Capítulo Dezoito

2443 Words
Collin Morris Eu m*l podia acreditar no que estava acontecendo. Era uma tarde cinzenta e fria, e a casa parecia mergulhada em um silêncio inquietante, interrompido apenas pelo som ocasional do vento batendo na janela. Manuela, agora com oito meses de gestação, repousava no quarto enquanto eu permanecia na sala, tentando organizar os meus pensamentos depois de tantos conflitos internos. Ainda me recuperava das emoções que a consulta de ultrassonografia havia despertado, das conversas sinceras durante o almoço, dos diálogos repletos de promessas e incertezas. Mas nada poderia me preparar para o que estava prestes a acontecer. Enquanto eu revisava mentalmente os eventos dos últimos dias, o telefone de Manuela começou a tocar. Eu sabia que ela raramente atendia chamadas naquele horário, e uma pontada de apreensão percorreu o meu corpo. Em meio à confusão de sentimentos, decidi ficar no corredor, com o coração batendo forte, para não interromper o que quer que ela estivesse fazendo. Pouco depois, ouvi a voz dela, suave mas firme, atendendo a ligação. Pela entressala, pude captar fragmentos de uma conversa que, aos poucos, se tornou clara: o interlocutor era ninguém menos que o ex-noivo de Manuela – o homem que, anos atrás, fora seu pretendente e que, por uma traição que marcou o início de uma longa distância emocional, agora estava em Moçambique. O tom dele era carregado de arrependimento e nostalgia. — Manuela, eu… eu preciso te dizer algo – ouvi ele dizer, hesitante, com a voz embargada pela emoção. Manuela respondeu em tom contido, mas firme: — O que foi, Henrique? Estou ocupada agora. — Por favor, não desista de nós – continuou ele, quase implorando. — Eu me arrependo profundamente do que fiz. Eu errei feio, e sei que nunca merecerei o seu perdão, mas estou aqui para dizer que... que sinto muito, de verdade. Meu estômago se revirou. Eu fiquei imóvel, cada palavra daqueles penetrando fundo, despertando ciúmes que eu lutava para controlar. Henrique, o ex-noivo, sempre fora uma ferida aberta em nossa história. E agora, enquanto Manuela ouvia suas desculpas, aquela voz do passado insistia em ressoar na minha mente. — Manuela, eu entendo se você não quiser me dar uma segunda chance, mas... por favor, pensa no que nós tivemos. Eu sei que te magoei, e cada dia longe de você me lembra o quanto eu errei. Eu estou arrependido – ele disse, a voz embargada, repleta de emoção. Manuela respondeu pausadamente: — Henrique, eu já segui em frente. Eu me casei. — Mas... eu ainda te amo, Manuela. Sempre amei. Posso não merecer, mas estou disposto a fazer o que for preciso para reparar o que destruí. — Eu… isso acabou, Henrique. Você errou demais, e agora eu estou construindo uma nova vida – ela replicou, a voz firme, mas senti nela uma pontada de tristeza. Eu senti cada palavra como uma punhalada. A confiança que eu lutara para reconstruir estava, de repente, sendo ameaçada por esse passado que insistia em bater à nossa porta. Henrique continuava: — Você pode até não acreditar, mas se você algum dia sentir que cometi um erro, que precise de uma prova do que sempre foi seu, lembre-se: você merece a verdade. — Já disse, Henrique, acabou. Eu não quero mais falar sobre isso. Por favor, deixe-me em paz – Manuela soou irredutível. — Se um dia você mudar de ideia, estarei aqui. Sempre estarei, esperando pelo seu perdão – concluiu ele, antes que a linha se interrompesse e o silêncio se instalasse. Enquanto ouvia cada palavra, senti uma mistura de raiva e insegurança. Meu coração acelerava descontroladamente. Lágrimas surgiam sem que eu quisesse, e por um instante, tudo que eu sentia era um amargo ciúme e a dúvida lancinante de que, talvez, eu jamais pudesse ter a certeza absoluta de que aqueles bebês eram meus. Eu já havia prometido a mim mesmo que, se algum dia surgisse qualquer sinal de dúvida, eu precisaria de provas concretas. E agora, aquela conversa, com cada palavra de arrependimento e melancolia de Henrique, parecia confirmar os temores que eu lutava para reprimir. Saindo do corredor, fui até o quarto de Manuela. Ela estava sentada na beirada da cama, com o celular ainda em mãos, os olhos fixos no silêncio após a ligação. Eu podia ver a angústia em seu rosto, e minha raiva se misturava com uma profunda tristeza. Ao me aproximar, ela ergueu o olhar, e nossos olhos se encontraram. Por um breve instante, não houve palavras; apenas um silêncio carregado de tensão e dor. — Quem era? — minha voz saiu baixa, quase num sussurro, mas com uma firmeza que tentava encobrir a insegurança. Ela hesitou, e por alguns segundos pude ver a luta interna em seu olhar antes de responder: — Foi Henrique. Ele… ele ligou de Moçambique. Disse que está arrependido, que errou muito… — E você? O que disse? — interrompi, tentando controlar o tremor na voz. Manuela baixou o olhar e respondeu: — Eu disse que… que nosso passado é coisa de outra vida. Eu estou casada, Collin. Eu estou construindo uma nova vida. Eu não quero reviver aquilo. — Mas por que ele liga agora? Por que trazer de volta tudo isso? — minha voz se quebrou, cheia de ciúmes e de dúvidas que eu me esforçava para negar. Ela suspirou, e seus olhos se encheram de lágrimas: — Eu não sei, Collin. Talvez ele só esteja arrependido… ou talvez ele só queira ver se ainda há alguma chance de... de nós. Mas eu te disse, eu já segui em frente. Você sabe disso, não sabe? — Eu sei, mas… isso me faz pensar. Me faz pensar se, de alguma forma, tudo aquilo que construímos é uma ilusão – confessei, com a voz carregada de incerteza. — Collin, você está me ouvindo? — Manuela interrompeu, tentando acalmar a situação. — Eu te escolhi. Eu te amo. Esses bebês… eles são nosso futuro. — Mas como posso ter certeza? — eu disse, incapaz de esconder o ciúme que fervia dentro de mim. — Se Henrique, aquele homem do passado, ainda tem tanto a dizer... Como posso acreditar que a verdade é só a nossa história agora? Ela se aproximou, tocando suavemente meu rosto, tentando enxugar as lágrimas que começavam a escorrer. — Eu entendo a sua dor, Collin. Eu entendo o quanto você se preocupa. Mas, por favor, não deixe que o passado interfira no que estamos construindo. Henrique é parte da minha história, mas ele não tem mais lugar no meu futuro. — E se… se essa dúvida persistir? — eu gaguejei, sentindo a tensão aumentar, — E se, por mais que eu tente confiar, algo ainda não estiver certo? Manuela me olhou fixamente, com uma sinceridade que parecia penetrar na minha alma: — Eu prometo que não há nada a temer. Eu estou aqui, agora, com você, e toda a minha vida é nossa. Se você precisar de provas, de certezas, faremos o que for necessário, mas não deixe que as palavras de Henrique te façam duvidar de nós. — Mas essa dúvida… — minhas palavras vacilaram, — Essa dúvida sobre a paternidade dos bebês… ela nunca vai embora? O ambiente ficou carregado de silêncio novamente. Eu podia sentir o peso do desespero e do ciúme, e, naquele exato momento, uma parte de mim desejava ter uma prova irrefutável, algo que banisse para sempre essa sombra que se apossava do meu coração. — Collin, por favor – disse ela com voz trêmula –, eu te amo. Eu te escolhi. Esses bebês são fruto do nosso amor. Confie em mim, confie em nós. Eu senti o coração apertar, e por um instante, a razão e o ciúme travavam uma batalha silenciosa dentro de mim. — Eu… Eu quero confiar, Manuela. Eu realmente quero – respondi, quase desesperado. — Mas é difícil quando o passado insiste em ressurgir assim, do nada, para me lembrar que nem sempre posso ter certeza absoluta. Manuela se aproximou e me abraçou forte, como se quisesse selar nossas almas com aquele gesto. — Então vamos enfrentar isso juntos. Sempre que essa dúvida aparecer, nós conversaremos. Se precisar, faremos um teste, se for o que te tranquilizar – ela sussurrou, tentando dissipar minhas inseguranças. — Um teste… — murmurei, sentindo a amargura e o ciúme se misturarem com a esperança. — Eu não quero acreditar que essa dúvida vá me destruir. Ela me olhou, com os olhos úmidos, e falou: — Não deixe que o ciúme te consuma, Collin. Nós temos algo real, algo que vale a pena lutar. Não permita que as palavras de Henrique ou os fantasmas do passado te impeçam de ver o presente. Eu respirei fundo, tentando reorganizar meus pensamentos enquanto a imagem da voz arrependida de Henrique ainda ecoava em minha mente. — Eu… eu vou tentar, Manuela. Eu vou tentar esquecer tudo o que ele disse e focar no que somos agora. Mas, às vezes, sinto que minha mente insiste em questionar se realmente somos nós – se esses bebês são, de fato, fruto do nosso amor, ou se há algo mais que eu não consigo ver. Ela pegou minha mão, com firmeza: — Collin, a única certeza que tenho é o que sinto por você e a vida que estamos construindo juntos. Se houver alguma dúvida, nós vamos enfrentá-la. Juntos. Eu a abracei, sentindo uma mistura de alívio e ainda assim um amargo nó na garganta. O ciúme me corroía por dentro, mas eu sabia que, se não enfrentasse essa sombra, ela se instalaria de vez. Enquanto a conversa prosseguia, nossos diálogos se tornavam mais intensos e sinceros. Discutimos as palavras de Henrique, seus pedidos de perdão e as consequências de reviver um passado que já deveria ter sido enterrado. — Henrique disse que se arrepende de ter te traído, que ele sente muito – repeti, com uma voz embargada, tentando compreender o que havia sido dito . — Eu sei. Eu ouvi cada palavra, mas eu já disse: o passado é passado. Eu não tenho espaço para ele na minha vida – ela respondeu, de forma decidida, mas com uma tristeza velada em seus olhos. — Mas e se, por acaso, algo que você não contou – ou que eu não sei – estiver relacionado àqueles erros? Eu não posso simplesmente ignorar essa voz que me questiona. — Collin, eu não te devo segredos. Eu escolhi te amar e construir algo novo. O que aconteceu com Henrique não tem mais importância para mim. Você precisa acreditar nisso. — Eu queria acreditar, Manuela. Eu realmente queria... Mas essa dúvida, essa insegurança sobre a paternidade dos nossos bebês, me atormenta. — Se isso te incomoda tanto, faremos o teste. Se for preciso, faremos o teste para te dar a certeza que você precisa. Mas não deixe que isso se torne uma arma para nos separar. Eu senti as lágrimas se formarem, mas não as deixei cair. — Eu não quero que um teste defina nosso amor, mas preciso dessa segurança. Eu preciso saber, sem sombra de dúvida, que tudo isso é real – que nossos bebês, esse futuro que estamos tentando construir, são fruto do nosso amor. Ela segurou meu rosto com as duas mãos e disse, com voz suave mas determinada: — Collin, o que somos é real. E mesmo que um teste nos dê respostas, o que importa é que nós continuaremos lutando um pelo outro, superando cada dúvida, cada medo. Houve um longo silêncio. Eu me perguntei se alguma vez seria capaz de esquecer aquelas palavras de Henrique, se algum dia as dúvidas deixariam de atormentar minha mente. Mas naquele momento, envolto em seus braços, percebi que o futuro estava em nossas mãos – e que o amor, mesmo entrecortado pelas incertezas, era o que realmente nos guiaria. Enquanto a tarde se transformava em noite, e a luz dourada do entardecer invadia o quarto, os nossos diálogos continuaram, intensos e cheios de promessas: — Prometa-me que, daqui para frente, se qualquer dúvida surgir, nós vamos conversar imediatamente, sem deixar que ela cresça e nos consuma – eu implorei. Ela me olhou com ternura e respondeu: — Eu prometo, Collin. Sempre. Nós enfrentaremos tudo juntos, sem segredos, sem medos. Eu apertei sua mão, tentando aferrar aquela promessa como se dela dependesse o nosso futuro. Mesmo que a dúvida ainda pairasse no ar, naquele momento, em meio a tantos diálogos sinceros e lágrimas contidas, senti que o nosso amor tinha a força necessária para superar os fantasmas do passado. — Talvez o teste possa até ser feito – admiti, com a voz trêmula –, mas o que eu realmente desejo é que a nossa confiança se restabeleça por completo. Eu não quero que cada batida do coração dos nossos bebês seja ofuscada pela sombra da incerteza. Ela acariciou meu rosto com delicadeza: — Collin, a verdade está no que vivemos todos os dias. No carinho que compartilhamos, nas pequenas vitórias e nas lutas que enfrentamos. E, se algum dia um teste for necessário para acalmar seus medos, faremos isso. Mas não permita que essa dúvida se transforme em um muro entre nós. Eu a abracei com força, deixando que o calor daquele gesto preenchesse o vazio deixado pelo ciúme e pela insegurança. — Eu te amo, Manuela. E, apesar de todas as incertezas, quero que saibas que estou disposto a lutar por cada momento nosso – confessei, com voz embargada. Ela sorriu, embora os olhos ainda revelassem um traço de tristeza e cansaço: — Eu também te amo, Collin. E é esse amor que me faz acreditar que, juntos, podemos superar qualquer obstáculo – mesmo que o passado ainda insista em bater à nossa porta. E assim, entre diálogos intensos, promessas renovadas e a dolorosa realidade de uma dúvida persistente, selamos o compromisso de enfrentar nossos medos lado a lado. Eu, Collin, sabia que o caminho seria longo e cheio de desafios, mas naquele instante, enquanto os últimos raios de sol desapareciam no horizonte, senti que a força do nosso amor era capaz de transformar cada eco do passado em uma nova oportunidade de recomeço. Os nossos diálogos se estenderam noite adentro, e, apesar de toda a insegurança, havia algo reconfortante na sinceridade com que encarávamos nossos medos. Cada palavra trocada era uma reafirmação de que o amor que compartilhávamos era maior do que qualquer dúvida – mesmo que, por vezes, essa dúvida insistisse em sussurrar no fundo da minha mente. E, assim, entre promessas, lágrimas e o pulsar constante do nosso futuro, eu decidi que, independentemente dos fantasmas do passado, continuaria acreditando na nossa história – uma história que, por mais imperfeita que fosse, era inteiramente nossa.
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