Manuela Cardoso
Acordei com a luz pálida do amanhecer invadindo meu quarto, uma claridade fria que contrastava dolorosamente com a chama intensa da noite anterior. Por um breve instante, permaneci imóvel, tentando agarrar cada resquício do êxtase que vivi – o calor dos beijos, o toque inebriante, os sussurros que pareciam prometer segredos proibidos. Contudo, ao abrir os olhos completamente, a realidade se impôs de forma brutal: a cama, que ainda exibia os traços de nossa paixão, estava estranhamente vazia.
Eu me sentei na beira do leito, o coração acelerado, enquanto uma onda de confusão e desamparo invadia minha mente. Quem era aquele homem que me fez sentir tão viva, tão desejada? E, agora, por que ele havia desaparecido sem deixar vestígio ou sequer uma palavra de despedida? O vazio em minha alma ecoava o vazio do lençol, e, lentamente, uma sensação amarga de abandono começou a se instalar.
Levantando-me com dificuldade, encarei meu reflexo no espelho. Havia nele os traços de uma mulher que, apesar de ter se deixado levar pela paixão, agora via-se marcada pela incerteza e pelo desespero. Cada movimento, cada peça do meu vestuário, parecia carregar o peso de uma tentativa de reconstruir minha dignidade. Vesti meu blazer com a esperança de que, mesmo que o coração estivesse despedaçado, minha postura profissional ainda pudesse me proteger de um dia que já se anunciava desastroso.
Saí do hotel sentindo o frio matinal abraçar meu corpo, como se a natureza compartilhasse do meu desconforto. Enquanto caminhava rumo ao prédio onde trabalho, meus pensamentos oscilavam entre o prazer arrebatador da noite passada e a amarga dúvida: como poderia alguém me fazer sentir tão intensamente apenas para, ao amanhecer, me abandonar? Cada passo parecia ecoar a pergunta sem resposta, e a cidade, já em movimento, não demonstrava qualquer compaixão pelo meu estado.
Ao chegar ao saguão imponente da empresa, percebi imediatamente que algo estava fora do normal. O ambiente que sempre fora sinônimo de ordem e segurança, agora fervilhava de olhares curiosos e sussurros abafados. Meu instinto me dizia que eu não era mais uma simples funcionária naquele recinto – havia algo mais perturbador no ar. E então, como um punhal gelado atravessando meu peito, meus olhos se fixaram em uma figura que jamais imaginei encontrar ali, o homem trazia consigo um crachá com o nome do meu chefe.
Meu coração quase parou ao reconhecer o homem cujo olhar enigmático e toque apaixonado haviam incendiado minha noite. Mas agora, diante dele, não havia vestígios da i********e ou do calor que havíamos compartilhado. Collin exalava uma postura fria, autoritária, a cara de alguém que detinha o poder de transformar minha vida com um simples gesto. Enquanto me aproximava, cada passo que ele dava parecia aumentar a sensação de que eu estava prestes a ser julgada – e não da maneira que eu jamais esperaria.
— Manuela Cardoso – sua voz, firme e sem espaço para questionamentos, soou como uma sentença anunciada. Eu senti meu corpo congelar, como se cada fibra estivesse ciente de que o que viria a seguir seria o pior momento da minha existência.
Tentei reunir forças para responder, mas minhas palavras se perderam num nó de vergonha e medo. Cada olhar que sentia dos colegas ao redor intensificava meu desconforto. Era como se eu estivesse exposta em um palco, onde cada suspiro e cada tremor no meu corpo eram o foco de uma plateia impiedosa.
— Precisamos conversar – continuou ele, e a maneira como pronunciou aquelas palavras fez com que meu estômago se revirasse.
Conduzida por uma mistura de resignação e pavor, segui Collin por um corredor lateral. Meu coração batia tão forte que quase podia ouvi-lo ecoar no silêncio opressivo do ambiente. Cada passo que dávamos parecia marcar o compasso de uma sentença que eu não poderia evitar. Em minha mente, eu tentava desesperadamente encontrar uma explicação – uma razão plausível para aquele encontro, para aquele castigo que se anunciava.
Enquanto caminhávamos, cada palavra que Collin proferia ecoava como um golpe em minha alma. Ele falou com uma frieza que não admitia desculpas nem interpretações.
— Suas atitudes na noite passada demonstraram uma clara falta de discernimento e, mais importante, de profissionalismo – declarou, cada sílaba carregada de um desprezo que me dilacerava por dentro.
Eu tentei, com a voz trêmula, justificar o que havia acontecido. “Se foi um lapso, um momento de fraqueza…” comecei, mas as palavras se perderam antes mesmo de encontrar forma. O corredor parecia encolher, e os olhares dos colegas, que antes eram apenas curiosos, agora se fixavam em mim com uma mistura de pena e condenação. Senti minhas bochechas se incendiar, e lágrimas ameaçavam romper a superfície dos meus olhos.
Collin cruzou os braços, e eu percebi que, com cada gesto seu, ele consolidava o poder que agora exercia sobre mim. Sua postura era a de um juiz implacável, e eu, no papel de ré, não tinha para onde correr.
— A partir deste momento, sua conduta aqui está comprometida de forma irreversível – ele disse, a voz tão fria e cortante que parecia separar minha existência em “antes” e “depois”.
Aquilo foi demais para mim. Cada palavra soou como uma sentença definitiva, e a humilhação pública se fez sentir com uma intensidade que jamais imaginei suportar. Senti a vergonha invadir meu ser, enquanto cada colega parecia me julgar silenciosamente, cada olhar era uma lâmina afiada que rasgava minha alma.
Implorei, com a voz embargada, uma chance para me explicar, para mostrar que o que havia acontecido não era reflexo de quem eu realmente era. Mas Collin não me deu espaço para sequer tentar. Com um gesto de desprezo, ele silenciou qualquer tentativa de defesa e prosseguiu com a frieza de um homem que já havia decidido meu destino.
— Suas desculpas são tão vazias quanto os argumentos que você tenta apresentar – replicou, sem deixar espaço para contestação. — Este tipo de comportamento mancha não apenas sua imagem, mas a imagem de toda a equipe.
Senti meu mundo ruir ali mesmo, no corredor da empresa. Cada palavra dele era um golpe que fazia com que minha autoestima se fragmentasse em mil pedaços. O silêncio opressivo dos presentes, o murmúrio contido dos colegas, tudo conspirava para que eu me sentisse a mais insignificante de todas.
Collin se aproximou ainda mais, e naquele instante, pude sentir o frio da sua presença invadindo não só meu espaço, mas também minha alma. Eu estava vulnerável, exposta, e a sensação de desamparo era insuportável. O ar parecia denso demais para respirar, e minhas mãos tremiam enquanto tentava, inutilmente, manter a compostura.
— A partir deste instante, você está desligada de suas funções aqui – ele anunciou, a voz firme e definitiva cortando o ar como uma lâmina afiada. — Considere esta sua demissão imediata.
Naquele momento, senti como se o chão tivesse desaparecido sob meus pés. Toda a estrutura que eu tinha construído – minha carreira, minha reputação, a confiança que sempre tentei cultivar – se esvaía num instante. Queria gritar, implorar por uma chance, mas minha voz se perdeu entre os soluços que ameaçavam me dominar.
Enquanto Collin finalizava sua sentença, meus pensamentos giravam em um turbilhão de culpa, medo e desespero. Eu me via desprovida de forças, cada olhar ao meu redor me punha na posição de uma pecadora condenada, incapaz de se redimir. O som dos passos que me conduziam para fora do prédio ressoava como o compasso final de uma sinfonia de humilhação.
Do lado de fora, o ar gelado parecia zombar da minha fragilidade. Parada nas escadas, eu observava a movimentação da cidade como se estivesse em um sonho distante, onde tudo aquilo não passava de um pesadelo do qual eu, desesperadamente, queria acordar. Cada gota de chuva que começava a cair parecia carregar consigo a tristeza de uma vida inteira de erros e a dolorosa certeza de que, naquele momento, eu era apenas a culpada de minha própria queda.
Procurei refúgio num banco de praça, onde me deixei cair, encurvada, tentando, sem sucesso, conter o pranto que brotava silenciosamente. Ali, no silêncio entre o som das gotas e o murmúrio distante da cidade, cada lágrima que descia pelo meu rosto era um reflexo da dor de saber que minha vida jamais seria a mesma. Eu me sentia pequena, despedaçada, como se a luz da noite anterior tivesse se apagado para dar lugar a uma escuridão implacável.
Enquanto eu tentava recuperar o fôlego, minha mente não cessava de me lembrar do que tinha acontecido. Como pude, tão facilmente, me perder em um momento de paixão e desejo? Como permiti que a luxúria se sobrepusesse ao bom senso e à razão? Essas perguntas giravam incessantemente, sem me dar trégua, e a cada resposta, a sensação de inadequação e arrependimento se aprofundava.
Por entre as lágrimas e o frio, uma centelha de resignação começou a brilhar timidamente em mim. Eu sabia, de alguma forma, que aquele episódio – por mais devastador que fosse – não seria a última palavra da minha história. Mesmo que naquele instante eu me sentisse esmagada pelo peso da humilhação, uma parte de mim se recusava a aceitar que aquele fosse o fim.
Com esforço, levantei-me do banco, enxuguei as lágrimas com as mangas da blusa e comecei a caminhar pelas calçadas molhadas. Cada passo era doloroso, como se estivesse pisando sobre os escombros da minha própria vida. Mas, ao mesmo tempo, eu sentia que, de alguma forma, aquele caminho – embora incerto e repleto de desafios – era também o começo de uma luta para me reerguer, para provar que eu não seria definida por um único deslize.
Enquanto seguia adiante, a imagem de Collin Morris e suas palavras implacáveis continuavam a ecoar em minha mente. O contraste entre a paixão arrebatadora da noite anterior e a dura realidade do dia me assombrava. Eu me perguntava como um homem que, momentos antes, havia despertado em mim sensações tão intensas, agora se transformara no carrasco que selava o fim de um capítulo tão importante da minha vida.
A humilhação pública, a vergonha de ter sido exposta diante de tantos olhos, era um fardo quase insuportável. No entanto, naquele turbilhão de emoções, eu também encontrava uma estranha clareza. Cada olhar de reprovação, cada suspiro contido dos colegas, me lembrava que eu havia cruzado uma linha – uma linha tênue que separava o desejo da irresponsabilidade. E, mesmo que o castigo parecesse severo demais, talvez aquele fosse o preço a pagar por ter me permitido viver intensamente, mesmo que por apenas uma noite.
Enquanto o sol começava a romper timidamente as nuvens após a tempestade passageira, eu olhava para o horizonte com um misto de desolação e determinação. Eu sabia que os próximos dias seriam difíceis, que a reconstrução da minha vida e da minha dignidade exigiria coragem e esforço. Mas, em meio à dor, uma voz interior insistia em sussurrar que aquele episódio não era a totalidade do meu ser – que eu ainda possuía a capacidade de renascer das cinzas do fracasso.
Ao me afastar do prédio, o som dos passos dos seguranças ecoava como um lembrete sombrio do quão frágil minha existência havia se tornado naquele instante. A porta se fechava atrás de mim com um estrondo definitivo, simbolizando não apenas o fim do meu vínculo com aquela empresa, mas também o encerramento de uma fase da minha vida. Uma fase que, embora marcada por erros e humilhações, carregava em si a semente de um recomeço.