Capítulo Nove

2042 Words
— E se eu não conseguir ser esse pai que você espera? Se a dúvida sobre a paternidade continuar corroendo minha alma? — Então, aceite que talvez nunca saibamos tudo. Mas não use essa dúvida como desculpa para se afastar. Nós não podemos deixar que o medo impeça que esses filhos tenham uma chance de conhecer quem realmente os gerou – ou, pelo menos, quem os criou com responsabilidade. — Eu… — ele hesitou, os olhos se perdendo em lembranças que eu jamais conheceria. — Você não entende, Manuela. Toda essa situação me destrói por dentro. Fui forçado a agir de maneira impensada, e agora tenho que pagar o preço por algo que, se pudesse voltar atrás, jamais teria permitido. — Você não tem o direito de me culpar por isso, Collin! Eu também sofri, e cada dia que passo é um lembrete do quanto fui deixada de lado. Você me demitiu sem nem uma palavra de explicação, sem sequer tentar entender o que se passava comigo. — Eu agi como achei melhor na hora – ele replicou, mas a voz falhou. — Melhor? Você achou que era melhor destruir a minha carreira, me humilhar publicamente, e agora quer que eu aceite ser parte de uma união que você idealiza como a solução para seus problemas? O silêncio se instalou novamente, quebrado apenas pelo som distante de uma tempestade lá fora. Collin finalmente suspirou e, com um olhar cansado, disse: — Talvez sejamos apenas dois estranhos tentando sobreviver a um erro do passado. Mas não posso simplesmente desaparecer da vida desses meus filhos, mesmo que eu duvide de cada pingo de minha paternidade. — E eu não posso aceitar que, de repente, você se torne esse pai ausente que, por orgulho ou dúvida, tenta se esconder atrás de um casamento que não reflete a realidade. Houve uma pausa longa e carregada de implicações. Então, Collin falou, quase para si mesmo: — O que faremos então? Como lidamos com essa verdade? Olhei-o fixamente, tentando medir cada palavra com cuidado. — Primeiro, precisamos ser honestos um com o outro. Nada de promessas vazias ou compromissos forçados. Se não há amor entre nós – e sejamos francos: nunca houve – não podemos fingir que isso vai mudar por um documento assinado. Mas, se formos pais, precisamos aprender a conviver, mesmo que como estranhos que, por um acaso do destino, compartilharam algo inadiável. Collin levantou os olhos, e pude ver um brilho de resignação misturado com dor. — Eu não sei se consigo conviver com essa dúvida todos os dias. Sinto como se, a cada olhar que lanço para meus filhos, eu estivesse me questionando se realmente sou eu o pai deles. — A dúvida pode ser esmagadora, eu sei. Mas talvez, com o tempo, possamos encontrar uma forma de lidar com isso. Não é preciso que sejamos um casal; podemos ser parceiros na criação, cada um com seu papel, sem precisar compartilhar uma vida conjugal que não nos faz bem. Ele hesitou, e em seguida, com um tom que misturava rancor e desespero, falou: — Então você me diz que não quer casar comigo? — Não, Collin. Eu não quero um casamento. Eu nunca quis fingir que o que aconteceu foi parte de um romance. Quero apenas que haja responsabilidade. — Mas se não nos casarmos, como vou provar a todos – e a mim mesmo – que sou o pai? — Não precisa ser por um casamento, Collin. A paternidade não se confirma com um papel ou uma cerimônia. Ela se confirma no dia a dia, nos cuidados, no reconhecimento e na presença. Ele fechou os olhos por um instante, como se lutasse contra um turbilhão interno. Quando os reabriu, a voz estava baixa, mas firme: — Então, o que você espera? Que eu simplesmente aceite ser pai e nada mais? — Sim, exatamente isso. Que você aceite essa responsabilidade sem precisar amarrar nossos destinos num contrato que não reflete nem o que fomos, nem o que somos agora. Collin se recostou na poltrona, parecendo exausto pela discussão. Eu caminhei lentamente até uma das janelas, olhando para o jardim escuro lá fora, onde a chuva caía em cortinas pesadas. — Eu sei que não somos felizes, Collin. Sei que nunca houve amor entre nós – fomos apenas dois seres em conflito, resultado de escolhas que nunca deveriam ter se cruzado. Mas, por esses filhos, precisamos tentar algo diferente. Ele me observou, os olhos úmidos, e murmurou: — Talvez o tempo possa nos mostrar que, mesmo sem amor, o respeito e a responsabilidade possam prevalecer. — Respeito não se impõe com um casamento forçado. Respeito se conquista com a liberdade de sermos quem realmente somos, sem máscaras ou obrigações. Um silêncio profundo se instalou novamente, onde os sons da chuva e o tique-taque do relógio pareciam marcar o compasso de um futuro incerto. Finalmente, Collin falou, com um tom que misturava resignação e desafio: — Então, chegamos a um impasse, não é? — Sim, chegamos. E não me venha com desculpas sobre medo ou dúvida, Collin. Você me acusa de que os nossos filhos não são seus, mas quer casar comigo? Aquelas palavras pairaram entre nós, carregadas de toda a revolta e frustração acumuladas ao longo dos meses. Collin permaneceu em silêncio, os lábios se comprimindo enquanto tentava encontrar uma resposta. — Eu… — ele começou, mas parou, olhando fixamente para o chão. Eu continuei, com a voz embargada, mas decidida: — Não quero que nossa união seja apenas um remendo para apagar erros. Se você não consegue ver que o que estamos fazendo é forçado, se não consegue aceitar que não somos um casal – então, pelo menos, reconheça que ser pai é uma escolha que vai além do casamento. Collin levantou a cabeça, os olhos brilhando com lágrimas contidas e uma raiva quase palpável: — E se eu não conseguir deixar de duvidar? Se, a cada dia, essa incerteza me corroer por dentro? — Então lute contra essa dúvida, Collin. Lute por esses filhos. Eles merecem saber quem são seus pais, mesmo que essa verdade seja cheia de imperfeições e cicatrizes. O silêncio voltou a nos envolver, pesado e quase insuportável. Depois de um longo instante, Collin se aproximou devagar, e num tom mais suave, disse: — Eu preciso de tempo, Manuela. Tempo para processar tudo isso, para entender se posso realmente assumir essa responsabilidade sem me perder no caminho. — Eu também preciso de tempo, mas não posso esperar para sempre. Esses bebês já estão aqui, Collin, e cada dia sem uma decisão só aumenta a incerteza sobre o futuro deles – e o meu também. Ele suspirou, e a tensão parecia amenizar um pouco, embora a dor ainda estivesse presente. — Talvez possamos tentar algo: viver paralelamente, com encontros programados, reuniões para discutir a criação, sem que isso signifique um casamento de fachada. Que tal? — Você quer que sejamos parceiros na criação sem sermos marido e mulher? — Sim, exatamente. Quero que haja responsabilidade, compromisso com a paternidade e o cuidado, mas sem forçar uma união que não existe de verdade. Eu senti uma pontada de alívio, mas a amargura ainda pulsava em minhas palavras: — Então, você admite que não quer casar comigo? — Admito que não quero um casamento. Nunca quis. E, se for para cuidar dos nossos filhos, quero que seja de forma sincera – sem que um contrato de papel dite o que deve ser feito. — Isso significa que continuaremos como estranhos, tentando conciliar uma vida dividida entre a criação e o distanciamento? Collin encarou-me, e pela primeira vez em muito tempo, vi uma vulnerabilidade em seu olhar. — Talvez sim. Talvez sejamos apenas dois seres imperfeitos tentando fazer o melhor por aqueles que, de alguma forma, nos ligam. Houve uma pausa longa, onde o único som era o da chuva batendo contra as janelas da mansão, como se o mundo lá fora compartilhasse da nossa tristeza e incerteza. — Eu ainda me sinto usada, Collin. Você me demitiu, me humilhou, e agora me vê como uma peça descartável para consertar o que ficou quebrado. Ele baixou o olhar, claramente ferido pelas minhas palavras, mas sem intervir: — Não era minha intenção te ferir assim. Eu… eu errei muito. — Errou? Collin, você não errou. Você escolheu me deixar de lado, me tratar como se eu não tivesse valor, e agora tenta usar essa “responsabilidade” como um meio de retomar o controle. Os olhos dele se estreitaram, e por um instante, pude ver o homem que sempre se escondeu por trás do orgulho e da dúvida. — Talvez eu tenha agido de maneira equivocada, mas também estou lutando com meus próprios demônios. Você sabe o quanto a dúvida sobre a paternidade me corrói todos os dias. — E você acha que um casamento forçado vai apagar essa dúvida? Vai fazer com que todo esse peso desapareça? — Não, não vai apagar. Mas é uma tentativa de, ao menos, criar uma estrutura onde eu possa, de alguma forma, me sentir seguro – mesmo que a segurança seja apenas uma ilusão construída em meio à incerteza. — Segurança construída sobre uma mentira nunca trará paz, Collin. E nossos filhos não merecem isso. Eles merecem saber a verdade, por mais dolorosa que ela seja. Ele permaneceu em silêncio por vários longos segundos, e quando finalmente falou, a voz estava carregada de resignação: — Então, o que faremos? Olhei para ele, tentando encontrar as palavras que pudessem selar algum tipo de entendimento, mesmo que temporário: — Faremos o seguinte: cada um seguirá seu caminho, mas, para o bem dos nossos filhos, nos reuniremos periodicamente. Discutiremos como dividir as responsabilidades, sem a necessidade de um casamento que não nos representa. Collin assentiu lentamente, e pude ver o brilho de uma decisão tímida em seus olhos. — Se é isso que você quer… Eu farei o possível para ser um pai presente, mesmo que isso signifique conviver com minhas dúvidas. — Eu também farei o mesmo, Collin. Não quero mais ser refém de promessas vazias ou de um passado que nos condena a sermos inimigos. Pelo menos, para os nossos filhos, tentaremos construir algo que se assemelhe a uma família – mesmo que seja apenas uma família de responsabilidade, sem os laços de um casamento forçado. Aquelas palavras ecoaram na sala, e por um instante, o ambiente parecia menos hostil, como se a tempestade interna tivesse cessado, ainda que por breves momentos. Collin olhou para mim, os olhos cheios de uma mistura de arrependimento e determinação: — Então está decidido? — Está. Mas, Collin, saiba que essa decisão não apaga o que passamos. Não apaga a humilhação de um término abrupto, de uma demissão sem piedade. Se algum dia você me acusar novamente ou tentar impor algo que não seja fruto de um acordo mútuo, lembre-se: não sou obrigada a aceitar. Ele inclinou a cabeça, como se absorvesse cada palavra, e por fim respondeu: — Concordo. Lá fora, a chuva começava a amainar, e, pela primeira vez em muito tempo, senti que, mesmo sem amor, havia uma possibilidade – ainda que tênue – de reconstruir algo a partir do caos que criamos. Eu me sentei novamente, desta vez mais calma, embora as cicatrizes do passado permanecessem. — Então, Collin, por enquanto, nada de casamento. Apenas a responsabilidade de ser pai e mãe para esses filhos, sem as amarras de um compromisso que não reflete a verdade. Ele assentiu, e, com uma voz quase imperceptível, disse: — Prometo tentar, Manuela. Prometo ser presente, mesmo que as dúvidas nunca se dissipem por completo. E assim, naquele ambiente repleto de memórias dolorosas, selamos um acordo – não de amor, mas de responsabilidade e de um esforço conjunto para cuidar de vidas que, de maneira irrevogável, nos uniram. Enquanto os últimos ecos da conversa se perdiam na vastidão silenciosa da mansão, eu sabia que o caminho adiante seria repleto de desafios. Mas, por aqueles pequenos seres que cresciam dentro de mim, eu escolheria lutar por uma verdade que não precisava ser adornada por um casamento forçado, mas que poderia, com paciência e esforço, se transformar em algo real: a presença constante e sincera de dois pais dispostos a enfrentar as incertezas da vida.
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