Acordei no dia seguinte com a sensação de estar carregando chumbo nos ombros. A lembrança da noite ainda queimava em mim — não pelo prazer, mas pela forma c***l com que havia terminado. O papel que ele me obrigou a assinar estava gravado na minha mente como uma tatuagem que eu nunca quis. Um contrato. Um pedaço de papel que reduzia tudo ao nada.
Por mais que eu repetisse para mim mesma que não significara nada, que tinha sido apenas uma noite de loucura, meu corpo me traía. Eu ainda sentia a pressão das mãos dele, a intensidade dos beijos, o domínio. E era justamente isso que me deixava em fúria.
Passei o dia de ressaca, tentando enterrar aquela lembrança. Ignorei mensagens das amigas, desliguei o celular e prometi a mim mesma que, se algum dia cruzasse com aquele CEO arrogante de novo, fingiria que ele não existia.
Mal sabia eu que a cidade é pequena demais quando um homem como ele decide que você não vai simplesmente desaparecer.
Naquela mesma semana, fui arrastada por uma colega de trabalho para um evento corporativo. Eu não queria ir, mas ela insistiu que seria uma boa oportunidade de networking, e como eu estava tentando me recolocar melhor profissionalmente, acabei cedendo.
A sala do hotel luxuoso estava repleta de gente engravatada, taças de champanhe circulando em bandejas, e um ar de superioridade pairando no ar. Entrei com um sorriso falso, disfarçando meu desconforto, até que senti o coração parar.
Ele estava ali.
Alto, imponente, vestindo um terno perfeitamente alinhado que parecia ter sido costurado no próprio corpo. O olhar dele varreu o ambiente até encontrar o meu. Um sorriso de canto surgiu em seus lábios, aquele tipo de sorriso que não era de boas-vindas, mas de provocação.
Meu instinto foi virar as costas, mas já era tarde demais. Ele estava se aproximando.
— Olha só… — a voz dele soou baixa, rouca, carregada de sarcasmo. — A senhorita que não gosta de dinheiro.
Revirei os olhos. — Não me chama assim.
— Está sensível? — inclinou-se um pouco, perto demais, como se estivesse me contando um segredo. — Achei que já tivesse entendido que entre nós não existe doçura.
Cruzei os braços, erguendo o queixo. — Não existe nada entre nós. Uma noite não faz de você dono de mim.
Ele riu, um riso seco, carregado de deboche. — Engraçado. Você assinou um contrato dizendo exatamente isso.
O ódio me subiu como fogo. — O contrato que você enfiou goela abaixo porque sabia que foi fraco demais para admitir que sentiu algo.
Por um segundo, vi a mandíbula dele endurecer. Ele não esperava que eu atacasse assim. Mas logo o disfarce voltou: olhos frios, sorriso de ferro.
— Cuidado com as palavras, docinho. Você não sabe brincar nesse nível.
— Não estou brincando. — virei de costas, tentando me afastar.
Mas ele foi mais rápido. Segurou meu braço com firmeza, sem me machucar, mas firme o bastante para que eu sentisse quem tinha o controle.
— Você devia aprender que não é tão simples fugir de mim.
Meu corpo tremeu, e eu odiei a mim mesma por isso. O toque dele era veneno e vício ao mesmo tempo.
Consegui me soltar e me refugiei em um canto, tentando recuperar a respiração. Minha colega estava entretida em uma conversa, sem notar meu estado. Pedi um drink forte, qualquer coisa que queimasse minha garganta e me ajudasse a esquecer o calor que aquele homem deixava em mim.
Mas esquecer era impossível. Porque ele voltou. Claro que voltou.
— Você está diferente hoje — disse, encostando-se ao balcão ao meu lado. — Mais insolente.
— Ou talvez só tenha acordado para a realidade — retruquei, bebendo de um gole só. — Você não é nada além de um homem que compra o que quer.
— E você não é nada além de uma mulher que acha que pode me dizer não.
A ousadia dele me arrancou o ar. O jeito como me encarava, como se cada palavra fosse um desafio, fazia o sangue correr mais rápido. E era isso que eu odiava. Porque, no fundo, eu sabia que desejava o perigo que vinha com ele.
— Eu já disse que não vai acontecer de novo. — minhas palavras saíram mais fracas do que eu queria.
Ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu, o perfume dele me cercando. — E eu já disse que não gosto de ser contrariado.
Nossos olhares se prenderam, e por um instante, o mundo inteiro desapareceu. O coração batia acelerado, a respiração curta. Eu sabia que bastava um movimento, um toque, e eu cederia de novo.
Mas me afastei. — Vai brincar de CEO com outra. Eu não sou seu jogo.
Ele riu baixo, como se estivesse se divertindo. — Não? Então por que está tremendo?
A raiva me atingiu como um soco. — Vá pro inferno.
E saí andando, ignorando o calor que meu corpo inteiro sentia.
Achei que tinha me livrado dele quando entrei no banheiro feminino, mas ao sair, dei de cara com a parede viva que era o corpo dele, esperando, braços cruzados, como se soubesse exatamente para onde eu iria.
— Isso é assédio — rosnei.
— Isso é proximidade — ele corrigiu, inclinando-se até que sua boca quase roçasse a minha orelha. — E você vai ter que se acostumar.
Empurrei-o com toda força que tinha. — Nem nos meus piores pesadelos.
Ele apenas sorriu, como quem já sabia que eu estava mentindo para mim mesma.
A noite terminou comigo saindo mais cedo, coração disparado, jurando que não deixaria aquele homem me afetar novamente. Mas no fundo, a verdade era c***l: o que eu mais temia não era o desprezo dele, e sim o fato de que uma parte de mim queria mergulhar naquele abismo de novo.
Ele era perigo. Ele era arrogância. Ele era tudo o que eu devia odiar.
Mas a proximidade dele me fazia queimar.
E eu sabia que aquilo era só o começo.