collin, com os olhos marejados, perguntou:
— Então, o que você quer?
— Eu quero ser respeitada, Collin. Quero que reconheça que, mesmo que nada tenha sido planejado, esses filhos são resultado de algo real, mesmo que nós sejamos apenas dois estranhos que se cruzaram por uma noite. Quero que assuma a responsabilidade sem tentar me forçar a algo que não cabe a nós dois.
— Mas como você espera que eu faça isso? Você quer que eu simplesmente aceite ser pai sem, ao mesmo tempo, me comprometer com um casamento?
— Eu não estou pedindo que aceite nada que vá contra a minha liberdade, nem que se torne parte de um casamento por obrigação. Estou pedindo que encare a realidade: agora temos duas vidas interligadas. Se você não quer casar comigo, pelo menos esteja presente na vida dos nossos filhos.
Collin respirou profundamente, os olhos perdidos por um instante no vazio da sala. Quando voltou a me olhar, sua voz tremia, carregada de insegurança:
— Eu tenho medo, Manuela. Medo de estar enganando a mim mesmo, de estar forçando algo que nunca existiu.
— E eu tenho medo, Collin, medo de viver sob a sombra de um erro que nunca pude consertar. Você me acusa de que os nossos filhos não são seus, mas agora quer casar comigo como se fosse a solução para todos os problemas?
— Eu não disse que era solução. Digo que é um passo para que possamos, ao menos, enfrentar a situação de forma conjunta. Você sabe que, sem mim, as coisas ficarão ainda mais difíceis.
— Difíceis? Eu consigo cuidar de mim e das crianças!
— Mas a responsabilidade de ser pai vai além do cuidado material, Manuela. Vai além da presença física. Precisa haver um compromisso –
— Um compromisso que você tenta impor do nada, sem sequer considerar o que eu sinto. Você me obriga a algo que não escolhi!
— Não estou tentando te obrigar, mas a oferecer uma chance de, mesmo que de forma burocrática e fria, construir uma base para os nossos filhos.
— Base? Você não entende: não quero uma base construída sobre mentiras, sobre o orgulho ferido e a humilhação que você me impôs!
— Então o que sugere?
Eu encarei-o, os olhos cheios de lágrimas que lutavam para não cair, e respondi com voz firme, mesmo que o coração estivesse em frangalhos:
— Sugiro que cada um siga o seu caminho, mas com a responsabilidade de estar presente na vida daqueles que, de alguma forma, nos ligam para sempre. Não quero um casamento, Collin. Não quero ser obrigada a um compromisso que nem sequer reflete o que somos.
Ele ficou em silêncio por um longo tempo, como se pesasse cada palavra. Finalmente, num sussurro quase inaudível, ele disse:
— Você realmente acha que é possível viver assim? Como estranhos, cada um seguindo o seu rumo, tentando conciliar a paternidade e a maternidade sem se unir de verdade?
— Talvez não seja o ideal, mas pelo menos seria honesto. Eu não quero viver sob o manto de um casamento forçado, onde o amor foi substituído pela necessidade e pelo orgulho ferido.
Collin apertou os punhos, e pude ver a luta interna em seus olhos.
— Então, o que você espera de mim?
Pousei a mão sobre a mesa, encarando-o com toda a determinação que ainda restava.
— Espero que, pelo menos, se comprometa a ser um pai presente. Não me peça que assine um contrato, que coloque um anel no dedo e finja que tudo volta ao normal. Eu preciso da sua participação, do seu reconhecimento, mas não de um casamento.
Ele olhou para mim, a expressão dura, mas repleta de dúvidas e feridas abertas.
— Eu sei que errei, e sei que te magoei de formas que talvez jamais possas esquecer. Mas, se não for por esse laço – mesmo que forçado – temo que esses filhos cresçam sem a figura de um pai que lute por eles.
— Esses filhos não são um troféu para serem exibidos, Collin! Eles são seres humanos, fruto de um momento de fraqueza ou de impulso, e não de um romance. Nós não tivemos amor; tivemos apenas um encontro que mudou tudo.
— Mas como negar que, de alguma forma, fomos responsáveis por uma vida?
— Responsabilidade não se impõe. Ela se conquista, se constrói com respeito e, principalmente, com amor – mesmo que seja apenas o amor paternal que eles merecem.
Collin desviou o olhar, e por alguns instantes, o silêncio se instalou novamente, pesado como uma sentença. Quando voltou a falar, sua voz estava quase rouca: