Capítulo 9 — Quando o Silêncio Começa a Gritar

1015 Words
Beatriz passou a noite em claro. Não por barulho. Não por pesadelos. Mas porque o silêncio de Eduardo ao seu lado gritava mais alto do que qualquer discussão. Ele estava deitado na mesma cama, de costas para ela, respirando de forma lenta e controlada, como se nada tivesse acontecido. Como se as palavras ditas horas antes não tivessem aberto uma f***a irreversível entre eles. Ela observava o contorno rígido das costas dele, a linha tensa dos ombros, e sentia uma mistura perigosa de coisas que não combinavam entre si: raiva, desejo, ressentimento… e uma curiosidade amarga. Como alguém podia ser tão distante e, ainda assim, ocupar tanto espaço dentro dela? Beatriz fechou os olhos, tentando afastar a lembrança da mão dele em seu queixo, da forma como ele havia dito “você já é minha” com uma convicção perturbadora. Aquilo não era amor. Aquilo não era carinho. Era posse. E, pela primeira vez desde o casamento, Beatriz sentiu medo — não dele exatamente, mas de si mesma. Do quanto aquela tensão a afetava. Do quanto seu corpo reagia mesmo quando sua mente gritava para fugir. Quando o amanhecer chegou, ela já havia tomado uma decisão. Eduardo percebeu que algo estava diferente antes mesmo de Beatriz dizer qualquer coisa. Ela não falou com ele durante o café da manhã. Não reclamou. Não o enfrentou. Não tentou chamar atenção. Ela simplesmente existia… distante. E aquilo o incomodou mais do que qualquer confronto. — Você não vai trabalhar hoje? — ele perguntou, observando-a pegar a bolsa. — Não — respondeu ela, sem olhá-lo. — Tenho coisas para resolver. Eduardo franziu o cenho. — Que coisas? Ela parou por um segundo, a mão ainda segurando a alça da bolsa. — Coisas minhas. O tom calmo foi como um aviso silencioso. Eduardo não gostou. — Beatriz. Ela se virou. — O que foi? Ele hesitou. Algo raro. Pela primeira vez, parecia escolher as palavras. — Não saia assim. — Assim como? — Distante. Ela sorriu, mas não havia humor algum ali. — Engraçado… você passou meses me tratando exatamente assim. A resposta o atingiu mais forte do que ele esperava. Ela saiu antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Eduardo ficou parado no meio da cozinha, sentindo uma irritação estranha crescer no peito. Não era raiva comum. Era algo mais incômodo, quase um vazio inquietante. Ele não estava acostumado a perder o controle das situações. E Beatriz estava escapando. O escritório do advogado cheirava a papel, café velho e decisões irreversíveis. Beatriz sentou-se diante da mesa com as mãos levemente trêmulas, mas a postura firme. Não estava ali por impulso. Aquilo vinha sendo construído há semanas — noites solitárias, palavras engolidas, sentimentos ignorados. — Você tem certeza? — perguntou o advogado, folheando alguns documentos. — Um divórcio nesse tipo de casamento não é simples. — Eu sei — respondeu ela. — Mas é necessário. — Houve traição? Violência? Beatriz pensou em Eduardo. Na frieza. Na posse disfarçada de indiferença. — Houve ausência — disse. — E isso também destrói. O advogado assentiu. — Posso dar entrada, mas o processo será… delicado. — Tudo bem — ela respondeu, sentindo um nó na garganta. — Eu só preciso respirar de novo. Ao sair do prédio, Beatriz sentiu o ar bater no rosto como se fosse a primeira vez em muito tempo. Não era felicidade. Era algo mais próximo de alívio misturado com medo. Ela não sabia como Eduardo reagiria. E isso a assustava. Eduardo descobriu naquela mesma noite. Não por Beatriz. Mas porque ele tinha o hábito de saber de tudo. O telefone tocou enquanto ele estava no escritório. Assim que ouviu o nome do advogado, algo dentro dele se fechou. — Um pedido de orientação para divórcio foi registrado hoje — disse a voz do outro lado. — Envolve sua esposa. O mundo pareceu se contrair. — Repete — Eduardo disse, em um tom perigosamente baixo. Quando a ligação terminou, ele ficou parado, olhando para a parede, sentindo algo que não reconhecia direito. Ela realmente teve coragem. Beatriz… pediu o divórcio. A palavra ecoava na mente dele como uma afronta pessoal. Divórcio significava perda. Significava falha. Significava que ela estava tentando sair do alcance dele. E isso… isso ele não aceitava. Ele saiu do escritório sem avisar ninguém. Beatriz estava no quarto quando ouviu a porta da casa bater com força. O som pesado dos passos subindo as escadas fez seu estômago se revirar. Eduardo entrou no quarto sem bater. O olhar dele estava diferente. Não frio. Não distante. Era intenso. — Você pediu o divórcio — ele disse, sem rodeios. Beatriz respirou fundo. — Pedi. — Sem falar comigo? — Assim como você tomou decisões sobre nosso casamento sem falar comigo. O silêncio que se seguiu foi denso. Eduardo caminhou lentamente até ela. Não a tocou. Não precisou. — Você acha mesmo que pode simplesmente sair? — perguntou. — Eu não pertenço a você — ela respondeu, sentindo o coração disparar. — Nunca pertenci. Algo se rompeu. Eduardo riu, mas não havia humor algum naquele som. — Você não faz ideia do que está mexendo. — Então me deixe ir. Ele parou a poucos centímetros dela. — Não. A palavra foi dita com uma convicção que fez o corpo dela arrepiar. — Você não vai embora, Beatriz — ele continuou. — Não assim. — Isso não é sua decisão. — Tudo que envolve você é minha decisão — ele rebateu, a voz baixa, controlada demais para ser segura. Beatriz sentiu o medo subir… mas também algo mais. Uma centelha de desafio. — Eu não vou viver presa em um casamento vazio — disse. — Prefiro enfrentar o caos do que continuar invisível. Os olhos de Eduardo escureceram. — Invisível? — repetiu. — Você nunca foi invisível. — Então por que só agora parece se importar? A pergunta ficou no ar. Eduardo não respondeu. Mas, naquele instante, ele entendeu algo que mudaria tudo: Beatriz não era apenas uma esposa conveniente. Ela era o ponto fraco que ele nunca admitiu ter. E a ideia de perdê-la não despertava amor. Despertava obsessão.
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