O silêncio do apartamento pesava como chumbo. Ainda havia o cheiro do perfume dele preso em sua pele, como se fosse uma marca invisível. Ela se olhou no espelho, enxergando não apenas o reflexo de uma mulher cansada, mas de alguém que jurava a si mesma que não voltaria a se dobrar diante de um homem como aquele.
— Nunca mais… — murmurou, apertando os punhos sobre a pia.
Mas o eco da promessa se quebrou rápido demais. O celular vibrou em cima da mesa e, mesmo sem olhar, ela sabia quem era. Não precisava ver o nome dele na tela para reconhecer a arrogância por trás daquela insistência.
Respirou fundo, tentando ignorar, mas a vibração se repetiu três vezes, até que a paciência se esgotou. Atendeu.
— O que você quer agora? — disparou, sem rodeios.
Do outro lado, a voz dele veio carregada de ironia.
— Gosto da forma como você sempre parece pronta para brigar. Mas não se engane, não atendi para discutir.
— Então para quê? — retrucou, mordendo os lábios.
— Para lembrar que você ainda me deve.
— Eu não devo nada a você! — a raiva cresceu em sua garganta. — Assinei aquele contrato ridículo apenas para calar a sua arrogância.
Ele riu, um som baixo, que mais parecia deboche.
— E mesmo assim, cada vez que você me olha, parece esquecer que a noite que tivemos não pode se repetir.
Ela sentiu o corpo estremecer, não apenas de raiva, mas da lembrança involuntária. O toque, o calor, o prazer proibido. Odeava a forma como o próprio corpo a traía.
— Vá para o inferno. — desligou antes que pudesse ouvir outra palavra.
Jogou o celular no sofá, respirando fundo, tentando se recompor. Mas não demorou muito até que o som de batidas firmes ecoasse na porta. O coração dela acelerou.
— Não pode ser… — sussurrou, incrédula.
Abriu a porta e lá estava ele. Impecável, terno alinhado, olhar frio, o retrato da arrogância.
— Você enlouqueceu? — ela o empurrou para trás, sem sucesso. — Como descobriu onde eu moro?
— Quando eu quero algo, descubro. — ele cruzou os braços, ignorando a hostilidade. — Achei que poderíamos conversar sem a interferência de telefones desligados.
— Não tem nada para conversar. — tentou fechar a porta, mas ele segurou a maçaneta com força.
— Tem sim. — sua voz desceu uma oitava, grave, imponente. — Você não entendeu ainda: não é sobre querer. É sobre precisar.
Ela arqueou as sobrancelhas, indignada.
— Precisar? O que você poderia precisar de mim, cercado de dinheiro, poder e mulheres que rastejam aos seus pés?
Ele a encarou como se cada palavra fosse uma ofensa pessoal. Deu um passo à frente, obrigando-a a recuar.
— É justamente por isso. Nenhuma delas ousa me enfrentar. Nenhuma tem coragem de dizer não. Você é a exceção.
Ela mordeu o lábio, dividida entre orgulho e confusão.
— E isso deveria me lisonjear?
— Isso deve fazer você entender que, queira ou não, você me intriga. — ele aproximou-se ainda mais, o calor do corpo dele invadindo o espaço restrito da sala. — E quando algo me intriga, eu não paro até conquistar.
Ela sentiu a respiração falhar. Odiava como as palavras dele soavam como ameaça e promessa ao mesmo tempo.
— Eu não sou um troféu. — respondeu, firme.
— Não, você é um desafio. — o olhar dele brilhou de forma perigosa. — E eu adoro desafios.
A tensão entre eles era quase palpável. Ela recuou mais um passo, até sentir as costas baterem contra a parede. Ele não a tocava, mas a presença era tão intensa que parecia prender o ar em seus pulmões.
— Está ultrapassando todos os limites. — sussurrou, tentando se manter firme.
Ele inclinou o rosto, próximo demais, os lábios quase roçando sua orelha.
— Limites existem para serem quebrados.
O corpo dela reagiu com um arrepio incontrolável, e isso a enfureceu ainda mais. Empurrou-o com força, criando espaço entre eles.
— Se pensa que vou me submeter a esse joguinho doentio, está muito enganado.
Ele sorriu, mas o sorriso não tinha nada de gentil. Era o sorriso de um predador que acabara de encontrar sua presa mais difícil.
— Então prove.
Ela estreitou os olhos.
— Provar o quê?
— Que você pode resistir. Que não vai ceder.
Ela riu, amarga.
— Você realmente acredita que pode controlar tudo e todos, não é?
— Não acredito. Eu sei. — ele se aproximou novamente, mas desta vez parou a poucos centímetros, o suficiente para fazê-la sentir a pressão sem o toque. — Vou propor algo…
— Não quero nada vindo de você.
— Vai querer. — ele continuou, ignorando a interrupção. — Um jogo. Sem mentiras, sem desculpas. Apenas nós dois.
Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada.
— Que tipo de jogo?
— O jogo das regras. Você tentar resistir. Eu tento derrubar suas defesas. — seus olhos faiscavam de desejo e desafio. — E no final, veremos quem vence.
Ela engoliu em seco. A ideia a revoltou, mas também despertou uma chama estranha.
— Isso é patético.
— É inevitável. — ele deu um passo atrás, finalmente, deixando o ar retornar aos pulmões dela. — Pense nisso.
Ela o observou se afastar até a porta, como se tivesse vencido sem precisar insistir. Antes de sair, virou-se e lançou o golpe final:
— Ah, e lembre-se… nos jogos que eu começo, eu nunca perco.
A porta se fechou atrás dele, e ela desabou no sofá, com o coração acelerado, os pensamentos em turbilhão. Odiava admitir, mas parte de si estava curiosa. Até onde esse jogo poderia levá-los?
As horas seguintes foram uma batalha silenciosa contra a própria mente. Cada palavra dele, cada olhar carregado de arrogância, ainda reverberava dentro dela como uma provocação impossível de ignorar.
Ela tomou banho, deixou a água escorrer quente sobre o corpo, tentando lavar o cheiro dele, a presença dele, o efeito dele. Mas quanto mais esfregava a pele, mais parecia que estava gravado em cada poro.
— Não vai me vencer… — murmurou, apoiada contra os azulejos frios.
Determinada a retomar o controle, se jogou no sofá, ligou a televisão, abriu o notebook, tentou trabalhar. Nada funcionava. A sombra dele estava em tudo.
E como se o universo conspirasse contra sua paz, o celular vibrou novamente. Uma mensagem curta, seca, impossível de ignorar:
“Vista algo vermelho. Em vinte minutos passo para te buscar.”
Ela riu, incrédula.
— Quem ele pensa que é? — jogou o celular sobre a mesa.
Ignorou a ordem, mas vinte minutos depois, a buzina de um carro soou em frente ao prédio. Ela se aproximou da janela e, claro, era ele. O carro preto, o motorista esperando, e ele apoiado contra a porta como se fosse dono do mundo.
Pegou o celular de novo e digitou furiosa:
“Eu não vou.”
A resposta veio instantânea:
“Não perguntei se vai. Estou avisando que já está atrasada.”
O sangue ferveu em suas veias. Odiava essa prepotência. Mas odiava ainda mais a forma como seu corpo reagia a cada ordem, como se a simples ideia de desobedecer fosse tão excitante quanto perigosa.
Respirou fundo, abriu o armário, e, contra todas as promessas que tinha feito a si mesma, pegou um vestido vermelho que jamais admitiria ter escolhido de propósito.
Minutos depois, estava dentro do carro, em silêncio. Ele a olhou de cima a baixo, os olhos escurecendo de satisfação.
— Assim está melhor.
— Vá para o inferno. — retrucou, cruzando as pernas, tentando ignorar o arrepio que percorreu sua espinha.
O destino era um clube privado, luxuoso, cheio de gente elegante. O tipo de ambiente onde ele brilhava e onde ela se sentia deslocada. Mas dessa vez, não recuaria.
Caminhou ao lado dele, cabeça erguida, ignorando os olhares curiosos. Ele a conduziu até uma mesa reservada, afastada dos demais. O garçom apareceu imediatamente, trazendo vinho caro.
— Qual é a jogada agora? — ela perguntou, encarando-o com desdém.
Ele serviu as taças, o olhar fixo nela.
— A jogada é simples: você segue as regras, eu observo até onde consegue resistir.
Ela pegou a taça e bebeu de um só gole, provocativa.
— Vai se decepcionar.
Ele inclinou o corpo para frente, os lábios perigosamente próximos de sua boca.
— Já estou fascinado.
O calor entre eles se intensificava, mas ela não permitiria que ele acreditasse que tinha vencido. Levantou-se abruptamente, atravessou o salão até o banheiro. Precisava respirar.
No espelho, encarou o próprio reflexo. O vestido vermelho colado ao corpo, os lábios tingidos pelo vinho, o olhar mais selvagem do que lembrava ter visto em si mesma.
— Ele não vai me dominar… não vai.
Quando abriu a porta, deu de cara com ele. O corpo forte bloqueava a passagem, os olhos queimavam de desejo contido.
— Você adora brincar com fogo, não é? — ele murmurou.
Ela cruzou os braços, desafiadora.
— E se eu gostar de me queimar?
O ar entre eles explodiu. Ele a puxou para dentro de uma sala de serviço ao lado, o espaço apertado demais para duas vontades tão grandes. A boca dele desceu sobre a dela com brutalidade, um beijo que era guerra e rendição ao mesmo tempo.
Ela tentou resistir, mas as mãos dele seguraram sua cintura com firmeza, esmagando-a contra a parede. O coração dela disparou, o corpo queimava em contradições. Ódio e prazer se misturavam até não dar para distinguir um do outro.
— Eu te odeio… — sussurrou entre um beijo e outro, mordendo o lábio dele com raiva.
— Minta melhor. — ele respondeu, deslizando os dedos pela coxa dela, erguendo o vestido devagar, como se cada centímetro fosse parte do jogo.
Ela arqueou o corpo, tentando recuperar o controle. Empurrou-o, mas ele apenas riu, os olhos famintos.
— Continue lutando. É exatamente isso que me enlouquece.
A respiração dela estava descompassada, o corpo traindo cada palavra de resistência. O toque dele era fogo, queimava sem piedade, e ainda assim ela não queria apagar as chamas.
— Você acha que vai vencer… — ela sussurrou, cravando as unhas no peito dele, deixando marcas. — Mas eu não sou uma das suas conquistas fáceis.
Ele segurou seu queixo, obrigando-a a olhar nos olhos dele.
— Não, você é a única que vale a luta.
O beijo seguinte foi mais lento, mais profundo, quase terno, e isso a destruiu ainda mais. Porque entre a raiva e o desprezo, havia algo que não queria admitir: a atração era real, incontrolável.
Quando finalmente se afastaram, ambos ofegantes, ela ajeitou o vestido e abriu a porta com um empurrão brusco.
— O jogo terminou.
Ele passou a mão pelos lábios, ainda úmidos do beijo, e sorriu com malícia.
— Não, pequena… o jogo só começou.
Ela saiu, o coração martelando no peito, sabendo que, por mais que odiasse admitir, estava presa nas regras dele. E talvez nunca conseguisse escapar.