MELISSA
— Acho que nunca andei numa moto!
Eu abraço Enzo com força, e percebo como ele é forte. Ele faz carinho no meu braço e segura a minha mão o que me deixa arrepiada.
— Vai entrar por onde? JP emparelha a moto.
— Pela rua B! O Enzo responde.
— Vai deixar elas em casa? JP pergunta, tentando acompanhar o Enzo que pela sensação do vento, está andando bem rápido.
— Vou! Ele responde.
— Valeu! JP responde e acelera ainda mais. Não demora muito, e o que aparece na minha frente me deixa espantada.
— É uma favela? Favela igual de televisão? Eu percebo que falei isso alto demais, quando eu vejo que Enzo está rindo.
— Desculpe, é que é imprecionante! Eu falo com a boca aberta.
— O quê é impressionante? Ele me pergunta com um sorriso no rosto.
— Tudo! Eu respondo e ele para a moto. — Entregue. Ele diz, e eu estava tão maravilhada com tudo que estava vendo que demorei para perceber que ele tinha parado. Saindo do meu estado de completa perplexidade eu olho para a casa e olho para a Bia.
— Você mora aqui, Bianca?
— Vem vamos entrar! Lá dentro a gente conversa. Ela me responde com a voz meio tímida.
— Eu quero conversar com você primeiro, Melissa! Pode ser? O Enzo me pergunta e eu concordo com a cabeça.
— Então vamos para o escritório, sobe aí.
Eu subo de novo na moto e saímos.
Chegamos numa construção de dois andares. Descemos e ele abre uma porta. — Entra. Eu entro e ele entra atrás.
— Senta, por favor. Ele fala apontando para uma cadeira e eu sento.
— Eu vou ser bem direto, Nanda. Eu acabei de trocar uma dívida muito valiosa por você. Eu não posso ficar no prejuízo. Então o bagulho é o seguinte. Você vai ter que trabalhar para pagar, depois que você me pagar o que deve, você é livre para ir embora se você quiser.
— Trabalhar? Eu pergunto assustada. — Mais o que eu posso fazer? Eu nunca trabalhei.
Eu pergunto morrendo de medo da resposta.
— Então gatinha, você achou que eu seria um príncipe encantado que te salvaria das garras do monstro e deixaria você ir? Não é assim que funciona, e sim, você vai ter que trabalhar. Você vai trabalhar na contabilidade, quero que cuide das minhas contas. Tenho certeza que nisso você é boa, aquele colégio tem que servir para alguma coisa, além de custar quase um rim. Aqui você vai ter um teto, comida e vou continuar pagando a escola porque parece que a Bia, só tem você naquele lugar. Mas, a partir de hoje, vocês não dormem mais na escola. É pegar ou largar. Eu olho no fundo dos olhos dele, e vejo que eu não tenho escolha, eu não sei do que ele é capaz se eu disser que não quero. — Eu aceito! Qualquer coisa é melhor do que voltar.
— Ótimo! Hoje você vai para o baile já para ver como parte da coisa funciona.
Eu pensei por um momento que ele até poderia estar interessado em mim, e agora com a frieza das palavras dele, eu percebo que estou enganada.
— Era isso que eu tinha para dizer, e já que chegamos a um acordo, eu vou levar você para a Bia de novo.
— Obrigado por tudo. Eu digo um pouco envergonhada por ter pensando que ele poderia ter feito tudo isso apenas porque estava interessado em mim.
— É imperador! E não precisa agradecer. Agora vamos que a Bia, vai ficar louca em saber que vai para o baile.
....
— E aí? Como eu estou? Eu pergunto dando uma voltinha para a Bianca dar uma olhada na minha roupa.
— Tá muitooooo periguete! Ela diz e nos duas começamos a rir juntas.
— Zueira! Tá muito gata.
— E você está um arraso com essas suas mexas rosas. Eu digo passando a mão nos cabelos dela.
— Então é isso! Vamos?
— Simmmmm! Eu tenho que começar a pagar a minha dívida.
— Eu não aceito isso que o Enzo esta fazendo. Eu vou falar com ele. Ele não pode fazer isso.
— Amiga, ele está certo. Eu tenho que pagar. E ele disse que hoje é para que eu possa entender como as coisas funcionam, que eu vou ficar na contabilidade. Eu não achei ru*im, ele me deu um lugar digno. Por um momento eu pensei que ele ia propor outra coisa.
— Bem, se você está bem com isso, então, tudo bem. Aí Deus, nem acredito. Eu vou no baileeee! Ohhh novinha eu quero te ver contente, não abandona o bonde da gente...
— Kkkkkkkkkkkk, para! Você cantando é péss*ima!
— É tem razão. E eu não quero cantar. O que eu quero é rebolar a bund*a, até não aguentar mais. Anda vamos! Ela me puxa pela mão e descemos correndo. Duas motos já estava esperando por nos duas, e do jeito que os dois rapazes nos cumprimenta a hora que chegamos perto deles, deixa claro que eles não podem ter qualquer tipo de contato com a gente. Eu não tenho dúvidas que foram ordens do Enzo. E o que eu posso dizer, quando nos aproximamos e já é possível escutar as vibrações da música? É uma adrenalina que eu nunca senti na vida. É como se o meu coração estivesse gritando que pela primeira vez em muito tempo, que está livre e feliz.
— Aí amiga, eu acho que vou desmaiar! Eu sempre sonhei com isso. O Enzo nunca deixou e agora, eu estou aqui. Nem acredito. A Bia fala descendo da moto quase pulando de tanta felicidade.
— Não é um sonho, é real. Você vai ficar aí parada, ou vamos entrar para aproveitar?
— Só se for agora!
Entramos e parece que acabamos de entrar em outro mundo. Muita gente, uma música alta, bebida para todo lado. Já fomos em festinhas, mas nunca estive num lugar se quer parecido com esse.
— Vem, vamos no bar, pegar uma bebida, eu estou tão nervosa que preciso de uma bebida para relaxar.
— Como assim? Você já bebeu? Você já bebeu alguma vez na sua vida?
— Eu não! Ela responde com uma risada.
— Eu também não. Eu nunca quis beber, porque você sabe como são aqueles idi*otas da escola.
— É você não está errada. Mas a pergunta é o que a gente vai beber. O único nome de bebida que eu conheço é cerveja, mas acho que não tem nada a ver com a gente.
— Não sei! Eu também só conheço cerveja. Eu também não sei, eu nunca bebi na vida! Olha aquela latinha ali na mão daquela menina. É colorida, deve ser bom.
— Já gostei da lata. Então vamos pedir isso. Oi. Ela fala debruçando na bancada do bar.
— Oi. Um careca m*al encarado responde.
— Queremos duas latinhas daquela ali. Aquela colorida. Ela aponta para a mão da menina. — Eu quero azul! E você Mel?
— Roxa! Eu respondo sem nem saber o que é.
— Latinha colorida? O careca responde.
— É! Igual aquela ali. Ela aponta de novo, e ele olha.
— Skol zodíaco? Ele pergunta com um sorriso de deboche na cara.
— Ah esse é o nome? Bianca me olha é ri.
— Sim, esse é o nome. Tem que pegar a fichinha primeiro no caixa. Ele fala e não tenho dúvidas que ele está achando nos duas crianças que nunca saíram do condomínio.
— Eu tenho conta! A Bia responde.
— Ah é? Ele fala arqueando a sobrancelha.
— Sim! Bianca é o meu nome! O Imperador deve ter liberado para mim.
— Sei. Para você e para as outras 500 que vem aqui dizendo a mesma coisa. Circulando que eu não tenho tempo para isso.
— Olha aqui moço! Você pode perguntar para ele. A Bia já fala irritada.
— Não vou perturbar ele, com isso. E vocês são menores. Mas duas perdidas, que vem para cá achando que isso é legal. Conselho que eu dou! Caiam fora.
— Você vai se arrepender de estar falando assim comigo! Ela se vira e sorri a hora que vê um carinha com um fuzil. — Psiu! Gatinho. O que acha de me emprestar o seu rádio em troca de um beijo?
— Você tá maluca Bianca? Eu puxo ela.
— Tô é no ódio, desse careca e vou mostrar para ele quem eu sou. Ela me diz e se vira para o carinha de novo. — E então?Aceita?
O cara não pensa duas vezes e entrega o rádio para ela. Ela sorri para ele, e aperta o botão do rádio.
— Enzo, você não merece o nick de Imperador! Eu estou aqui em frente ao bar, e esse careca aqui está me humilhando e me fazendo passar vergonha. Então é bom você vir resolver isso se não você vai ver o escândalo que eu vou fazer.