Capítulo Dezassete

2680 Words
Manuela Morris Uma semana se passou desde a consulta de ultrassonografia – uma semana em que, apesar de tudo, o que parecia ser o melhor momento do nosso casamento floresceu. Eu, Collin, tenho vivido uma montanha-russa de emoções. Os dias têm sido surpreendentemente leves, repletos de momentos de ternura e diálogos sinceros com Manuela, mas, como sempre, uma sutil dúvida insiste em me acompanhar, lembrando-me de que a incerteza da paternidade ainda paira no ar. Naquela manhã, acordei antes do sol, tomado por um silêncio introspectivo. Ao abrir os olhos, o primeiro que vi foi o contorno sereno de Manuela dormindo no sofá da sala. Seu corpo repousava com calma, e a barriga, já evidente com os cinco meses de gestação, parecia contar a história de uma nova vida que se formava entre nós. A visão me encheu de um misto de esperança e inquietação. Sentei-me devagar na cadeira ao lado dela e observei cada detalhe: o leve movimento dos cílios, a expressão pacífica que contrastava com o turbilhão de dúvidas que insistia em me atormentar. Lembrei-me de cada batida dos corações que ouvi durante a ultrassonografia, aquele som inebriante que, por um breve instante, me fez acreditar que tudo era real, que aquele amor, aquele compromisso, era inegável. Porém, a dúvida ainda sussurrava – uma sombra que se recusava a desaparecer. Ainda em silêncio, levantei-me para preparar o café, tentando distrair minha mente. O aroma forte e reconfortante da bebida quente me ajudava a encontrar um pouco de paz. Pouco tempo depois, Manuela despertou. Seus olhos, embora cansados, cintilavam com uma delicada esperança, e ela se espreguiçou lentamente, como se quisesse aproveitar cada minuto daquele novo dia. Sentamos juntos à mesa da cozinha, onde a luz suave do amanhecer iluminava o ambiente. Em meio a risos tímidos e gestos carinhosos, a conversa começou a fluir. — Bom dia, meu amor — disse Manuela, sorrindo enquanto passava a mão sobre sua barriga, como se buscasse reconectar-se com aquele milagre que carregava. — Bom dia, querida. — Respondi, tentando esconder o peso que ainda sentia em meu peito. — Hoje acordei pensando em nós. Em como, apesar de tudo, estamos vivendo um dos momentos mais felizes da nossa vida. Ela me olhou com ternura, mas pude ver em seu olhar uma centelha de preocupação que não se apagava delgada. — Collin, eu sei que os últimos dias foram intensos. Mas acredite, sinto que estamos recomeçando de verdade. Cada vez que escuto o som do nosso bebê, sinto que tudo vai dar certo. — Eu também sinto isso — respondi, mas hesitei antes de continuar. — No entanto, eu... ainda tenho dúvidas. Não sei explicar bem, mas aquela sensação de incerteza, aquela voz interna, às vezes me faz pensar: e se eu nunca tiver a prova concreta de que sou realmente o pai? Manuela ficou em silêncio por alguns segundos. Seus olhos se encheram de lágrimas silenciosas, mas ela respirou fundo antes de falar. — Collin, nós já vivemos momentos tão intensos. Hoje, quando ouvi os batimentos do coração dele, algo dentro de mim se acendeu. Eu te escolhi, te confiei, e sei que você me ama. Essa dúvida que te assombra... eu entendo. Mas não podemos deixar que ela nos impeça de viver o que temos de melhor. — Eu sei, Manuela, — disse, segurando a mão dela com firmeza. — Quero acreditar em nós, quero confiar plenamente, mas às vezes essa dúvida insiste em me corroer. Eu não quero me tornar alguém que vive desconfiado de tudo que construímos. Ela apertou minha mão e, com a voz embargada, disse: — E se você precisar de um teste de DNA para se sentir seguro, faremos isso juntos. Mas, por favor, não deixe que essa dúvida afete o amor que construímos. Nós somos mais do que medos e incertezas. Houve um breve silêncio, enquanto ambos processávamos as palavras. Eu sabia que, naquele exato momento, o nosso futuro estava se desenhando – entre o brilho da esperança e o peso da dúvida. Após o café, decidimos dar uma caminhada no parque próximo à nossa casa. O clima estava ameno e o sol, já alto, aquecia o dia. Caminhávamos de mãos dadas, os passos sincronizados, e tentávamos aproveitar cada segundo daquela paz momentânea. — Sabe, Collin, — começou Manuela, com um tom suave, enquanto olhava para o céu azul, pontilhado de nuvens, — quando eu sinto os movimentos do bebê, sinto que a vida é capaz de nos surpreender mesmo nos piores momentos. — Eu também sinto isso, — respondi, mas logo a dúvida voltou à tona. — Mas, e se esses momentos de felicidade forem sempre manchados por essa incerteza? Eu não posso deixar de pensar: e se… e se não for realmente meu? Ela parou e me encarou, os olhos profundos, buscando uma resposta no meu olhar. — Collin, eu te escolhi. Você é o homem com quem decidi compartilhar minha vida, com todas as incertezas e imperfeições. Você sabe, às vezes, a dúvida é natural. Mas ela não pode ser a razão para duvidarmos um do outro. Eu suspirei e, olhando para o horizonte, tentei encontrar consolo nas palavras dela. Mas a sombra da dúvida ainda se recusava a se dissipar completamente. — Eu entendo, Manuela. Eu quero acreditar em nós, de verdade. Só... é difícil apagar essa voz que insiste em questionar tudo. Ela aproximou o rosto do meu, com um olhar sincero. — E se, um dia, depois de tudo, você ainda sentir essa necessidade de confirmação? — perguntou ela, quase em um sussurro. — Prometa-me que, se isso acontecer, nós vamos conversar. Não deixaremos que o medo nos separe. Aquelas palavras tocaram algo dentro de mim. Eu sabia que havia muito que precisava ser resolvido, mas naquele instante, enquanto caminhávamos lado a lado, senti uma esperança renovada. — Eu prometo, Manuela. — Respondi, segurando seus olhos com os meus. — Prometo que, se a dúvida voltar, vamos enfrentá-la juntos. Porque, apesar de tudo, eu te amo. E amo esses pequenos batimentos que nos lembram que nossa família está crescendo. Ela sorriu, e por um breve momento, o mundo pareceu conspirar a nosso favor. As risadas de crianças ao longe, os pássaros cantando e o calor do sol eram como uma sinfonia que reafirmava que a vida, com todas as suas incertezas, ainda era bela. Almoço e Convivência Depois da caminhada, decidimos almoçar juntos num restaurante acolhedor. Sentados a uma mesa em um cantinho reservado, o ambiente era calmo, e a conversa fluía com naturalidade. Em meio a pratos saborosos e taças de vinho, os diálogos foram se aprofundando. — Eu estava pensando, — disse Collin, enquanto observava Manuela mexer na comida com os olhos, — talvez devêssemos planejar uma pequena viagem para o próximo final de semana. Nada muito longe, só para sairmos um pouco da rotina e recarregarmos as energias. Manuela olhou para mim, com uma expressão que misturava surpresa e cautela. — Você acha mesmo que isso pode ajudar? — perguntou ela, hesitante. — Eu acredito que sim, — respondi com convicção. — Precisamos de momentos assim para reforçar o que estamos construindo, para que a dúvida se perca um pouco na alegria de estarmos juntos. Ela suspirou e, depois de um breve silêncio, disse: — Talvez seja uma boa ideia. Mas, Collin, eu ainda sinto um peso no coração quando penso naquilo que aconteceu. Ainda fico imaginando como seria se você nunca tivesse duvidado de mim. — Eu sei, e me arrependo profundamente de ter deixado essa dúvida crescer, — confessei, olhando fixamente nos olhos dela. — Eu prometi a mim mesmo e a você que nunca mais deixaria isso acontecer. Hoje, aqui, neste momento, eu quero mostrar que posso ser o marido que você merece, que posso confiar e deixar o medo de lado. Ela sorriu timidamente e segurou minha mão. Então, entre goles de vinho e risadas contagiantes, conversamos sobre planos futuros – sobre a decoração do quarto do bebê, sobre os nomes que gostaríamos de dar aos nossos filhos, sobre as pequenas viagens que ainda faríamos juntos. — Sabe, — disse ela, brincando, enquanto traçava desenhos imaginários na mesa com o dedo, — eu acho que nosso bebê vai ser tão rebelde quanto você. Talvez até o herdeiro das suas teimosias. Rimos juntos, e aquele riso sincero parecia selar um pacto de reconciliação. Contudo, mesmo em meio à felicidade, uma parte de mim permanecia inquieta. — Manuela, — comecei novamente, depois que o garçom recolheu nossos pratos, — preciso te perguntar uma coisa. Ela me olhou, com um misto de curiosidade e receio. — O que foi? — Você está bem com… tudo? Com o fato de que, mesmo depois do exame, essa dúvida ainda paira sobre mim? Eu sei que é irracional, mas não consigo afastá-la completamente. Ela suspirou, e seus olhos se encheram de uma sinceridade que me tocou profundamente. — Collin, eu entendo essa dúvida. Talvez nunca desapareça por completo. Mas, para mim, o mais importante é o que vivemos juntos. Cada momento, cada conversa, cada batida do coração do nosso filho... isso é o que realmente importa. — Eu quero acreditar nisso, Manuela, — respondi, apertando sua mão com força. — Quero confiar plenamente, mas às vezes o medo me domina. É como se uma parte de mim ainda duvidasse, mesmo que a outra saiba que você é minha escolha, meu amor. Ela inclinou a cabeça, olhando-me fixamente. — Então, vamos enfrentar esse medo juntos, — disse com firmeza. — Sempre que essa dúvida surgir, nós conversamos. Nós buscamos a verdade no que construímos, e não deixamos que suspeitas infundadas nos separem. A conversa continuou, cheia de diálogos intensos e sinceros. Discutimos nossos medos, nossos anseios e, principalmente, nosso compromisso mútuo. Cada palavra, cada gesto, era como um tijolo que reconstruía a confiança abalada. E, naquele almoço, enquanto o tempo parecia desacelerar, senti que, apesar da sombra da dúvida, nosso amor estava ganhando novas forças. Conversas na Tarde Após o almoço, voltamos para casa. O ambiente familiar, com as luzes suaves e a música calma de fundo, criou um clima propício para mais diálogos. Sentados no sofá, Manuela se encostou em mim, e eu a envolvi com meus braços. — Você sabe, — começou ela, com a voz baixa e introspectiva, — eu sempre acreditei que os momentos mais difíceis nos ensinam o valor do que realmente importa. Hoje, mais do que nunca, vejo que nosso amor é mais forte do que qualquer dúvida. Eu a olhei, sentindo uma onda de gratidão, mas também aquela persistente inquietação. — Eu quero ser um pai presente, um marido que não se deixa dominar pelo medo. Mas às vezes, quando estou sozinho, as perguntas não cessam: "E se…?" "Será que eu realmente mereço essa felicidade?" Manuela passou a mão pela minha face, suavemente, como se quisesse apagar cada vestígio de incerteza. — Collin, todos nós temos dúvidas. Mas você precisa lembrar que escolheu essa vida, escolheu mim. E eu escolhi você. Não é o som dos batimentos do nosso filho que prova nosso amor? É a forma como, mesmo nas dificuldades, continuamos juntos? Eu suspirei, deixando-me envolver por suas palavras, mas minha mente ainda vagava pelos recantos da insegurança. — Eu quero acreditar nisso, de verdade. — Respondi, com um olhar sincero. — Quero que, daqui para frente, toda vez que a dúvida tentar invadir, nós a confrontaremos com o que vivemos, com o que sentimos. Ela assentiu, e naquele instante, enquanto o silêncio confortável preenchia a sala, percebi que estávamos dispostos a reescrever nossa história – mesmo que a sombra da dúvida ainda pairasse, nós escolheríamos o amor, a confiança e a esperança. Diálogos no Final da Tarde Mais tarde, enquanto preparávamos o jantar juntos, a conversa tomou um tom mais leve, misturado com risos e pequenos gestos de cumplicidade. — Lembra quando discutimos sobre os nomes dos bebês? — perguntou Manuela, enquanto cortava legumes com cuidado. — Como esquecer? — respondi, sorrindo ao recordar as nossas brincadeiras e sugestões absurdas. — Você queria chamar o primeiro de “Esperança” e o segundo de “Confiança”. Ela riu, os olhos brilhando de humor e carinho. — Acho que é um bom sinal, não acha? Se os nomes refletem o que sentimos agora, então nosso bebê vai ser um lembrete constante do que realmente importa. — E se, um dia, a dúvida tentar voltar com força, lembrarei desses nomes e das nossas promessas. — Com a voz embargada, continuei: — Prometa-me que, não importa o que aconteça, nós sempre conversaremos. Manuela parou, segurando minha mão. — Eu prometo, Collin. Sempre. Não quero que nada – nem o medo, nem as dúvidas – nos afaste do que construímos. Eu a abracei, sentindo o calor do seu corpo e o pulsar dos nossos corações em sintonia. Por um breve momento, tudo parecia perfeito, como se o universo conspirasse para que cada dúvida se dissipasse diante da força do nosso amor. — Você sabe, — disse eu, olhando-a nos olhos com uma sinceridade que quase me fez chorar, — cada batida do coração do nosso filho hoje me lembrou do quanto somos abençoados. Mesmo que a dúvida persista, esse som, essa vida que cresce dentro de você, é a prova de que estamos juntos, de que fazemos parte de algo maior. Ela sorriu, e seu olhar se encheu de uma mistura de emoção e determinação. — Eu quero que esses momentos sejam nossa âncora, Collin. Sempre que a dúvida bater, que possamos nos lembrar do que realmente importa: o amor, a confiança que construímos e a vida que estamos criando juntos. A tarde se arrastou em um compasso harmonioso. Entre conversas, risos e silêncios compartilhados, senti que, mesmo com todas as incertezas, estávamos vivendo um dos melhores momentos do nosso casamento. A dúvida sobre a paternidade ainda existia – uma sombra que, embora persistente, já não dominava nossos pensamentos. Agora, ela coexistia com a esperança e o amor, como parte intrínseca de uma realidade que, por mais imperfeita que fosse, ainda nos unia. Um Brinde ao Futuro No final do dia, enquanto o crepúsculo tingia o céu de tons alaranjados e a cidade se preparava para a noite, decidimos brindar ao futuro. Sentados à nossa mesa na sala de jantar, com uma garrafa de vinho e taças reluzentes, fizemos um brinde silencioso. — Ao nosso amor, mesmo nas dúvidas, — disse eu, levantando minha taça. Manuela sorriu, seus olhos marejados refletindo uma luz de esperança. — E à nossa coragem de enfrentar tudo, juntos. Entre diálogos sinceros e promessas sussurradas, senti que, apesar das cicatrizes do passado e das incertezas do presente, nosso caminho ainda estava repleto de possibilidades. Talvez nunca fosse possível apagar completamente a dúvida, mas havíamos escolhido, a cada dia, acreditar que o amor era mais forte do que qualquer medo. Eu, Collin, sabia que o desafio continuava, que a sombra da incerteza se esgueiraria de vez em quando. Mas também sabia que, enquanto mantivéssemos o diálogo aberto, enquanto conversássemos mesmo quando a dor ameaçasse nos calar, poderíamos transformar cada dúvida em uma nova oportunidade de reafirmar nosso compromisso. E assim, naquela noite, com os últimos raios de sol desaparecendo no horizonte, senti que estávamos mais próximos do que nunca. Entre beijos suaves, risadas e diálogos profundos, o melhor momento do nosso casamento se desenhava – mesmo que a dúvida persistisse, nós escolhemos, todos os dias, amar e confiar um no outro. — Manuela, — sussurrei enquanto a abraçava apertadamente, — prometo que, independentemente de qualquer incerteza, nunca deixarei de lutar por nós. Ela apertou-me de volta com firmeza, e naquele instante, enquanto nossos corações batiam em uníssono, percebi que o verdadeiro desafio não era eliminar as dúvidas, mas sim viver com elas, transformando cada temor em um tijolo na construção de um futuro sólido e cheio de amor. Nossa jornada continuava, com todas as suas incertezas e belezas, e, mesmo que a dúvida da paternidade permanecesse, eu sabia que o nosso amor, e os diálogos sinceros que compartilhávamos, eram a base sobre a qual construiríamos o amanhã.
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