Beatriz não sabia mais o que sentia. O que antes parecia uma linha bem definida entre o que era certo e o que não era, agora estava embaçado, turvo. Cada passo que dava em direção a Eduardo, cada palavra trocada, parecia afundá-la mais fundo em um buraco sem fundo. O medo de perder o controle estava se tornando mais real a cada dia. Mas, ao mesmo tempo, havia uma atração tão avassaladora que ela não conseguia ignorar. Como se a cada vez que se afastava, o desejo a puxasse de volta com ainda mais força.
Era difícil pensar racionalmente quando ele estava ao seu lado. Ele tinha esse poder sobre ela. Uma presença que não precisava ser impositiva, mas que tomava conta de tudo ao redor. E ela estava começando a aceitar isso de uma forma dolorosa.
Naquela manhã, Beatriz tentou fazer o que costumava fazer: acordar, tomar café, sair de casa para trabalhar. A rotina parecia segura, como uma rede de segurança invisível. Mas hoje, havia algo no ar. Algo que a incomodava. Eduardo estava em casa.
Ela o encontrou na cozinha, como sempre, com a postura ereta e os olhos fixos em algo invisível para ela. Ele parecia indiferente, mas o simples fato de ele estar ali a fez questionar sua própria calma.
"Você vai passar o dia todo em casa?" ela perguntou, tentando manter a voz fria e controlada.
Ele olhou para ela, com aquele olhar penetrante, como se estivesse esperando que ela perguntasse. Como se ele soubesse que ela já estava em dúvida sobre como reagir.
"Sim," ele respondeu, enquanto pegava uma xícara de café. "Tenho algumas coisas a resolver."
Ela queria dizer mais, perguntar mais. Mas, ao invés disso, ficou em silêncio. Cada palavra que ele falava parecia envolvê-la ainda mais em sua teia, e ela não sabia mais o que fazer. A luta interna entre o desejo de se afastar e a atração que ele despertava nela estava em seu ponto mais alto.
Beatriz se virou para sair da cozinha, mas Eduardo a impediu com um simples movimento. Ele não tocou nela, mas a presença dele era o suficiente para ela parar. A pressão da sua energia a envolvia de uma maneira que era quase impossível ignorar.
"Beatriz," ele disse, seu tom mais baixo, mais sombrio. "Você não vai me ignorar hoje, vai?"
Ela olhou para ele, tentando manter o controle.
"Eu não estou te ignorando," ela respondeu, a voz mais calma do que ela realmente se sentia. "Eu só…"
"Você só o quê?" ele interrompeu, agora mais próximo dela, sem tocá-la, mas com a voz carregada de uma intensidade que fez o corpo dela reagir. "Você está fugindo de mim, Beatriz."
As palavras dele a atingiram com uma força que ela não esperava. Ela sabia que estava fugindo dele. Sabia que estava tentando resistir, mas não sabia mais o que fazer. Ele tinha algo que ela não podia controlar, algo que a deixava fraca, vulnerável, mas também desejando mais.
"Eu não estou fugindo," ela murmurou, mas a frase soou vazia até para ela mesma.
Eduardo olhou para ela, seus olhos escuros e impenetráveis.
"Eu vejo o que você está fazendo," ele disse, com uma calma assustadora. "Está tentando se afastar, tentando não se envolver. Mas não vai conseguir."
O silêncio entre eles ficou pesado. Beatriz sentiu a pressão em sua cabeça, em seus ombros. O que ele queria dela? Por que ele não a deixava em paz?
Ela queria responder, queria gritar. Mas algo a detinha. Ela não sabia se era o medo de perder o controle ou a força irresistível que ele exercia sobre ela.
"Você não me pertence, Eduardo," ela finalmente disse, a voz firme, tentando afirmar sua independência.
Mas, ao dizer isso, algo em seu peito se apertou. Era uma mentira. Ela sabia disso.
"Isso é o que você diz para si mesma," ele respondeu, com um sorriso frio. "Mas no fundo, você sabe que é mentira."
Ela olhou para ele, irritada consigo mesma. Como ele conseguia fazer com que tudo o que ela dizia soasse como uma justificativa vazia?
"Eu não sou sua, Eduardo," ela repetiu, mais firme, mais forte.
Ele sorriu de novo, mas dessa vez, o sorriso tinha algo de mais ameaçador. Ele deu um passo mais perto, até que estavam quase se tocando. A tensão entre eles aumentou, como se o ar ao redor estivesse carregado de eletricidade.
"Você já é minha, Beatriz," ele disse, em um sussurro quase imperceptível, mas tão claro. "Você só não percebeu ainda."
Aquelas palavras a paralisaram. Ela sabia que não deveria reagir a isso, que deveria manter a distância, manter o controle. Mas, ao invés disso, ela sentiu um calor subir por seu corpo. Algo dentro dela estava começando a ceder, e ela não sabia como impedir.
"Você acha que pode fugir de mim?" ele continuou, agora quase se divertindo com a luta interna dela. "Você acha que pode resistir ao que está acontecendo entre nós? Que pode voltar para a sua vida normal?"
Beatriz olhou para ele, tentando não mostrar que suas palavras a atingiam mais do que ela queria admitir.
"Eu não sou o que você pensa, Eduardo," ela disse, sua voz quase inaudível. "Eu não vou ser a sua esposa, a sua…"
Ele a interrompeu, pegando seu queixo com delicadeza, mas com firmeza suficiente para que ela não pudesse se mover. Seus olhos estavam fixos nos dela, e Beatriz sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
"Você não tem escolha, Beatriz," ele disse, quase suavemente. "A verdade é que você já me pertence. Você só ainda não aceitou."
Aquelas palavras ecoaram na cabeça dela, e Beatriz sentiu uma sensação de impotência crescer dentro de si. Ela queria se afastar, queria resistir, mas ele estava certo, não estava?
Ela tentou afastar a mão dele, mas sua força era inegável. Ele estava no controle, e ela sentiu isso, no fundo de seu ser.
"Você é minha, Beatriz," ele repetiu, com uma intensidade que fez seu coração bater mais rápido. "E quando você entender isso, não haverá mais volta."
Ela olhou para ele, os olhos queimando com a frustração e a raiva de não poder fugir.
"Eu não sou sua," ela sussurrou, quase como uma oração.
Mas, ao dizer isso, Beatriz soube que estava mentindo. E, no fundo, ela sabia que havia algo mais em jogo do que ela estava disposta a admitir.