O Jogo das Regras

1826 Words
O silêncio do apartamento pesava como chumbo. Ainda havia o cheiro do perfume dele preso em sua pele, como se fosse uma marca invisível. Ela se olhou no espelho, enxergando não apenas o reflexo de uma mulher cansada, mas de alguém que jurava a si mesma que não voltaria a se dobrar diante de um homem como aquele. — Nunca mais… — murmurou, apertando os punhos sobre a pia. Mas o eco da promessa se quebrou rápido demais. O celular vibrou em cima da mesa e, mesmo sem olhar, ela sabia quem era. Não precisava ver o nome dele na tela para reconhecer a arrogância por trás daquela insistência. Respirou fundo, tentando ignorar, mas a vibração se repetiu três vezes, até que a paciência se esgotou. Atendeu. — O que você quer agora? — disparou, sem rodeios. Do outro lado, a voz dele veio carregada de ironia. — Gosto da forma como você sempre parece pronta para brigar. Mas não se engane, não atendi para discutir. — Então para quê? — retrucou, mordendo os lábios. — Para lembrar que você ainda me deve. — Eu não devo nada a você! — a raiva cresceu em sua garganta. — Assinei aquele contrato ridículo apenas para calar a sua arrogância. Ele riu, um som baixo, que mais parecia deboche. — E mesmo assim, cada vez que você me olha, parece esquecer que a noite que tivemos não pode se repetir. Ela sentiu o corpo estremecer, não apenas de raiva, mas da lembrança involuntária. O toque, o calor, o prazer proibido. Odeava a forma como o próprio corpo a traía. — Vá para o inferno. — desligou antes que pudesse ouvir outra palavra. Jogou o celular no sofá, respirando fundo, tentando se recompor. Mas não demorou muito até que o som de batidas firmes ecoasse na porta. O coração dela acelerou. — Não pode ser… — sussurrou, incrédula. Abriu a porta e lá estava ele. Impecável, terno alinhado, olhar frio, o retrato da arrogância. — Você enlouqueceu? — ela o empurrou para trás, sem sucesso. — Como descobriu onde eu moro? — Quando eu quero algo, descubro. — ele cruzou os braços, ignorando a hostilidade. — Achei que poderíamos conversar sem a interferência de telefones desligados. — Não tem nada para conversar. — tentou fechar a porta, mas ele segurou a maçaneta com força. — Tem sim. — sua voz desceu uma oitava, grave, imponente. — Você não entendeu ainda: não é sobre querer. É sobre precisar. Ela arqueou as sobrancelhas, indignada. — Precisar? O que você poderia precisar de mim, cercado de dinheiro, poder e mulheres que rastejam aos seus pés? Ele a encarou como se cada palavra fosse uma ofensa pessoal. Deu um passo à frente, obrigando-a a recuar. — É justamente por isso. Nenhuma delas ousa me enfrentar. Nenhuma tem coragem de dizer não. Você é a exceção. Ela mordeu o lábio, dividida entre orgulho e confusão. — E isso deveria me lisonjear? — Isso deve fazer você entender que, queira ou não, você me intriga. — ele aproximou-se ainda mais, o calor do corpo dele invadindo o espaço restrito da sala. — E quando algo me intriga, eu não paro até conquistar. Ela sentiu a respiração falhar. Odiava como as palavras dele soavam como ameaça e promessa ao mesmo tempo. — Eu não sou um troféu. — respondeu, firme. — Não, você é um desafio. — o olhar dele brilhou de forma perigosa. — E eu adoro desafios. A tensão entre eles era quase palpável. Ela recuou mais um passo, até sentir as costas baterem contra a parede. Ele não a tocava, mas a presença era tão intensa que parecia prender o ar em seus pulmões. — Está ultrapassando todos os limites. — sussurrou, tentando se manter firme. Ele inclinou o rosto, próximo demais, os lábios quase roçando sua orelha. — Limites existem para serem quebrados. O corpo dela reagiu com um arrepio incontrolável, e isso a enfureceu ainda mais. Empurrou-o com força, criando espaço entre eles. — Se pensa que vou me submeter a esse joguinho doentio, está muito enganado. Ele sorriu, mas o sorriso não tinha nada de gentil. Era o sorriso de um predador que acabara de encontrar sua presa mais difícil. — Então prove. Ela estreitou os olhos. — Provar o quê? — Que você pode resistir. Que não vai ceder. Ela riu, amarga. — Você realmente acredita que pode controlar tudo e todos, não é? — Não acredito. Eu sei. — ele se aproximou novamente, mas desta vez parou a poucos centímetros, o suficiente para fazê-la sentir a pressão sem o toque. — Vou propor algo… — Não quero nada vindo de você. — Vai querer. — ele continuou, ignorando a interrupção. — Um jogo. Sem mentiras, sem desculpas. Apenas nós dois. Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada. — Que tipo de jogo? — O jogo das regras. Você tentar resistir. Eu tento derrubar suas defesas. — seus olhos faiscavam de desejo e desafio. — E no final, veremos quem vence. Ela engoliu em seco. A ideia a revoltou, mas também despertou uma chama estranha. — Isso é patético. — É inevitável. — ele deu um passo atrás, finalmente, deixando o ar retornar aos pulmões dela. — Pense nisso. Ela o observou se afastar até a porta, como se tivesse vencido sem precisar insistir. Antes de sair, virou-se e lançou o golpe final: — Ah, e lembre-se… nos jogos que eu começo, eu nunca perco. A porta se fechou atrás dele, e ela desabou no sofá, com o coração acelerado, os pensamentos em turbilhão. Odiava admitir, mas parte de si estava curiosa. Até onde esse jogo poderia levá-los? As horas seguintes foram uma batalha silenciosa contra a própria mente. Cada palavra dele, cada olhar carregado de arrogância, ainda reverberava dentro dela como uma provocação impossível de ignorar. Ela tomou banho, deixou a água escorrer quente sobre o corpo, tentando lavar o cheiro dele, a presença dele, o efeito dele. Mas quanto mais esfregava a pele, mais parecia que estava gravado em cada poro. — Não vai me vencer… — murmurou, apoiada contra os azulejos frios. Determinada a retomar o controle, se jogou no sofá, ligou a televisão, abriu o notebook, tentou trabalhar. Nada funcionava. A sombra dele estava em tudo. E como se o universo conspirasse contra sua paz, o celular vibrou novamente. Uma mensagem curta, seca, impossível de ignorar: “Vista algo vermelho. Em vinte minutos passo para te buscar.” Ela riu, incrédula. — Quem ele pensa que é? — jogou o celular sobre a mesa. Ignorou a ordem, mas vinte minutos depois, a buzina de um carro soou em frente ao prédio. Ela se aproximou da janela e, claro, era ele. O carro preto, o motorista esperando, e ele apoiado contra a porta como se fosse dono do mundo. Pegou o celular de novo e digitou furiosa: “Eu não vou.” A resposta veio instantânea: “Não perguntei se vai. Estou avisando que já está atrasada.” O sangue ferveu em suas veias. Odiava essa prepotência. Mas odiava ainda mais a forma como seu corpo reagia a cada ordem, como se a simples ideia de desobedecer fosse tão excitante quanto perigosa. Respirou fundo, abriu o armário, e, contra todas as promessas que tinha feito a si mesma, pegou um vestido vermelho que jamais admitiria ter escolhido de propósito. Minutos depois, estava dentro do carro, em silêncio. Ele a olhou de cima a baixo, os olhos escurecendo de satisfação. — Assim está melhor. — Vá para o inferno. — retrucou, cruzando as pernas, tentando ignorar o arrepio que percorreu sua espinha. O destino era um clube privado, luxuoso, cheio de gente elegante. O tipo de ambiente onde ele brilhava e onde ela se sentia deslocada. Mas dessa vez, não recuaria. Caminhou ao lado dele, cabeça erguida, ignorando os olhares curiosos. Ele a conduziu até uma mesa reservada, afastada dos demais. O garçom apareceu imediatamente, trazendo vinho caro. — Qual é a jogada agora? — ela perguntou, encarando-o com desdém. Ele serviu as taças, o olhar fixo nela. — A jogada é simples: você segue as regras, eu observo até onde consegue resistir. Ela pegou a taça e bebeu de um só gole, provocativa. — Vai se decepcionar. Ele inclinou o corpo para frente, os lábios perigosamente próximos de sua boca. — Já estou fascinado. O calor entre eles se intensificava, mas ela não permitiria que ele acreditasse que tinha vencido. Levantou-se abruptamente, atravessou o salão até o banheiro. Precisava respirar. No espelho, encarou o próprio reflexo. O vestido vermelho colado ao corpo, os lábios tingidos pelo vinho, o olhar mais selvagem do que lembrava ter visto em si mesma. — Ele não vai me dominar… não vai. Quando abriu a porta, deu de cara com ele. O corpo forte bloqueava a passagem, os olhos queimavam de desejo contido. — Você adora brincar com fogo, não é? — ele murmurou. Ela cruzou os braços, desafiadora. — E se eu gostar de me queimar? O ar entre eles explodiu. Ele a puxou para dentro de uma sala de serviço ao lado, o espaço apertado demais para duas vontades tão grandes. A boca dele desceu sobre a dela com brutalidade, um beijo que era guerra e rendição ao mesmo tempo. Ela tentou resistir, mas as mãos dele seguraram sua cintura com firmeza, esmagando-a contra a parede. O coração dela disparou, o corpo queimava em contradições. Ódio e prazer se misturavam até não dar para distinguir um do outro. — Eu te odeio… — sussurrou entre um beijo e outro, mordendo o lábio dele com raiva. — Minta melhor. — ele respondeu, deslizando os dedos pela coxa dela, erguendo o vestido devagar, como se cada centímetro fosse parte do jogo. Ela arqueou o corpo, tentando recuperar o controle. Empurrou-o, mas ele apenas riu, os olhos famintos. — Continue lutando. É exatamente isso que me enlouquece. A respiração dela estava descompassada, o corpo traindo cada palavra de resistência. O toque dele era fogo, queimava sem piedade, e ainda assim ela não queria apagar as chamas. — Você acha que vai vencer… — ela sussurrou, cravando as unhas no peito dele, deixando marcas. — Mas eu não sou uma das suas conquistas fáceis. Ele segurou seu queixo, obrigando-a a olhar nos olhos dele. — Não, você é a única que vale a luta. O beijo seguinte foi mais lento, mais profundo, quase terno, e isso a destruiu ainda mais. Porque entre a raiva e o desprezo, havia algo que não queria admitir: a atração era real, incontrolável. Quando finalmente se afastaram, ambos ofegantes, ela ajeitou o vestido e abriu a porta com um empurrão brusco. — O jogo terminou. Ele passou a mão pelos lábios, ainda úmidos do beijo, e sorriu com malícia. — Não, pequena… o jogo só começou. Ela saiu, o coração martelando no peito, sabendo que, por mais que odiasse admitir, estava presa nas regras dele. E talvez nunca conseguisse escapar.
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