Capítulo 16 — A Noite em que Ela Ficou

966 Words
Beatriz só percebeu o que tinha feito quando a porta se fechou atrás deles. O clique da fechadura ecoou pelo apartamento como um ponto final — não no divórcio, não no casamento, mas na tentativa desesperada de fingir que nada daquilo importava. Eduardo não a tocou de imediato. E isso foi o que mais a afetou. Ele ficou ali, a poucos passos de distância, observando-a como se estivesse diante de algo sagrado e perigoso ao mesmo tempo. O silêncio entre eles não era vazio. Era espesso, carregado de tudo que haviam reprimido por meses. — Você pode mudar de ideia — ele disse, finalmente. — Agora. Daqui a cinco minutos. Quando quiser. Beatriz engoliu em seco. — Para de ser racional — ela murmurou. — Isso não combina com você. Eduardo sorriu de leve. — Combina com alguém que sabe que pode perder tudo com um passo errado. Ela sentiu o peito apertar. — Eu não sou um prêmio. — Eu sei — ele respondeu. — É por isso que eu estou com medo. A sinceridade dele a atingiu em cheio. Beatriz respirou fundo e deu o primeiro passo. Depois outro. Parou a centímetros dele. — Eu fico esta noite — disse, firme. — Mas não quero promessas. Nem discursos. Nem destino. — Só verdade — ele completou. — Só verdade. Eduardo ergueu a mão lentamente, como se pedisse permissão até para respirar perto dela. Beatriz assentiu quase imperceptivelmente. O toque veio primeiro na cintura. Quente. Firme. Presente. Nada agressivo. Nada apressado. O corpo dela reagiu imediatamente, como se tivesse esperado por aquilo desde o primeiro dia em que ele a ignorara à mesa de jantar. — Você está tremendo — ele murmurou. — Não fala — ela pediu. — Por favor. Eduardo obedeceu. O beijo começou devagar, exploratório, como se ambos estivessem reaprendendo a se tocar. Não havia raiva ali. Nem pressa. Apenas a necessidade crua de sentir. Beatriz sentiu as mãos dele subirem pelas costas, segurando-a com uma firmeza que não machucava, mas ancorava. Como se dissesse, sem palavras: eu estou aqui. Ela puxou a camisa dele, desfazendo os botões com dedos trêmulos. Eduardo respirou fundo quando sentiu a pele dela sob suas mãos, como se aquilo fosse mais do que desejo — fosse sobrevivência. — Beatriz… — ele começou. — Não — ela interrompeu, apoiando a testa no peito dele. — Se você falar meu nome assim, eu vou pensar demais. Eduardo fechou os olhos. — Então me diz para continuar. Ela ergueu o rosto. — Continua. O pedido mudou tudo. Eduardo a beijou novamente, agora com mais intensidade, como se o autocontrole estivesse por um fio. Ele a conduziu até o sofá, mas parou antes que ela se sentasse. — Olha pra mim — pediu. Beatriz obedeceu. — Você quer isso — ele disse, não como afirmação, mas como pergunta. — Quero — ela respondeu, a voz firme apesar do coração disparado. — Não porque está confusa. Não porque está presa. — Não — ela confirmou. — Porque eu escolho. Algo se quebrou dentro dele. Eduardo a beijou com fome contida, levantando-a com facilidade, levando-a até o quarto. Cada passo parecia um aviso silencioso de que aquela noite não seria esquecida. Ele a colocou na cama com cuidado, como se temesse assustá-la se fosse rápido demais. — Se em qualquer momento você quiser parar… — ele começou. Beatriz puxou-o pela gola. — Eu vou falar. O olhar dele escureceu. O resto da noite foi uma mistura perigosa de intensidade e delicadeza. Eduardo tocava como quem tinha passado tempo demais sem permissão, mas agora se recusava a errar. Cada gesto vinha acompanhado de atenção, de leitura do corpo dela, de espera. Beatriz se descobriu respondendo a ele sem reservas, sem medo, sem o peso do contrato pairando sobre sua cabeça. Ali, nua diante dele, ela não era esposa. Não era herdeira. Não era peça de negociação. Era desejo. Era escolha. Era real. Quando finalmente adormeceu, exausta, com o corpo ainda sensível e a mente em caos, Eduardo permaneceu acordado por um tempo. Observando-a. A mão dele repousava de leve na cintura dela, como se precisasse daquela conexão física para acreditar que aquilo não era mais uma visão, mais um aviso tardio. Ele pensou na comissão. No divórcio. No aviso antigo da família. Nada daquilo importava agora. Porque, naquela noite, Beatriz ficara. E ele sabia — com uma certeza que beirava o divino — que deixá-la ir depois disso seria impossível. Beatriz acordou com o sol entrando pelas frestas da cortina. Por um segundo, esqueceu onde estava. Então sentiu. O braço ao redor de sua cintura. O calor. A respiração tranquila atrás de si. Abriu os olhos devagar. Eduardo ainda dormia. Parecia diferente assim. Menos imponente. Mais humano. Perigosamente humano. Ela se levantou com cuidado, vestiu uma camisa dele e foi até a janela. O mundo continuava girando como sempre. Mas algo nela tinha mudado. Não havia arrependimento. Havia medo, sim. Mas também havia uma verdade impossível de ignorar: Ela não era mais indiferente a ele. E isso tornava tudo mais complicado. Quando voltou para a cama, Eduardo já estava acordado. — Bom dia — ele murmurou. — Não faz disso um hábito — ela disse, embora o tom não fosse duro. Eduardo sorriu de canto. — Tarde demais. Beatriz sentou-se na beirada da cama. — Isso não muda o divórcio — avisou. — Ainda preciso pensar. — Eu sei — ele respondeu. — E eu vou esperar. Ela o encarou. — Você não costuma esperar. — Você não costuma ficar — ele rebateu. O silêncio se instalou novamente, mas era diferente agora. Menos ameaçador. Mais honesto. E Beatriz percebeu, com um aperto estranho no peito, que aquela noite não tinha sido um erro. Tinha sido o começo de algo muito mais perigoso.
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