Manuela Morris
O calor de um toque suave em minha testa me fez despertar lentamente. Meus olhos piscavam para se ajustar à luz fraca da sala, e levei alguns segundos para entender onde estava. O sofá. De novo.
Suspirei, passando a mão na barriga.
O bebê havia se mexido tanto antes de eu dormir que acabei ficando ali, incapaz de encontrar uma posição confortável na cama.
Mas então senti algo diferente.
Uma presença.
Meu olhar subiu e encontrou Collin ajoelhado ao meu lado. Seu rosto estava parcialmente sombreado, mas seus olhos estavam fixos em mim. Intensos. Insondáveis.
— Collin? — Minha voz saiu rouca pelo sono.
Ele não respondeu de imediato. Apenas deslizou a mão sobre minha barriga de forma hesitante, como se estivesse tentando gravar aquela sensação na memória.
Eu deveria estar feliz com o gesto, mas uma tensão pairava entre nós.
E então me lembrei.
A discussão. A forma como ele ficou estranho. O jeito como saiu sem me dizer para onde ia.
Um nó se formou no meu estômago.
— Onde você esteve? — perguntei, me endireitando no sofá.
Collin finalmente suspirou e se afastou um pouco, sentando-se na poltrona próxima.
— No bar.
— Sozinho?
Ele hesitou.
E esse momento de hesitação me disse tudo.
— Lois estava lá, não estava? — Minha voz saiu mais afiada do que eu pretendia.
Collin passou a mão no rosto, visivelmente cansado.
— Sim. Eu precisava de um tempo para pensar. Meu irmão foi atrás de mim.
Engoli em seco. Eu já sabia o que Lois pensava sobre mim. Ele nunca escondeu seu desprezo, nunca fez questão de ser sutil.
Mas o que ele teria dito dessa vez?
— O que vocês conversaram?
Collin me olhou de uma forma estranha, como se estivesse debatendo algo dentro dele.
Meu coração acelerou.
— Manuela… Lois acha que precisamos fazer um teste de DNA.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
— O quê? — minha voz saiu baixa, mas carregada de incredulidade.
— Ele acha que… que precisamos ter certeza de que os bebês são meus.
Senti como se tivesse levado um tapa.
Uma dor profunda me atravessou, seguida por uma onda avassaladora de raiva.
— E você concorda com ele? — perguntei, minha voz tremendo.
Collin abaixou a cabeça, os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Eu não sei.
Essa resposta me atingiu mais do que qualquer insulto que Lois já tenha me lançado.
Ele não disse "não".
Ele não disse que confiava em mim.
Ele disse que não sabia.
Meus olhos começaram a arder.
— Você realmente acha que eu te enganaria desse jeito? Que eu esperaria um filho de outro homem e te faria acreditar que são seus?
Collin apertou os olhos, como se estivesse com dor.
— Manuela, eu… eu só estou confuso. Tudo aconteceu tão rápido. Você escondeu a gravidez de mim, e agora eu descubro que é uma gestação de risco. Eu só… eu preciso ter certeza.
Minha respiração ficou entrecortada.
Eu já sabia que Lois era contra mim. Mas saber que Collin duvidava da minha lealdade…
Isso era devastador.
— Se você precisa de um teste de DNA para ter certeza de que os bebês são seus, então talvez o problema não seja Lois. Talvez o problema seja você.
Me levantei com dificuldade, ignorando o desconforto na lombar.
Collin se levantou também, segurando meu braço com gentileza.
— Manuela, espera…
— Não! — Afastei sua mão. — Você me machucou, Collin. Você duvidou de mim.
Ele passou a mão pelo cabelo, visivelmente angustiado.
— Eu só preciso…
— Precisa de provas? Ótimo! Faça o teste! — Cuspi as palavras, sentindo meu coração bater forte no peito. — Mas saiba de uma coisa: depois disso, nada entre nós será o mesmo.
O silêncio voltou a se instalar.
Meus olhos estavam marejados, mas me recusei a chorar na frente dele.
— Boa noite, Collin.
E então, sem olhar para trás, subi as escadas e fechei a porta do quarto.
Sozinha.
Outra vez.
A manhã chegou trazendo um peso no peito que eu não conseguia ignorar.
A noite havia sido longa, repleta de pensamentos e sentimentos conflitantes. Eu havia chorado. Muito. Mas agora, olhando meu reflexo no espelho, percebi que não queria deixar Collin ver minhas fraquezas.
Meu rosto ainda estava inchado, meus olhos cansados, mas minha decisão estava tomada. Eu seguiria em frente, independentemente do que acontecesse.
Quando desci as escadas, Collin já estava na cozinha, vestido e pronto para sair. Ele me olhou com cautela, como se não soubesse como agir perto de mim depois da nossa discussão.
— Bom dia. — Sua voz era baixa, hesitante.
Eu apenas assenti, indo até a geladeira para pegar um copo d’água.
— O exame está marcado para daqui a uma hora. — Ele continuou, tentando manter a conversa.
— Certo. — Minha resposta foi curta.
Collin suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Podemos ir juntos?
Pensei em recusar, mas sabia que seria infantil da minha parte. Além disso, eu queria que ele estivesse lá. Não importava o que havia acontecido na noite anterior, ainda eram nossos bebês.
— Sim.
Ele pareceu aliviado, mesmo que eu ainda mantivesse minha expressão neutra.
A caminho do consultório, o silêncio no carro era quase sufocante. Eu olhava pela janela, tentando evitar qualquer contato visual.
Collin, por outro lado, estava inquieto. Eu o via apertando o volante com força, como se estivesse travando uma batalha interna.
— Eu não queria que chegássemos a esse ponto. — Ele murmurou, quebrando o silêncio.
Não respondi.
— Lois me pressionou ontem. Disse que eu seria um i****a se não fizesse o teste. Eu me deixei levar, e acabei machucando você.
Eu virei o rosto para ele, finalmente o encarando.
— Você me machucou mais do que imagina, Collin. Eu nunca te dei motivos para duvidar de mim.
Ele engoliu seco, desviando os olhos para a estrada.
— Eu sei.
Voltei a olhar para fora, encerrando a conversa ali.
Quando chegamos ao consultório, a enfermeira nos chamou rapidamente. Entrei na sala, e Collin veio logo atrás, um pouco hesitante.
A médica sorriu gentilmente ao me ver.
— Como você está se sentindo, Manuela?
— Bem, obrigada.
Ela olhou para Collin e estendeu a mão.
— Você deve ser o pai.
Collin apertou a mão dela, assentindo.
— Sim, sou eu.
A médica gesticulou para que eu deitasse na maca e erguesse a blusa. O gel gelado tocou minha pele, e eu me arrepiava sempre que passava por esse processo.
Collin permaneceu ao meu lado, observando tudo em silêncio.
A tela à nossa frente logo começou a exibir imagens borradas, que só a médica parecia entender completamente.
— Aqui estão eles. — Ela sorriu, apontando para a tela.
Eu olhei com carinho, já acostumada a ver meus bebês daquele jeito. Mas o que me surpreendeu foi o olhar de Collin.
Ele parecia completamente hipnotizado.
E então, o som preencheu a sala.
O som dos corações batendo.
Fortes. Rápidos.
A médica ajustou o volume, e Collin deu um passo para trás, como se tivesse levado um choque. Seus olhos estavam arregalados, sua boca levemente aberta.
— Isso… isso são eles? — Sua voz saiu embargada.
A médica sorriu.
— Sim. O som dos corações dos seus filhos.
Eu observei Collin de perto. Seu rosto mostrava emoções conflitantes—surpresa, alegria, talvez até arrependimento.
E então, para minha surpresa, ele levou a mão ao rosto e a passou lentamente, como se estivesse tentando conter as lágrimas.
— Eles são reais. — Ele murmurou, quase para si mesmo.
A médica riu baixinho.
— Sim, papai. Eles são bem reais.
Collin soltou uma risada curta, nervosa, e balançou a cabeça.
— Eu não acredito que duvidei disso…
O som dos corações continuava preenchendo a sala, e pela primeira vez em muito tempo, senti um fio de esperança.
Talvez Collin finalmente entendesse.
Talvez agora ele realmente percebesse que esses bebês eram dele.
Talvez, só talvez…
Ainda houvesse uma chance para nós.
Ao sairmos do consultório, o silêncio entre nós era diferente daquele que havia na ida. Antes, era carregado de mágoa e ressentimento; agora, parecia um silêncio reflexivo, quase pacífico.
Collin caminhava ao meu lado, sem pressa, como se estivesse absorvendo tudo o que acabara de acontecer. Suas mãos estavam nos bolsos, os olhos fixos no chão, e a expressão carregava algo que eu não via há muito tempo: vulnerabilidade.
Paramos ao lado do carro. Antes que eu pudesse abrir a porta, Collin segurou meu braço com delicadeza.
— Vamos almoçar? — Sua voz saiu calma, diferente do tom rude de antes.
Pisquei algumas vezes, surpresa.
— Você quer almoçar comigo?
Ele soltou um suspiro.
— Sim. Quero conversar.
Eu poderia ter recusado, mas, depois da consulta, algo dentro de mim dizia que essa conversa precisava acontecer.
— Tudo bem.
Ele abriu a porta do passageiro para mim, e eu entrei. Assim que ele se acomodou no banco do motorista, ligou o carro e seguiu para um restaurante próximo.
O restaurante que Collin escolheu era discreto, elegante, com um ambiente aconchegante. Eu sabia que ele gostava de lugares assim, mais reservados, onde não fosse interrompido ou observado demais.
O garçom nos conduziu até uma mesa próxima à janela, e eu aproveitei para olhar o menu. Meu apetite estava razoável, considerando todas as emoções do dia.
Collin, por outro lado, parecia mais concentrado em mim do que no que ia pedir.
— Você quer pedir primeiro? — perguntei.
Ele sacudiu a cabeça.
— Pode escolher.
Fiz meu pedido e ele pediu o mesmo, o que me fez erguer as sobrancelhas. Collin nunca costumava pedir o que eu pedia. Era um detalhe pequeno, mas não passou despercebido.
Quando o garçom se afastou, o silêncio se instalou novamente, até que Collin respirou fundo e quebrou a tensão.
— Eu fui um i****a.
Eu o encarei, sem dizer nada.
Ele passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado consigo mesmo.
— Eu nunca deveria ter duvidado de você. Nunca deveria ter deixado que Lois me influenciasse dessa forma.
Meu coração acelerou.
Collin raramente pedia desculpas. E nunca assim, tão direto.
— Você me machucou, Collin. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Eu confiei em você. Eu aceitei esse casamento, mesmo sabendo que seria difícil. Mas você… você me olhou nos olhos e questionou se esses bebês eram seus.
Ele fechou os olhos por um instante, como se estivesse absorvendo minhas palavras.
— Eu sei. — Sua voz saiu baixa. — E cada batida do coração deles hoje foi um tapa na minha cara.
Engoli em seco.
Ele ergueu os olhos para mim, e o que eu vi ali me desarmou.
Culpa.
Arrependimento.
— Quando ouvi os corações deles… — Ele fez uma pausa, apertando os punhos. — Eu me senti o pior homem do mundo. Porque percebi que nunca mais poderei apagar o que fiz com você.
Eu pisquei, sentindo um nó se formar na garganta.
— Eu não preciso que você se sinta culpado, Collin. Eu só queria que você confiasse em mim.
Ele assentiu, e seus olhos se suavizaram.
— Eu confio.
Meus olhos se arregalaram um pouco.
— Agora confia? Depois de tudo?
— Sim. Porque eu vi. Eu senti. E não preciso de um maldito exame para provar nada.
Meu coração se apertou.
Eu queria acreditar nele.
Queria acreditar que essa era uma mudança real e não apenas um momento de emoção.
— E Lois? — perguntei. — Ele vai continuar te pressionando?
Collin apertou os lábios, claramente incomodado ao lembrar do irmão.
— Lois não manda na minha vida. — Ele fez uma pausa. — E eu não vou cometer esse erro de novo.
O garçom voltou com nossa comida, e a conversa pausou por alguns instantes.
Mas algo em mim já havia mudado.
Eu não sabia se perdoava Collin completamente, mas, pela primeira vez desde que tudo começou, eu via uma esperança real.
Talvez ele estivesse disposto a mudar.
Talvez… nós ainda tivéssemos uma chance.